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22/06/2004 - 08h29
Morre Leonel Brizola aos 82 anos

Por Eduardo Davis Rio de Janeiro, 22 jun (EFE).- Leonel de Moura Brizola, um dos mais firmes ativistas contra os militares brasileiros que em 1964 derrubaram seu cunhado João Goulart, morreu ontem no Rio de Janeiro aos 82 anos, vítima de insuficiência pulmonar seguida de infarto no miocárdio.

Segundo os médicos, tudo foi produto do frio que sofreu nos últimos dias no Uruguai, país no qual passou boa parte de seu exílio quando fugiu dos militares que afastaram Jango.

Ele era vice-presidente da Internacional Socialista e presidia ainda o Partido Democrático Trabalhista (PDT), que ajudara a fundar em Lisboa em 1979, quando ainda estava no exílio.

Nascido em 22 de janeiro de 1922 no Rio Grande do Sul, Brizola era filho de uma professora e de um lavrador que morreu na Revolução Federalista de 1923 lutando contra os republicanos. Fez curso técnico rural, trabalhou em uma fazenda e em 1949 se formou como engenheiro, mas no meio dos estudos já tinha sido atraído pela política.

Em 1945, filiou-se ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), do presidente Getúlio Vargas, que tinha fundado essa força política depois de ter dirigido o país no chamado Estado Novo (1937-1945).

Em 1950, Brizola daria um dos passos que marcaria sua vida política, mas no altar. No dia 1º de março daquele ano, casou-se com Neuza Goulart, irmã de João Goulart.

A figura de Brizola alcançou relevância nacional na crise político-militar desencadeada pela renúncia de Jânio Quadros em 1961, depois de apenas alguns meses no poder, uma decisão que ainda continua sem explicações.

O socialista João Goulart era vice-presidente e devia assumir, mas um movimento militar se opôs, argumentando que, com ele, o comunismo chegaria ao Brasil, em meio ao auge dos movimentos sociais.

Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, liderou um movimento pela legalidade que levou os militares a aceitarem uma solução "salomônica" com a adoção de um sistema parlamentar de governo e a nomeação de um primeiro-ministro conservador.

As reformas sociais empreendidas por Goulart, entre elas a agrária e da propriedade urbana, as políticas para dar uma maior participação popular, a abolição por referendo popular do parlamentarismo, as nacionalizações e outras destinadas a reduzir as enormes brechas sociais, desembocaram em uma nova crise e o caos financeiro, que levaram ao golpe de Estado de 1964.

Goulart e Brizola foram ao exílio. E ele regressou com a anistia de 1979. Mas o longo e calculado processo de transição à democracia, idealizado pelos militares, acabou dividindo as esquerdas, minando o socialismo e fazendo surgir alternativas como a proposta por Lula e seu Partido dos Trabalhadores, nascido na etapa final da ditadura ao calor dos sindicatos.

O máximo que conseguiu depois do exílio foi ganhar as eleições para governador do Rio de Janeiro em 1982, depois de uma áspera briga contra a fraude que os antigos partidários do regime militar tentaram forjar. Candidatou-se à presidência em 1989 e 1994. E voltou a tentar chegar ao mais alto do poder em 1998, quando foi candidato a vice-presidente na fórmula liderada por Lula, que perdeu contra Fernando Henrique Cardoso. Depois desse fracasso, rompeu definitivamente com Lula.

Brizola quis recuperar sua popularidade política com uma candidatura à prefeitura de Rio de Janeiro em 2000, mas já estava no ocaso de sua carreira, como seria comprovado dois anos mais tarde, quando quis ser senador e os votos também lhe foram negados.

Após sua morte, Lula disse que o Brasil perdeu uma de suas referências políticas dos últimos 50 anos e declarou três dias de luto.

O Congresso adiou suas sessões de hoje, terça-feira, para homenagear o líder socialista, que há dois anos, depois de seu último tropeço eleitoral, tinha dito: "Deixem que pensem que sou um cachorro morto. Sou de uma geração que durará 110 anos. Nos últimos dez vou descansar, mas até os cem anos estarei aí, andando para a frente, feliz com a vida."

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