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24/03/2010 - 11h24

Tiger Woods pode ter baseado seu pedido de desculpas em tratamento de 12 passos

Donald G. McNeil Jr.
The New York Times
  • O jogador de golfe norte-americano Tiger Woods em seu primeiro pronunciamento depois do escândalo que escancarou seus casos extraconjugais

    O jogador de golfe norte-americano Tiger Woods em seu primeiro pronunciamento depois do escândalo que escancarou seus casos extraconjugais

Durante a longa e sofrida declaração para uma audiência nacional há poucas semanas, Tiger Woods não usou a expressão vício em sexo. Porém, no pedido público de desculpas por sua infidelidade, em que disse que estava retornando à religião e admitiu que tivesse “trabalho a fazer”, ele pareceu estar cumprindo um tratamento típico de 12 passos contra a dependência.

Especialistas da área observam que Woods tocou em vários pontos-chave do programa oferecido pela clínica Gentle Path, em Hattiesburg, Mississipi, na qual ele foi fotografado na porta de entrada.

Nos passos 8 e 9 do programa, por exemplo, os pacientes são instruídos a listar todas as pessoas que eles tenham prejudicado e buscar reparações. Em sua declaração, Woods enfatizou seus erros e pediu desculpas à sua família, à família de sua esposa, aos seus parceiros de negócios e patrocinadores e aos pais em geral, que “me consideravam um exemplo para seus filhos”.

Em sua aparente adoção do programa de 12 passos – criado pelos Alcoólicos Anônimos e depois utilizado pelos Narcóticos Anônimos, Viciados em Sexo Anônimos e grupos de viciados em jogo, comida e compras –, Woods aprofundou o debate sobre distúrbios sexuais e suas formas de tratamento.

A simples ideia de que alguém possa ser viciado em sexo é controversa e inevitavelmente leva a risos e piadas. Aqueles que alegam dependência muitas vezes são acusados de buscar uma desculpa médica para sua promiscuidade.

Embora o vício em sexo não seja reconhecido pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Desordens Mentais da Associação Psiquiátrica Americana, os psiquiatras há muito reconhecem que há “casos claros, nos quais as pessoas arruínam suas vidas por causa de sexo”, afirma o Dr. Michael First, professor de psiquiatria da Universidade de Columbia e editor do manual. O “distúrbio hipersexual” está em análise para ser incluído na próxima edição.

“A questão é como definir o limite entre o apetite sexual saudável e o vício”, diz First.

O diagnóstico depende de como a busca pelo sexo interfere em outros objetivos, se o paciente tentou parar e fracassou e que estado de humor a atividade provoca.

O Dr. Richard B. Krueger, psiquiatra da Universidade de Columbia e especialista no tratamento de criminosos sexuais, cita um exemplo: “Um casal apaixonado, que flutua nas nuvens e pratica sexo com frequência, é diferente de um paciente incapaz de parar de assistir pornografia no trabalho”.

O tratamento “está em estágio inicial”, lembra Krueger. A “castração química” com bloqueadores de testosterona, utilizada no tratamento de pedófilos, não é apropriada para estes casos. Os antidepressivos reprimem o desejo sexual, a ereção e o orgasmo em alguns pacientes, mas não em todos. Alguns dependentes são tratados pela psicoterapia individual, enquanto outros recebem ajuda dos programas de 12 passos.

Na clínica Gentle Path, os pacientes vivem em chalés, projetados em forma de semicírculo. Seu fundador, Patrick Carnes, se recusou a dar entrevistas, mas sugeriu terapeutas que conhecem seu programa.

Bart Mandell, terapeuta de vício em sexo em Nova York e presidente emérito do Instituto Internacional dos Profissionais de Traumas e Vícios, que já trabalhou na Gentle Path, diz que a agenda diária de Woods deve incluir meditações matinais e exercícios – como percursos de obstáculos, para desenvolver a confiança em outros pacientes e exercícios de movimentação dos olhos, para “romper suas defesas”.

O tratamento também deve conter entrevistas que sondem possíveis traumas de infância ou abandono, várias reuniões diárias de terapia em grupo e terapia com arte – nas quais ele possa contar suas histórias –, além de uma grande quantidade de redações sobre seu histórico sexual, incluindo suas primeiras lembranças de excitação sexual e seu contato inicial com a pornografia, até chegar ao presente.

Mavis Humes Baird, terapeuta que também conhece a clínica Gentle Path, disse que Woods ficaria sem contato com a família durante semanas e proibido de se masturbar, ver pornografia, ter contato com fãs ou qualquer coisa que pudesse estimular seu desejo sexual.

“Não é permitido praticar sexo sozinho ou com outra pessoa”, afirma Baird.
Nas reuniões de grupo, os viciados descrevem como seus hábitos prejudicaram suas famílias, amigos e carreiras, além de repetirem suas mentiras, subterfúgios e tentativas de culpar outras pessoas.
Em seu discurso, parece que Woods tentou fazer isso, ressaltando que sua mulher, Elin, “merece ser elogiada, e não culpada.”

“No exercício de troca de papéis, outros dependentes devem ter interpretado Woods, sua esposa ou até mesmo sua imagem pública”, explica Baird.

Muito embora a terapia não exija um pedido público de desculpas, seria difícil para alguém como Woods, que possui milhões de fãs, conseguir evitá-lo. Um pedido de desculpas na presença de sua família aumentou sua força, uma vez que o propósito é a decisão de mudar, a qual supera o pedido de desculpas. “É diferente do ‘sinto muito, sinto muito’ que as pessoas já tinham ouvido”, conta Baird.

Tiger Woods praticamente repetiu: “Assim como Elin me mostrou, meu verdadeiro pedido de desculpas a ela não virá na forma de palavras; virá de meu comportamento com o passar do tempo”. Sua declaração também tocou outros aspectos dos programas típicos de 12 passos. O primeiro passo é admitir sua impotência e reconhecer que sua vida está fora de controle. O terceiro é entregar a vida “aos cuidados de Deus, da forma como entendemos Deus”.

Woods disse que voltaria a praticar o budismo, religião na qual foi criado por sua mãe, e que retornaria imediatamente à terapia.

Um membro que há 13 anos participa do grupo Dependentes de Amor e Sexo Anônimos e forneceu apenas seu primeiro nome, Richard, diz que admira a coragem de Woods e afirma que ele superou John Edwards, Bill Clinton e David Duchovny, homens públicos cujas carreiras foram prejudicadas por escândalos sexuais, mas que, segundo Richard, reconheceram vagamente que tinham dificuldade em controlar seus desejos sexuais.

Richard teve muitos casos durante 40 anos e admite que parou apenas quando sua segunda esposa o flagrou.
Ele confessa que a busca por sexo controlava sua vida e, apesar de desprezar todas as mentiras que contava, o verdadeiro impulso era a busca de intimidade, o prazer de caçar e de controlar mulheres vulneráveis.

“Eu gostava da sensação de poder, da capacidade que eu tinha de atrair as pessoas”, admite ele. “O sexo não tinha nada a ver com aquilo. Era uma situação triste.”

O Dr. Mandell, que já tratou atletas profissionais e executivos, acha que Woods foi sincero. Reconhecendo que os cínicos diriam que Woods buscou a terapia apenas porque não queria se divorciar, Mandell declarou: “Ninguém passa pela terapia de vício em sexo cantando ‘jingle bells’. Todo mundo chega ao fundo do poço de algum jeito. Eu diria que 80% das pessoas são pegas. Algumas conseguem blefar, mas a maioria das pessoas com que lido estão motivadas ou acabam se motivando durante o tratamento”.

© 2010 New York Times News Service
 

 

Tradutor:
Cláudia Lindenmeyer

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