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03/11/2009 - 12h07

Arqueólogos descobrem sacrifícios macabros da antiga Mesopotâmia

John Noble Wilford
The New York Times

Uma nova análise de caveiras do cemitério real em Ur, descoberto no Iraque há quase um século, parece defender uma interpretação mais macabra de sacrifícios humanos associados a funerais da elite na Mesopotâmia antiga, dizem arqueólogos.


Criados do palácio, como parte do ritual mortuário real, não recebiam uma dose de veneno para encontrar uma morte serena. Em vez disso, um afiado instrumento, talvez uma lança, era introduzido em suas cabeças.


Arqueólogos da Universidade da Pensilvânia chegaram as essa conclusão após conduzir os primeiros exames de tomografia computadorizada (TC) em dois crânios do cemitério de 4.500 anos de idade. Com 16 luxuosas tumbas em construção e rico em ouro e joias, o cemitério foi descoberto na década de 1920. Uma sensação à arqueologia do século 20, ele revelou o esplendor do ápice da civilização mesopotâmica.


A recuperação de aproximadamente dois mil túmulos atestou a prática de sacrifícios humanos em grande escala. Com a morte de um rei ou rainha, ou até mesmo antes, membros da corte – criadas, guerreiros e outros – eram mortos. Seus corpos eram geralmente colocados organizadamente, as mulheres com penteados elaborados, os guerreiros com suas armas ao lado.


C. Leonard Woolley, o arqueólogo inglês que comandou as escavações, uma colaboração entre a Universidade Penn e o Museu Britânico, eventualmente decidiu que os criados haviam marchado até as câmaras funerárias, onde beberam veneno e se deitaram para morrer. Essa se tornou a história convencional.


Entre os muitos restos mortais, apenas alguns crânios foram preservados, e esses haviam sido esmagados em fragmentos – não no momento da morte, mas pelo peso da terra se acumulando ao longo dos séculos para esmagar ossos feito panquecas. Isso havia frustrado esforços anteriores para reconstruir os crânios.


Ao planejar uma nova exposição de artefatos de Ur, que foi inaugurada no último domingo no Museu de Arqueologia e Antropologia da Universidade Penn, Richard L. Zettler, co-curador e especialista em arqueologia mesopotâmica, disse que os pesquisadores fizeram exames de TC em ossos do crânio de uma mulher e de um homem. A partir daí eles obtiveram imagens tridimensionais de cada fragmento, e puderam determinar onde se encaixavam os pedaços.


Os pesquisadores, conduzidos por Janet M. Monge, antropóloga física da Penn, aplicaram habilidades forenses para chegar às prováveis causas da morte nos dois casos.


Havia dois orifícios redondos no crânio do soldado e um no da mulher, cada um com aproximadamente uma polegada de diâmetro. Porém, as evidências mais convincentes, disse Monge numa entrevista, foram rachaduras se irradiando dos buracos. Os buracos só produziriam tais padrões de fraturas ao longo de linhas de pressão se houvessem sido feitos numa pessoa viva. Os ossos de uma pessoa morta há algum tempo, mais frágeis, se destruiriam como vidro, explicou ela.


Monge supôs que os buracos foram feitos por um instrumento afiado, e que a morte “por um violento choque direto foi quase imediata”.


Assassinatos rituais associados à morte da realeza eram praticados por outras culturas antigas, dizem os arqueólogos, e isso levanta uma questão: conhecendo seu provável destino, por que alguém escolheria uma vida como criado da corte?


“É como assassinato em massa, e fica difícil para entendermos”, disse Monge. “Mas na cultura, essas eram posições de grande honra, e se podia viver bem na corte, então era como uma troca. Além disso, a passagem ao próximo mundo não era, para eles, algo que necessariamente inspirava medo”.


Zettler disse que a nova pesquisa também descobriu evidências de que os corpos de algumas vítimas haviam sido aquecidos, assados, mas não queimados, e tratados com um composto de mercúrio. Tratava-se de um processo primitivo de mumificação, não tão avançado quanto as técnicas egípcias da mesma época.


“Aquilo era apenas para evitar que os corpos se decompusessem durante cerimônias funerárias muito extensas”, disse ele.


Numa nota mais otimista, Zettler disse que o sítio da antiga cidade Ur, próximo da atual Nasiriyah, no Iraque, foi poupado das recentes batalhas que trouxeram danos e saques a outras escavações. Ur está protegida dentro do perímetro de uma base aérea, que foi recentemente devolvida aos iraquianos.
 

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