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10/07/2007 - 11h05

Cadáveres fazem iraquianos desistirem de peixe do rio Tigre

BAGDÁ, Iraque (Reuters) - Os peixes de rio não fazem mais parte do cardápio dos moradores de Bagdá.

Os cadáveres retirados com frequência do rio Tigre fizeram a capital do Iraque perder o gosto por seu tradicional prato de carpa grelhada, o Masqouf, depois de clérigos terem dito que o peixe estava se alimentando dos corpos em decomposição.

"Eles espalharam rumores sobre o peixe. Afirmaram que ele come os corpos dos afogados, mas isso é apenas um boato", afirmou Hussein Ahmed, 62 anos, pescador, depois de atirar suas redes em uma parte do rio que pode ser vista da Zona Verde, a área de segurança máxima localizada em Bagdá.

Um grande número de cadáveres aparece toda semana na cidade, vítimas da incessante onda de violência em que se enfrentam a maioria xiita e a minoria sunita e que empurra o país para a beira de uma guerra civil.

Muitos desses corpos são jogados no Tigre, que corta o centro da capital e que já se viu costeado por vários restaurantes especializados no Masqouf, um prato que os iraquianos adoravam consumir nas noites de sexta-feira.

A maior parte desses estabelecimentos à beira-rio fechou as portas tempos atrás, quando se transformaram em alvos constantes dos atentados a bomba que passaram a fazer parte do cotidiano de Bagdá desde a invasão do país pelos Estados Unidos, em 2003.

Os pescadores que vivem há décadas do Tigre ainda podem ser vistos atirando suas redes debaixo das pontes da cidade, nas margens e nos bancos de areia vermelha do rio.

Mas os locais onde o peixe costuma se alimentar também concentra os cadáveres, e os pescadores do rio de Bagdá não podem ignorar o fato de que a guerra prejudicou também seu ganha-pão.

"As pessoas começaram a deixar de lado o peixe vindo do rio por causa dos corpos. O comércio de peixe mudou totalmente", afirmou Yassir al-Qurayshi, 36 anos, em uma barraca de peixe do bairro Karrada, uma área rica do centro de Bagdá.

Um fatwa, ou decreto religioso, proibindo os iraquianos de consumirem os peixes do Tigre chegou aos meios de comunicação iraquianos recentemente. Mas ninguém consegue dizer exatamente quem teria sido o responsável pela ordem.

Importantes clérigos xiitas da cidade sagrada de Najaf, ao sul, disseram na terça-feira não saber nada sobre esse fatwa. Autoridades do órgão governamental responsável por representar os poderosos imãs sunitas que comandam as mesquitas sunitas do Iraque não foram encontradas para se manifestarem sobre a questão.

Muitos moradores de Bagdá voltaram-se para as carpas de aparência saudável como as que se debatiam em um tanque de água rasa instalado em uma rua da cidade. Cada uma pesava cerca de 1 quilo. Perto dali, um homem grelhava várias delas sobre uma fogueira.

Esses peixes foram criados em um açude de água doce localizado a uma grande distância do Tigre.

"Essa nova proibição a respeito do peixe dos rios, porque os rios contêm corpos, afeta realmente o mercado e, agora, só comemos os peixes dos açudes", afirmou Saifaddin, um cliente.

Os cadáveres em decomposição não são a única coisa que prejudicou a pescaria de rio após o começo da guerra.

"Alguns começaram a pescar usando eletricidade e explosivos. Então, as pessoas não gostam mais do peixe dos rios. Elas preferem os peixes dos açudes", afirmou Qurayshi.

Hospedagem: UOL Host