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25/09/2009 - 22h12

NYT: Amor condicional traz obediência, mas tem um custo

Alfie Kohn
The New York Times
Há mais de 50 anos, o psicólogo Carl Rogers sugeriu que simplesmente amar seus filhos não era suficiente. Temos de amá-los incondicionalmente, dizia ele - pelo que eles são, não pelo que eles fazem. Como pai, sei que essa é uma tarefa difícil, mas ela se torna ainda mais desafiadora agora que grande parte dos conselhos que recebemos corresponde exatamente ao contrário. De fato, recebemos dicas sobre a criação condicional, que vem em dois formatos: ativar a afeição quando as crianças são boas, retirar a afeição quando elas não são.

Assim o apresentador de talk show Phil McGraw nos conta, em seu livro "Family First" (Free Press, 2004), que as coisas de que as crianças precisam ou gostam devem ser oferecidas de forma contingencial, transformadas em recompensas a serem dadas ou retiradas, para que elas "se comportem de acordo com sua vontade". Ele acrescenta que "uma das moedas mais valorizadas por uma criança é a aceitação e a aprovação dos pais".

Wesley Bedrosian/The New York Times
Estudo mostrou que adolescentes que foram criados em sistema de "recompensas" ou "punições" emocionais cultivavam mais ressentimentos pelos próprios pais
CRIANÇAS E ADOLESCENTES
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De forma semelhante, Jo Frost, do seriado "Supernanny", em seu livro homônimo (Hyperion, 2005), afirma: "As melhores recompensas são atenção, elogios e amor", e isso deve ser "retirado quando a criança se comporta mal, até que ela peça desculpas" - nesse momento, o amor é novamente ativado.

A criação condicional não se limita a pessoas autoritárias e quadradas. Algumas pessoas que gostam da ideia de espancar seus filhos escolhem disciplinar suas crianças isolando-as forçadamente, uma tática que preferimos chamar de "pausa". De modo oposto, "o reforço positivo" ensina as crianças que elas são amadas, e amáveis, apenas quando elas fazem o que nós decidimos que é "um bom trabalho".

Isso levanta a intrigante possibilidade de que o problema com os elogios não é que eles sejam feitos da forma errada - ou feitos muito facilmente, como insistem os conservadores sociais. Em vez disso, pode ser apenas mais um método de controle, análogo à punição. A principal mensagem de todos os tipos de criação condicional é que as crianças devem aprender a ganhar o amor dos pais. Uma regime contínuo desse, alertou Rogers, e as crianças podem acabar precisando de um terapeuta para oferecer a aceitação incondicional que eles não receberam.

Mas será que Rogers estava certo? Seria bom ter algumas evidências. Agora temos.

Em 2004, dois pesquisadores israelenses, Avi Assor e Guy Roth, se uniram a Edward L. Deci, um importante especialista americano sobre a psicologia da motivação, e perguntaram a mais de cem estudantes universitários se o amor que eles tinham recebido dos pais parecia depender de eles irem bem na escola, dedicarem-se aos esportes, mostrar consideração pelos outros ou suprimir emoções como raiva e medo.

Os resultados mostram que as crianças que receberam aprovação condicional realmente tinham maior tendência a agir da forma pretendida pelos pais. Porém, a obediência teve um preço muito alto. Primeiro, essas crianças tiveram tendência a nutrir ressentimentos pelos pais. Segundo, elas disseram que a forma como elas agiam era muitas vezes relacionada a "uma forte pressão interna", não "um verdadeiro sentimento de escolha". Além disso, a felicidade delas depois de ter sucesso em algo era geralmente curta, e elas muitas vezes se sentiam culpadas ou envergonhadas.

Num estudo comparativo, Assor e seus colegas entrevistaram mães de filhos já crescidos. Também com essa geração, a criação condicional se mostrou prejudicial. As mães que, quando crianças, sentiam ser amadas apenas quando atingiam as expectativas dos pais agora se valorizavam menos como adultas. Apesar dos efeitos negativos, essas mães tiveram maior tendência a usar a afeição condicional com seus próprios filhos.

No último mês de julho, os mesmos pesquisadores, agora acompanhados por dois colegas de Deci da Universidade de Rochester, publicaram duas replicações e extensões do estudo de 2004. Dessa vez, o alvo eram estudantes do último ano do ensino médio, e o fato de dar mais aprovação quando as crianças faziam o que os pais queriam foi cuidadosamente distinguido do fato de dar menos quando elas se comportavam mal.

Os estudos descobriram que tanto a criação condicional positiva quanto a negativa eram prejudiciais, mas de formas levemente diferentes. A versão positiva às vezes tinha sucesso em fazer com que as crianças trabalhassem mais duro em tarefas acadêmicas, mas ao custo de sentimentos pouco saudáveis de "compulsão interna". A criação condicional negativa não funcionou nem no curto prazo; apenas aumentou os sentimentos negativos dos adolescentes em relação aos pais.

O que esses e outros estudos nos dizem é que elogiar as crianças por terem feito algo certo não é uma alternativa significativa à punição quando elas fazem algo de errado. Ambos são exemplos de criação condicional, e ambos são contraproducentes.

O psicólogo infantil Bruno Bettelheim prontamente reconheceu que a versão negativa da criação condicional, conhecida como "pausa", pode causar "sentimentos profundos de ansiedade". "Quando nossas palavras não são suficientes", disse ele, "a ameaça da retirada do nosso amor e afeição é o único método são para causar a impressão de que é melhor a criança atender ao nosso pedido".

No entanto, os dados sugerem que a retirada do amor não é particularmente eficaz em obter obediência, muito menos promover o desenvolvimento moral. Mesmo quando conseguimos fazer com que a criança nos obedeça - digamos, usando o reforço positivo -, será que a obediência compensa o dano psicológico de longo prazo? O amor dos pais deve ser usado como uma ferramenta para controlar as crianças?

Questões mais profundas estão por trás de um tipo diferente de crítica. Albert Bandura, pai do ramo da psicologia conhecido como teoria da aprendizagem social, declarou que o amor incondicional "tornaria a criança sem direção e detestável" - uma afirmação da qual estudos empíricos discordam completamente.

A ideia de que crianças aceitas pelo que são não teriam direção diz muito mais sobre a visão pessimista daqueles que fazem esse tipo de alerta.

Na prática, segundo uma coletânea impressionante de dados feita por Deci e colegas, a aceitação incondicional por parte dos pais, assim como professores, deveria ser acompanhada pelo "apoio à autonomia": explicando razões para as solicitações, maximizando oportunidades para a criança participar de tomadas de decisão, motivando sem manipular, e imaginando ativamente como as coisas são do ponto de vista da criança.

A última dessas características é importante porque diz respeito à própria criação. A maioria de nós protestaria que, "claro, nós amamos nossas crianças, independente de qualquer coisa". Mas o que conta é como as coisas são sob a ótica da criança - se ela se sente tão amada quando faz bagunça ou comete falhas.

Rogers não disse isso, mas eu aposto que ele ficaria orgulhoso de ver menos demanda por terapeutas habilidosos se isso significasse que as pessoas estivessem crescessem com um sentimento de aceitação incondicional na infância.

*Alfie Kohn é autor de 11 livros sobre comportamento humano e educação, incluindo "Unconditional Parenting" e "Punished by Rewards"
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