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15/10/2009 - 16h00

Entrevista: Países pobres temem acordo vazio em Copenhague

Por Pete Harrison
Da Reuters
Os países pobres não estão bloqueando as negociações sobre o clima, apenas exigem que os países ricos cumpram com os compromissos existentes de ajuda financeira, disse uma negociadora para as 77 nações mais pobres do mundo.

Bernarditas Muller disse que um racha, surgido nas negociações sobre o clima em Bangcoc na semana passada, mostrou que os países ricos querem escapar da responsabilidade pelo aquecimento global causado por suas indústrias e evitar os compromissos existentes para prover um fundo para questões climáticas.

Cerca de 180 países vão se reunir em Copenhague em dezembro para tentar estabelecer um acordo que substitua o Protocolo de Kyoto, o principal instrumento da Organização das Nações Unidas (ONU) contra a mudança climática, que expira em 2012.

A disputa sobre quanto os países ricos pagarão para ajudar os países pobres a se adaptar à mudança climática ameaça solapar as chances de um acordo na conferência, afirmou Muller, que negocia pelo Grupo de 77 nações (G77).

"O que mais tememos é que isso se transforme em uma breve declaração política, dizendo que nada será feito a menos que os países em desenvolvimento façam eles mesmos", disse a filipina Muller à Reuters.

Conversações climáticas preliminares em Bangcoc terminaram com acusações de que países ricos, como os Estados Unidos, estavam tentando descartar o formato já existente do Protocolo de Kyoto.

"É preciso uma transformação completa de mentalidade", disse Muller nos bastidores de um encontro da Oxfam. "(Os países desenvolvidos) querem negar responsabilidades históricas. Eles querem se livrar de seus compromissos legais. Eles querem um novo acordo pelo qual continuem com seu estilo de vida esbanjador".

A Europa diz querer ampliar Kyoto -- que não compromete os EUA nem economias emergentes como a China, o principal emissor mundial de carbono -- e, portanto, prefere aprovar um novo pacto a adicionar um adendo ao acordo de Kyoto.

Muller rejeitou as acusações de que os países pobres estejam bloqueando as negociações ao se recusar em condescender.

"O que de fato me incomoda é eles dizerem que os países em desenvolvimento estão bloqueando o processo. Não tem jeito de os países em desenvolvimento bloquearem o processo. Queremos o cumprimento do compromisso deles de fornecer os recursos (financeiros)".

FINANCIAMENTO

A União Europeia trabalha em medidas para fornecer até 15 bilhões de euros (22,4 bilhões de dólares) por ano aos países pobres até 2020, como parte de uma doação global de cerca de 100 bilhões. Mas nenhuma outra região rica apresentou propostas.

Os países em desenvolvimento terão primeiro que provar que o dinheiro não será desperdiçado mostrando como vão usá-lo para cortar as emissões de forma transparente e passível de verificação, dizem eles.

Mas os países pobres não têm a obrigação de notificar os cortes de emissões, disse Muller. A única obrigação na convenção da ONU sobre mudança climática é que os países ricos forneçam ajuda financeira.

"São os avanços feitos pelos países desenvolvidos para acumular seus recursos financeiros e obter o avanço tecnológico por meio da industrialização que estão danificando o ambiente. É por isso que eles têm um compromisso mitigatório e nós não".

"A razão pela qual estamos sofrendo tanto é que não temos os recursos para combater (as emissões de carbono). No momento, as Filipinas foram atingidas por uma série de tufões, ainda temos inundações e acreditamos que elas continuem até o fim do ano", disse.

"As áreas que estão debaixo d'água agora são áreas de produção de verduras e de arroz. O que vamos fazer? Perdemos povoados e pessoas. E aí eles vêm e nos dizem que precisamos tomar medidas de mitigação e depois notificá-las e comprová-las...como eles podem dizer isso?", questiona.

Muller, no entanto, não descartou a possibilidade de um eventual sucesso em se chegar a um acordo global para combater a mudança climática em Copenhague.

"A negociação é a arte do possível, então sentaremos ali, conversaremos, esperaremos", disse ela.

(Reportagem de Pete Harrison, editado por Anthony Barker)
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