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25/03/2010 - 00h00

Preconceito contra obesos cresce nos EUA

Por Harriet Brown
New York Times News Service

Como uma mulher cuja altura e peso me colocam na categoria de obesa na tabela de índice de massa corporal, recentemente me encolhi quando Michelle Obama falou sobre colocar suas filhas de dieta. Embora tenha certeza de que as intenções da primeira-dama são as melhores, também sei que seus comentários sobre obesidade infantil acrescentarão um fardo ainda maior estigma de ter sobrepeso nos Estados Unidos.
Em agosto do ano passado, o Dr. Delos M. Cosgrove, cirurgião cardíaco e presidente da prestigiada Clínica Cleveland, disse a um colunista do New York Times que, se pudesse escapar legalmente, nunca contrataria um obeso. Ele provavelmente conseguiria se safar, na verdade, pois nenhuma legislação federal protege os direitos civis dos trabalhadores gordos, e apenas um estado, Michigan, proíbe a discriminação baseada no peso.

Cosgrove pode ser direto demais, mas está longe de estar sozinho. Posturas públicas sobre gordos nunca foram tão críticas; estigmatizar pessoas gordas se tornou não apenas aceitável, mas, em alguns círculos, necessário. Já me sentei em reuniões com colegas que nem sonhariam em depreciar cor, sexo, classe social ou atratividade geral de alguma pessoa, mas que parecem tranquilos ao comentar sobre seu peso.

Ao longo dos últimos anos, os gordos se tornaram bodes expiatórios para todos os tipos de desgraças culturais. “Hoje, existe uma atmosfera onde não há problema em colocar a culpa de tudo no peso”, disse a Dra. Linda Bacon, pesquisadora nutricional e autora de “Health at Every Size: The Surprising Truth About Your Weight” (Benbella, 2008). “Se estamos preocupados com a mudança climática, alguém aparece com um artigo sobre como as pessoas gordas pesam mais, portanto precisam de mais combustível, e culpam aqueles acima do peso pela mudança do clima. Temos essa forte crença de que é culpa deles, que tudo se explica pela gula ou falta de exercícios”.

Não é segredo que ser gordo raramente é bom para sua carreira. Heather Brown experimentou isso em primeira mão. Alguns anos atrás, ela se candidatou a um emprego de redatora numa pequena organização sem fins lucrativos na região de Boston. Depois de uma bem-sucedida entrevista por telefone, ela foi convidada a comparecer no escritório.

“Assim que cumprimentei a entrevistadora, já sabia que ela não me contrataria”, disse Brown. “Ela lançou um olhar de absoluto desdém e deu importância demais ao fato de irmos até a sala de reuniões pela escada ou pelo elevador. Durante a entrevista, ela nem mesmo olhava para mim, ficava olhando para o lado”. Brown, de 36 anos, que hoje trabalha como reitora-assistente numa faculdade próxima a Chicago, conta nunca ter recebido uma carta de “não, obrigado” após a entrevista.

Essa história é familiar para pessoas como Bill Fabrey, advogado que fundou, em 1969, a Associação Nacional para Acelerar a Aceitação dos Gordos nos Estados Unidos. Os arquivos da organização, segundo ele, são repletos de histórias de pessoas que perderam empregos ou promoções por conta do peso, ou que nem chegaram a ser contratas.

Algumas das mais deliberadas discriminações a gordos vêm de profissionais da medicina. Rebecca Puhl, psicóloga clínica e diretora de pesquisa do Centro Rudd de Diretrizes Alimentares e Obesidade, em Yale, estudou o estigma da obesidade por mais de uma década. Mais da metade dos 620 médicos entrevistados para um estudo descreviam pacientes obesos como “estranhos, sem atrativos, feios e improváveis de obedecer a um tratamento” (essa última é significativa, pois médicos que acham que os pacientes não seguirão suas instruções acabam tratando e prescrevendo de maneira diferente).

Puhl disse estar especialmente incomodada com o quão abertamente os médicos expressavam seus preconceitos. “Se estivesse estudando preconceitos de gênero ou raça, eu não poderia usar as ferramentas de avaliação que uso, pois as pessoas não seriam tão verdadeiras”, afirmou ela. “Elas tentariam ser mais politicamente corretas”.

Apesar da abundância de pesquisas mostrando que a maioria das pessoas é incapaz de realizar mudanças de longo prazo significativas em seu peso, fica claro que os médicos tendem a enxergar a obesidade como uma questão de responsabilidade pessoal. Talvez eles vejam vergonha e estigmas como uma estratégia de tratamento de saúde.
Caso seja verdade, isso está funcionando? Não muito. Pessoas acima do peso fogem de tais julgamentos simplesmente evitando visitas ao médico, seja para exames de rotina, preventivos ou problemas de saúde urgentes.

De fato, o Dr. Peter A. Muennig, professor-assistente de política de saúde em Columbia, diz que o estigma pode fazer mais que manter as pessoas acima do peso longe dos médicos: ele pode até mesmo deixá-los doentes. “O estigma e o preconceito são intensamente estressantes”, explicou ele. “O estresse coloca o corpo em alerta total, o que eleva a pressão, o nível de açúcar, tudo que você precisa para combater ou fugir do predador”.

Com o tempo, esses estresses crônicos levam a um quadro de pressão alta, diabetes e outras doenças, muitas delas (surpresa!) associadas à obesidade. Em estudos, Muennig descobriu que as mulheres que dizem se sentir pesadas demais sofrem de mais doenças mentais e físicas do que aquelas que se dizem confortáveis com seu tamanho – não importando seu peso.

Mesmo se os médicos não expressam diretamente julgamentos baseados no peso, sua propensão pode ferir os pacientes. Um recente estudo mostra que, quando mais alta a massa corporal de um paciente, menos respeito o médico expressa por ele. E quanto menos respeito um médico tem por seu paciente, segundo a Dra. Mary Huizinga, principal autora do estudo e professora-assistente da Escola de Medicina Johns Hopkins, menos tempo o médico passa com o paciente – e menos informação ele oferece.

O estigma de gordo afeta a saúde de todos – gordos, magros ou intermediários. No último outono nos Estados Unidos, a Universidade Lincoln, no sul da Pensilvânia, anunciou que iria pesar e medir todos seus calouros, e exigiriam que aqueles com um IMC acima de 30 se inscrevessem numa aula especial de fitness. Defensores dos direitos dos gordos chamaram isso de discriminação: se a aula de fitness era tão importante para a saúde do aluno, não deveria ser obrigatória para todos?

Os administradores da universidade voltaram atrás após um furacão de repercussões negativas. Mas a controvérsia destaca o fato de que esse estigma não diz respeito a aprimorar a saúde dos indivíduos, como sustentam médicos como Delos Cosgrove. Se assim fosse, as conversas seriam sobre saúde, em vez de números na escala e tabela de IMC.

Bacon conta a história de uma adolescente acima do peso, cuja escola passava por uma “campanha de bem-estar”. Os corredores foram cobertos com pôsteres dizendo: “Evite a obesidade adolescente”. Depois que os cartazes foram afixados, segundo a menina, seus colegas de escola começaram a ridicularizá-la em público, apontando para a menina obesa dos cartazes e dizendo: “Olhem a menina gorda”.

Ela conta que os alunos mais pesados agora eram induzidos a sentir culpa por suas escolhas de almoço, enquanto os magros podiam comer qualquer coisa sem ouvir comentários – mesmo que fosse exatamente o que as crianças gordas estavam comendo.

“O estigma dá às crianças magras permissão para achar que há algo de errado com as crianças mais pesadas”, disse Bacon, a pesquisadora nutricional. “E isso não ajuda com que olhem para seus próprios hábitos de saúde. Tem de haver uma maneira de fazer isso de forma mais respeitosa e eficiente”.

Harriet Brown leciona jornalismo para revistas na Newhouse School, em Syracuse, NY.

Tradutor:
Grabriela D'Ávila

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