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São Paulo
14/10/2004 - 23h35
Em debate tenso, Marta parte para o ataque e Serra revida

Da Redação

 
Atrás nas pesquisas de intenção de voto na sucessão paulistana, a prefeita Marta Suplicy (PT) deixou a tática defensiva adotada no início da campanha e partiu para o ataque contra José Serra (PSDB) no primeiro debate do segundo turno, realizado na noite de quinta-feira (14) na Rede Bandeirantes (leia o texto completo abaixo ou veja o resumo).

Ao contrário do que vinha fazendo no primeiro turno, Marta citou apenas uma vez seu principal projeto na área de educação, o CEU (os megaescolões na periferia). Gastou quase todos os seus tempos de perguntas e respostas para atacar Serra em questões como a presença de um vice, Gilberto Kassab (PFL), que foi secretário do ex-prefeito Celso Pitta (1997-2000).

Serra revidou todos os ataques e também elevou o tom de suas declarações, ao fazer criticas diretas às gestões de Marta e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quem disputou e perdeu a eleição de 2002.

Folha Imagem 
Veja álbum de fotos do debate

A troca de ataques foi favorecida pelo formato do debate, que proporcionou 48 confrontos diretos entre os dois candidatos -como comparação, no último debate do primeiro turno, só houve dois confrontos diretos entre eles.

Em clima tenso, a prefeita citou no segundo bloco frase atribuída ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso segundo a qual "o problema não é o Serra, mas o diabo que existe nele" -intervenção que motivou o único direito de resposta do debate, a Serra.

Nas citações de Kassab, feitas em quatro dos cinco blocos, Marta frisou que o vice da chapa de seu adversário é "da turma do Pitta" e pode governar a cidade caso "aconteça alguma coisa" com Serra.

Outro foco de ataques de Marta foi tentar caracterizar Serra como um candidato sem propostas para a cidade. Em diversos momentos, Marta se dirigiu a Serra como "vocês", em referência ao governador Geraldo Alckmin. "Trago ele [Alckmin] para o debate porque ele é seu padrinho, porque você não tem o que mostrar", disse Marta, em resposta a uma crítica do tucano de que a petista preferia falar dos governos federal e estadual em vez de respoder diretamente suas questões.

Serra disse por várias vezes que a prefeita não respondia as perguntas e centrou seus ataques na questão das taxas criadas durante a gestão Marta (de luz e do lixo) e no que ele considera corte de investimentos na zona leste no Orçamento do ano que vem.

Também criticou a administração de Marta na área da saúde. Serra disse que houve um "apagão na saúde".

Marta gaguejou e trocou sílabas nos dois primeiros blocos. No último, ficou com os olhos marejados e ficou com a voz embargada em suas considerações finais.

Nenhum dos dois candidatos usou o recurso previsto pela Bandeirantes de se movimentar no cenário para fora da bancada.



Resumo dos blocos

Primeiro bloco
Serra iniciou sua participação com ataques às taxas criadas pela prefeitura na gestão do PT, enquanto Marta enalteceu obras de revitalização feitas no centro de São Paulo e a busca de parceiros empresariais na solução de problemas da cidade.

Os argumentos foram apresentados após a pergunta feita pelo jornalista Carlos Nascimento sobre como atrair para a capital as pessoas que deixaram a cidade e como convencer aquelas que desejam ir embora a ficar.

Ao escolher falar das taxas, Serra tocou no ponto de maior rejeição de Marta, segundo pesquisa feita pelo Datafolha. "O que afasta as pessoas da cidade é o sufoco tributário. Investir em São Paulo acaba sendo desvantagem. Tem de se investir em trânsito e fazer um trabalho de cooperação com o Estado, o que não acontece hoje, na área de segurança", disse o tucano.

Marta citou as restaurações de bairros no centro e projetos como o Renda Mínima, o Vai-e-Volta e o Bilhete Único como melhorias para a cidade. "Eu queria agradecer a população mais pobre e também as famílias mais abastadas. Eu gosto de ser prefeita. Eu gostaria de continuar para deixar a cidade mais bonita", disse a prefeita.

Segundo bloco
O bloco foi marcado pela tentativa de agressão pessoal de Marta a Serra. A candidata do PT aproveitou uma de suas respostas para repetir uma frase atribuída ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que teria sido publicada na revista Época: "O problema não é o Serra, mas o diabo que existe nele". A frase acabou dando a Serra um direito de resposta, no qual disse que Marta "fugia do debate, fazendo perguntas pessoais e não respondendo perguntas administrativas".

A tática de Marta no bloco foi tentar mostrar que Serra não tem projeto. Já o tucano tentou mostrar que a atual prefeita não fez uma boa gestão.

Quando questionado em relação aos planos para o transporte, Serra tentou atrelar seus planos à integração do Bilhete Único ao metrô e a trens suburbanos. Ele aproveitou para criticar a falta de engajamento da prefeitura na construção de estações de metrô. A prefeita disse que o tucano "não tem planejamento nem propostas para o transporte na cidade".

Serra voltou a criticar a atual gestão, desta vez usando o Orçamento da cidade para 2005. Ele disse que as verbas destinada a alguns programas sociais da atual administração, como o Renda Mínima e o Começar de Novo, sofrerão cortes. Marta desqualificou Serra, dizendo que "alguém do PSDB não pode falar na área social depois de oito anos de governo federal e dez de estadual sem olhar pelos pobres". Marta ainda acusou Serra de ser a continuação do governo Pitta, citando Kassab pela primeira vez.

Marta voltou a atacar Serra, questionando-o sobre o preço de hemoderivados e os chamados "vampiros" do Ministério da Saúde, episódios que a prefeita ligou à gestão de Serra. Serra respondeu ao ataque anterior, dizendo que o "marqueteiro" de Marta, Duda Mendonça, se consagrou em campanhas malufistas e disse que, na verdade, os "vampirões" que estão presos são ligados ao PT, e não a Serra.

No encerramento do bloco, Serra questionou Marta sobre a taxa da luz, que segundo números que apresentou, arrecadou cerca de R$ 180 milhões, dos quais somente R$ 1,7 milhão seriam utilizados para levar luz para 3 mil ruas e 1,5 milhão de pessoas que moram nessas ruas. A atual prefeita atacou a criação de impostos feitos na gestão FHC no governo federal e disse que 15 mil novos postes já foram instalados neste ano.

Terceiro bloco
Marta acusou Serra de ter privatizado ou "vendido o patrimônio nacional" quando ministro do Planejamento. Serra disse que a privatização foi feita de forma transparente para abater a dívida do governo. Marta voltou a atacar Serra como ex-ministro do Planejamento no governo Fernando Henrique. "Vocês venderam as empresas e o que aconteceu? O apagão".

Marta disse que, para as empresas de energia serem ressarcidas, o governo FHC criou uma taxa adcional de iluminação. Serra afirmou que se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva achasse isso errado teria acabado com a taxa.

Serra perguntou para Marta o que ela fez para acabar com a burocracia na cidade. A Prefeita disse que reestruturou as subprefeituras - que hoje têm "cadeiras acolchoadas e computadores". A petista aproveitou para fazer críticas ao partido de Serra. "Vocês foram governo por oito anos na Presidência da República, o que saiu de indústria de São Paulo é assustador e você quer colocar a culpa em mim?".

Serra perguntou também o que motivou Marta a fazer um Orçamento em que aloca "apenas R$ 2 milhões para o desenvolvimento da zona leste e R$ 21 milhões para os gastos do gabinete da prefeitura?" Marta citou as obras da Jacupêssego e da Redial Leste como as principais realizações na zona leste. Serra rebateu dizendo que a obra da Jacu-Pêssego está parada.

Citando os CEUs (os escolões), Marta perguntou qual é o projeto de Serra para a educação. Ele disse que houve retrocesso na educação, especialmente nas disciplinas de português e matemática e acusou a prefeitura de não ter aumentado o número de vagas em creches. O tucano prometeu ampliar o programa Vai e Volta, que, segundo ele, atende a 10% dos alunos da rede municipal. Esse programa foi implementado na gestão Marta.

Marta disse que os alunos das escolas municipais tem melhor acesso a computadores do que os alunos da rede estadual, do governador Alckmin (PSDB). "Ela acha que educação é prédio e equipamento. Eu acho que é qualidade", rebateu Serra.

Quarto Bloco
No penúltimo bloco, o último que os candidatos fizeram perguntas entre si, Marta manteve a linha de ataques aos governos Alckmin e FHC questionando Serra sobre a situação das unidades da Febem, em São Paulo, e chamando o ex-presidente e o candidato tucano de "pais do desemprego". O tucano questionou a petista sobre a falta de investimentos em campanhas de educação no trânsito e na criação de leitos em hospitais.

Na primeira questão feita por Marta sobre o número de desempregados na gestão do PSDB no governo federal, Serra respondeu com ironia. "Cadê os dez milhões de empregos que o Lula prometeu", disse o tucano.

Na réplica, Marta afirmou que Serra e FHC são os pais do desemprego. "Vocês do PSDB dão aula, são bons de discurso. Quem faz obra sou eu", disse Marta.

Na seqüência, Serra questionou a falta de investimentos em projetos de educação no trânsito. "Nosso investimento no transporte é mais amplo. Cadê o Rodoanel do governo do Estado?", respondeu Marta.

Sobre a questão de Marta sobre a situação da Febem, que a prefeita classificou como "fábrica de criminosos", Serra afirmou que a prefeitura deveria ajudar se responsabilizando pelo cuidado de crianças sob liberdade assistida. "Nós queremos saber de parceria com o Estado", disse Serra.

Para justificar os ataques ao governador Geraldo Alckmin, Marta afirmou que Serra não tem proposta. "Eu trago ele para o discurso porque ele é seu padrinho. Você não tem o que mostrar. No Ministério da Saúde, você não conseguiu nada para São Paulo", disse a prefeita.

Na última questão do bloco, Serra questionou Marta sobre a ausência da criação de leitos nos hospitais. Ela respondeu afirmando que o valor repassado pelo governo federal por habitante da capital aumentou no governo Lula, comparado com o governo FHC.

"Peguei um PAS [modelo de gestão da saúde dos governos Maluf e Pitta]arrebentado. Era herança do governo Pitta que pode voltar porque o vice do Serra era da turma do Pitta", disse Marta.

"O problema do PT é que não sabe gastar. Não tem planejamento. É ruim de gastar", disse Serra na réplica.

Quinto bloco
No último bloco, Serra e Marta fizeram suas considerações finais e mantiveram a dinâmica do debate. De um lado, Serra tentou se mostrar um candidato ponderado, mostrando que ser prefeito é eleger prioridades. De outro, Marta preferiu destacar suas realizações na atual gestão e a vontade de conquistar mais uma para continuar a trazer melhorias para a cidade.

Segundo Serra, sua pretensão é "governar nos serviços fundamentais para a população. Meu caráter é conhecido e minha vida está aí para ser analisada". Destacou que vai eleger prioridades - saúde, educação e transportes. O tucano também relacionou caráter com a qualidade da relação com as pessoas. "É preciso um prefeito amigo da cidade. Sinceridade e autenticidade. É possível mudar a cidade de São Paulo."

Já Marta preferiu falar do partido de Serra. "O PSDB fala em números, discursa, mas não é bom de governo."

Ela também elogiou o formato do debate. "Eu adorei, foi muito melhor, não tive seis pessoas me atacando". Sobre a federalização, Marta disse que precisou levar para esse lado "porque ele [Serra] nunca fez nada em São Paulo e nem tem projeto para a cidade". Voltou a destacar sua boa relação com Lula ("Vou ser pefeita em harmonia total com Presidente da República"). E deu a sua visão sobre o que é governar: "Não é usar números ou discutir, é usar o coração. Gosto muito de governar, porque fazer para quem tem menos é o que é mais gratificante".