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13/08/2009 - 19h44

Brilho do Nobel se apagou rápido para o Painel de Mudanças Climáticas (IPCC)

Andrew C. Revkin
The New York Times
Dois anos atrás, uma cúpula científica internacional atraiu atenção mundial ao reportar que a atividade humana estava aquecendo o planeta de formas que poderiam afetar seriamente os assuntos e a natureza humanos.

O trabalho do grupo, o Painel Intergovernamental de Mudança Climáticas (IPCC, da sigla em inglês), dividiu o Prêmio Nobel da Paz de 2007 com o vice-presidente americano Al Gore. Após duas décadas entregando relatórios ao mundo sem fanfarra, ele subitamente obteve um amplo acompanhamento.

Arquivo Folha Imagem
Rajendra K. Pachauri, diretor do IPCC
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Contudo, enquanto o painel se prepara para seu próximo relatório, muitos especialistas em ciência e política do clima, tanto dentro quanto fora da rede, avisam que ele poderia rapidamente perder relevância - a menos que ajuste o método e o foco.

Embora o painel, fundado em 1988 e operando sob proteção da Organização das Nações Unidas, tenha colecionado prêmios e aclamações, há poucas evidências de que os países estejam fazendo algo a respeito de seus avisos. As emissões de gases aumentaram. Conversas sobre o novo tratado do clima permanecem basicamente travadas.

"Como a mesma dificuldade de se agarrar a cauda de um tigre, o IPCC conseguiu a atenção mundial, mas agora o desafio é fazer o tigre seguir na direção correta", disse Michael MacCracken, antigo colaborador dos relatórios do painel e cientista-chefe do Climate Institute, um grupo sem fins lucrativos. "Para o IPCC, isso significa oferecer diretrizes que irão minimizar os impactos climáticos e maximizar os investimentos num futuro próspero e sustentável".

Ambientalistas afirmam que os relatórios do painel são atrapalhados pela exigência de que os governos patrocinadores aprovem seus resumos linha por linha.

Alguns especialistas consideram que a organização, acusada de avaliar ciências de rápida evolução, fracassou em acompanhar o ritmo da explosão de pesquisas climáticas.

Ao mesmo tempo, cientistas que questionam a probabilidade de uma interferência calamitosa no clima da Terra, acusam o painel de escolher a dedo os estudos e subestimar os níveis de incerteza acerca da severidade do aquecimento global.

"É como se o IPCC tivesse passado de corretor da ciência a porteiro", disse John R. Christy, cientista de clima da Universidade do Alabama, em Huntsville, e ex-autor do painel.

Numa entrevista, Rajendra K. Pachauri, diretor do IPCC, rejeitou a acusação de preconceito, apontando camadas de transparentes revisões por pares.

Todavia, ele reconheceu os desafios que o grupo enfrenta ao traduzir ciência complexa de uma forma que produza reações significativas.

Sob suas diretrizes, o grupo não pode recomendar um curso de ação para cortar riscos climáticos. Ele definiu caminhos específicos para a emissão de gases-estufa, que os governos precisam seguir para evitar o superaquecimento do planeta, mas as necessidades dos governos não seguem esses caminhos.

Por exemplo, Pachauri apontou que enquanto os líderes do Grupo dos Oito países industriais prometeram, no mês passado, tentar limitar o aquecimento global para dois graus Fahrenheit além da temperatura atual do planeta, eles não conseguiram adotar as reduções de emissões que o painel considera necessárias para manter essa promessa.

Encontrar maneiras para direcionar nações sem ser prescritivo é um foco principal, enquanto a rede de cientistas embarca em sua quinta avaliação de pesquisas sobre tendências, projeções e opções políticas do clima.

Próximo relatório

Embora o novo estudo não esteja agendado para antes de 2014, seu formato será determinado numa reunião, em outubro próximo, de representantes governamentais de mais de 80 países.

Em preparação para essa reunião, 200 cientistas que de
sempenharam papéis fundamentais nas avaliações climáticas se reuniram no mês passado, em Veneza, na Itália, para identificar novas prioridades. Trabalhando em um "documento de visão", desenvolvido por Pachauri, eles começaram a escrever um rascunho do quinto relatório a ser apresentado na reunião de representantes governamentais de Bali, em outubro.

Uma meta para o próximo relatório é uma avaliação muito mais completa do quanto, e do quão rápido, os mares poderiam se elevar com o aquecimento ininterrupto. O relatório de 2007 do painel excluía expressamente a influência do derretimento das calotas polares, graças ao entendimento limitado do quão rápido elas poderiam derreter.

Evitar a discussão de tais possibilidades por falta de segurança científica pode sugerir que também haja uma baixa probabilidade de elas acontecerem, segundo Stephen H. Schneider, climatologista de Stanford e antigo membro do painel. Esse não é necessariamente o caso, disse o especialista.

Será dedicada maior atenção a pesquisas sobre o potencial de alterações perigosas na química do oceano, à medida que os mares absorvem bilhões de toneladas de dióxido de carbono. Outro foco serão os métodos artificiais de grande escala para confrontar o aquecimento, mais conhecida como geoengenharia.

O painel também tentará, com mais afinco, identificar impactos antecipados de mudanças climáticas em certas regiões, e opções para estimular a adaptabilidade em locais especialmente vulneráveis, como a África abaixo do Saara.

Pachauri apontou que o painel colocou numa conta os valores recebidos com o Prêmio Nobel, cerca de US$670 mil, para ajudar os países mais pobres do mundo a enfrentar secas, inundações e outros riscos climáticos (Gore doou sua parte à organização chamada Aliança para proteção do Clima).

Serão necessárias, contudo, dezenas de bilhões de dólares em ajuda, já que o crescimento populacional explosivo e as mudanças em padrões climáticos tornam os países pobres mais vulneráveis, de acordo com uma variedade de estudos.

Previsões

Alguns especialistas em modelos climáticos avisam que os governos podem estar com expectativas exageradas, achando que a ciência pode prever com segurança como o aquecimento global atuará localmente.

Gavin A. Schmidt, modelador climático do Instituto Goddard para Estudos Espaciais de Manhattan, parte da agência National Aeronautics and Space Administration, disse que os esforços usando simulações eletrônicas de condições locais para prever resultados específicos de mudanças de clima ainda estavam nos estágios iniciais de desenvolvimento.

"Esperar que uma resolução mais alta irá melhorar as previsões em escalas menores não passa de um sonho", disse Schmidt por e-mail.
Outros cientistas envolvidos na criação do próximo relatório temem que o aumento da deserção, em estudos revisados por pares sobre mudanças climáticas, esteja impossibilitando uma avaliação ampla e clara desse tipo de pesquisa.

Em Veneza, Neville Nicholls, um dos principais escritores em diversas partes do último relatório, enviou um mapa mostrando que 4.500 estudos sobre o clima foram publicados em 2007, três vezes o total da década anterior.

Dado que as centenas de cientistas do painel eram voluntários com seu tempo, isso apresenta um desafio assombroso, disse Nicholls, um cientistas de clima da Universidade de Monash em Victoria, na Austrália.
Ele propõe que o grupo escreva relatórios com mais foco em assuntos relevantes à definição de políticas.

Nicholls sugeriu que o painel poderia, eventualmente, trocar para a revisão do fluxo de pesquisas sobre questões mais básicas. Esse processo se daria através de um sistema constantemente atualizado - algo como uma Wikipédia.

O painel já realiza relatórios especiais ocasionais, com um que chega no próximo ano sobre o potencial de tecnologias de energia renovável para cortar emissões de gases-estufa, e outro em 2011 sobre limitar os riscos de seca e outros desastres causados pelo clima.

Christopher Field, participante e presidente de uma seção da avaliação que está por vir, disse que um foco importante era a pesquisa psicológica e sociológica sobre como as pessoas agem frente a ameaças incertas, porém substanciais.

"Nós identificamos a natureza do problema, e a ciência social mostra que ele é da mais dura categoria", disse Field, que dirige o departamento de ecologia global da Instituição Carnegie, em Stanford.
Uma esperança é que o rascunho final de outubro, uma vez aprovado, estimule governos a investirem mais recursos nesse tipo de pesquisa, de forma que o relatório de 2014 possa incorporar descobertas.
No fim, talvez a mudança mais vital seja que o painel preste mais atenção às possibilidades obscuras, porém mais consequenciais, num mundo em aquecimento, afirmou Schneider.

O painel, segundo ele, poderia fazer mais para distinguir entre as consequências do aquecimento que pesquisas mostram serem realmente improváveis, como o fechamento das correntes do Atlântico, e aquelas que são possíveis, porém incertas. Um exemplo do segundo tipo, diz ele, é a chance de que o planeta se aqueça muito mais do que o projetado pelos modelos; outro é a possível desintegração prolongada das calotas polares.

Schneider apontou que a sociedade se baseia em análises de risco desse tipo a todo tempo, com assuntos como a escolha de tratamentos para cânceres raros e pouco conhecidos (Scheinder sobreviveu a um episódio como esse), e na avaliação de estratégias militares.

Pode ser desconfortável, para os cientistas que buscam certeza em dados, abordar a questão de como determinar ameaças incertas. Entretanto, os responsáveis por tomar as decisões não estarão bem servidos se o espectro das possibilidades pouco conhecidas, junto ao nível de incerteza, não forem também conduzidas por especialistas, afirmou.

"Se você não diz nada antes de ter alta confiabilidade e evidências sólidas", concluiu, "está falhando com a sociedade".

Tradução: Pedro Kuyumjian
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