UOL BichosUOL Bichos
UOL BUSCA
ÚLTIMAS NOTÍCIAS

19/04/2008 - 11h57

Gato selvagem pode ser extinto em Portugal por hibridação

Porto, 19 abr (Lusa) - Um macho adulto de gato selvagem entrou discretamente em uma chácara onde vivia uma gata doméstica e gerou crias híbridas, que podem ser responsáveis pela extinção do último felino selvagem existente em Portugal.

O episódio, ocorrido na região do Rio Guadiana, foi presenciado pelo biólogo Pedro Monterroso, do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (Cibio) de Portugal.

"A hibridação é mútua, mas o mais fácil de acontecer é os machos selvagens visitarem fêmeas domésticas, até porque é difícil os domésticos entrarem no território dos selvagens", afirmou o pesquisador.

O gato selvagem é uma espécie protegida pelo Livro Vermelho dos Vertebrados Portugueses, onde está classificada como vulnerável, o que significa que a população diminuiu 30% em um período de 10 anos.

"Se continuar assim, dentro de 30 anos não haverá gatos selvagens em Portugal", alertou Pedro Monterroso, frisando que "a ameaça da espécie é um dado adquirido".

O gato selvagem português tem sofrido a destruição de seu habitat, mas a situação se agravou com a recente descoberta de indícios de hibridação com gatos domésticos, o que pode apressar a extinção da espécie.

"O problema da hibridação resulta da falta de opções. Se os machos tiverem fêmeas da própria espécie para se reproduzirem, não têm necessidade de se aproximar das casas ou de permitir que gatos domésticos entrem em seu território", defendeu o pesquisador.

No mesmo sentido, Rita Oliveira, que também integra a equipe do Cibio que estuda os gatos selvagens, defendeu a necessidade de se manterem estáveis as populações selvagens, "com um balanço entre sexos suficiente para que os cruzamentos sejam naturais".

A principal causa da atual situação desta espécie resulta da deterioração de seu habitat por invasão do homem, agravada pela construção de estradas que cortaram regiões onde os animais deveriam andar sem problemas.

"O gato selvagem precisa de zonas de caça, de repouso e de reprodução, tendo estas que ser tranqüilas para ele se sentir seguro para ter as crias", revelou Pedro Monterroso, acrescentando que "tem que ser uma zona com vegetação natural desenvolvida, onde consiga entrar facilmente e saiba que não vai ser perturbado".

A necessidade de espaço é conseqüência das características de animais solitários da espécie, que não toleram outros do mesmo sexo em seu território, que pode ter entre cinco e dez quilômetros quadrados.

Esta espécie tem, no entanto, uma estratégia reprodutiva polígama, já que o território dos machos se sobrepõe ao de várias fêmeas.

O gato selvagem, mais robusto e com uma cauda mais curta do que o doméstico, pesa entre três e sete quilos e pode medir cerca de um metro de comprimento.

Sua atividade ocorre, especialmente, durante o amanhecer e o anoitecer, alturas mais favoráveis à caça de alimentos, que se caracteriza por ser silenciosa e de espera, valendo-se de suas notáveis visão e audição.

Esta espécie, que se alimenta preferencialmente de coelhos e pequenos mamíferos, prefere áreas pouco humanizadas.

O Cibio está preparando um projeto com o objetivo de saber quantos gatos selvagens existem em Portugal e qual sua distribuição geográfica.

"A nossa idéia é montar um projeto a nível nacional que permita saber a distribuição do gato selvagem e, se possível, o número de indivíduos", revelou Paulo Célio Alves, que coordena a equipe de pesquisadores do felino.

Este projeto terá como base os marcadores genéticos desenvolvidos pela equipe e os promotores esperam que ele envolva as várias instituições interessadas na preservação da espécie.

"O ideal seria ampliar este estudo para a Espanha, porque as populações ibéricas de gato selvagem são consideradas vulneráveis e o recolhimento de informação sobre o que está se passando deve ser uma prioridade", destacou Paulo Célio Alves.

Hospedagem: UOL Host