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06/05/2008 - 21h15

Caso Dorothy Stang: "É uma injustiça que se está cometendo", diz bispo sobre absolvição

Claudia de Oliveira
Em Brasília
O bispo de Abaetetuba, no Pará, dom Flavio Giovenale, disse que não se surpreendeu com a absolvição do fazendeiro acusado de ser o mandante do assassinato da missionária Dorothy Stang, na noite desta terça-feira. Para dom Flavio, o resultado do segundo julgamento já era previsto.

"Infelizmente já se tinha esta previsão porque havia muitas pressões sobre isso. E os fazendeiros diziam que não era verdade, que a morte da irmã Dorothy havia sido em legítima defesa. Agora infelizmente se confirma a previsão", afirmou.

EFE - 2007
Vitalmiro Bastos Moura em maio de 2007
FAZENDEIRO É ABSOLVIDO
O fazendeiro Vitalmiro Moura, o Bida, havia sido condenado em primeiro julgamento a 30 anos de prisão. Como a sentença superou os 20 anos, teve direito a outro julgamento. Rayfran Sales, réu confesso do crime, foi condenado a 28 anos de prisão. Ele havia alegado ter matado a missionária em "legítima defesa" depois de ser ameaçado.

"O outro era réu confesso, por isso foi condenado. Só que ele sempre deu respostas vagas sobre os mandantes", disse o bispo de Abaetetuba, para, em seguida, resumir sua opinião sobre a sentença. "É uma injustiça que se está cometendo."

Para ele, o resultado do julgamento serve para os bispos que atuam na região saberem que "não se está enfrentando pessoas superficiais ou que não são bem preparadas" e que "nem sempre a verdade prevalece".

Dom Flavio Giovenale participou nesta terça de uma audiência pública na Câmara dos Deputados para debater a situação dos religiosos ameaçados de morte ao defenderem as populações de suas regiões.

Na reunião, o bispo defendeu uma presença maior da Polícia Federal no Pará. "Nós sonhamos com uma presença maior da Polícia Federal, porque a ausência é um incentivo ao aumento do tráfico na região, que é rota para o comércio internacional de drogas."

A missionária Dorothy Stang foi morta a tiros em fevereiro de 2005, em Anapu, no Pará.

Ameaças

Dom Flavio sofreu ameaça de morte, assim como outros bispos que participaram da audiência nesta terça: dom José Luís Azcona, de Marajó, e dom Erwin Kräutler, do Xingu. Destes, apenas Kräutler é acompanhado por seguranças durante as 24 horas do dia. "São seis policiais militares se revezando em dois turnos", explicou, pouco antes de deixar a audiência da Câmara para voltar a Belém (PA).

"Eu estou cerceado na minha missão. Continuo fazendo o trabalho que sempre fiz, mas quero ter liberdade de ir e vir como qualquer outro brasileiro, porque não cometi nenhum crime, pelo contrário", reclamou.

"Mas os adversários estão contando com esta reação. Pensam que 'o bispo não vai agüentar' essa situação por muito tempo. Por isso a exigência de apurar de onde parte a ameaça", completou dom Erwin, que era companheiro de trabalho de Dorothy Stang. "Eu não vou pendurar minhas chuteiras", concluiu.

Os outros dois bispos que participaram da sessão são monitorados com rondas onde moram e nos locais que freqüentam. "Os policiais são 'gente boa' e disponibilizaram até o número dos celulares deles para quando eu precisar", disse dom Flavio.

O secretário de Segurança Pública e Defesa Social do Pará, Geraldo Araújo, não compareceu à audiência. Cláudio de Souza, que assumiu há um mês a Secretaria de Segurança Pública de Roraima, foi à comissão, mas disse que estava presente "como ouvinte" e que havia ficado"surpreso" com as informações sobre as ameaças. "Eu nunca recebi qualquer denúncia sobre ameaças".

Ações

A deputada Janete Capiberibe (PSB-AP) presidiu a audiência da Comissão da Amazônia, Integração Nacional e de Desenvolvimento Regional. Ela mencionou a intenção de criar uma força-tarefa para combater a violação de direitos humanos na Amazônia e ressaltou a importância de fazer chegar ao presidente Lula os temas debatidos na audiência. "Não vamos deixar o debate morrer aqui", prometeu.

O representante da Polícia Federal, Felipe Seixas, destacou a importância de integração com as outras polícias para o combate ao crime no Pará. "Há questões nas quais a Polícia Federal não pode atuar, porque são competência da Polícia Civil. A Polícia Federal só se envolve no tráfico de pessoas, por exemplo, se ele ocorrer entre Estados ou internacionalmente. A exploração sexual local é uma ação da Polícia Civil. Daí a importância de uma ação integrada, na forma de cooperação", afirmou.

O procurador da República Felício Pontes Júnior lembrou que, no Pará, os processos deixaram de ser contra madeireiras e grileiros, para serem contra o governo federal. "Este ano passamos a processar os órgãos públicos federais, para que eles possam fazer o trabalho deles. Com essas ações, o gestor do órgão público pode ser responsabilizado, multado ou até preso, se houver crime de desobediência. Então, os gestores já estão se mobilizando, pedindo recursos humanos e financeiros para viabilizar os trabalhos."

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