! Serra e Marta fazem debate sem ataques pessoais - 29/10/2004 - UOL Eleições 2004 - São Paulo


São Paulo
29/10/2004 - 23h56
Serra e Marta fazem debate sem ataques pessoais

Da Redação

A dois dias da votação final, os candidatos José Serra (PSDB) e Marta Suplicy (PT) fizeram na noite de sexta-feira (29) o último debate do segundo turno. O encontro foi marcado pela ausência de ataques pessoais (característica principal do debate anterior, na TV Bandeirantes). Os candidatos atacaram proposta um do outro e houve acusações mútuas de manipulação de números citados por cada um.

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Serra disse que vai continuar com os CEUs (os escolões na periferia), "se não houver truque no Orçamento". Já Marta disse que Serra "é mestre em manipular número", ao responder a uma pergunta sobre o Orçamento municipal.

O formato adotado também favoreceu a exposição de propostas dos dois lados. Foram dois blocos de perguntas entre os candidatos, dois blocos de perguntas feitas por eleitores e um bloco com considerações finais.

Durante o debate, os candidatos ficaram em pé no meio de uma arena e puderam se movimentar nela -nos moldes do último debate presidencial de 2002.

Os eleitores que participaram do debate foram selecionados pelo Ibope e se declararam indecisos. Segundo o mediador do encontro, o jornalista Chico Pinheiro, as questões foram preparadas previamente pelos eleitores e lidas por eles ao vivo.

Após o debate, entrevistado pela Rede Globo, Serra aproveitou para fazer um apelo aos eleitores para que não viajem no feriado. "Espero que todos compareçam para votar, não trocando três ou quatro dias de feriado por quatro anos", disse o tucano. Já Marta procurou ressaltar propostas apresentadas no encontro. "O debate foi muito bom porque mostrou que sou uma candidata de solução e de compromisso", declarou.



Resumo dos blocos

Primeiro bloco
No primeiro bloco, com perguntas feitas pelos eleitores indecisos, não houve nenhum ataque entre Marta e Serra. Os candidatos preferiram se ater às respostas das quatro questões feitas, sem discussões ou pedidos de direitos de resposta.

A primeira pergunta, sobre os planos dos candidatos para tirar crianças e moradores da rua, foi respondida por Serra, que afirmou que a solução passa pelas alianças com a sociedade civil. "Precisamos de parcerias com igrejas e as associações de bairro e empresariais."

Ele também disse que os problemas dos moradores de rua não estão restritos à falta de moradia e à necessidade de encaminhar crianças sem família para a adoção. Marta disse que já há convênios com cidades italianas para a adoção de crianças.

Quando questionada sobre a criação de cursos pré-vestibulares gratuitos, Marta disse que sua gestão foi a primeira a gerar vagas municipais para o ensino superior, com a criação de faculdades na zona leste. Falou também que os CEUs (os escolões construídos na periferia), além de melhorarem a qualidade do ensino, estão sendo usados para cursos pré-vestibulares, supletivos e profissionalizantes. Serra disse que sua prioridade é melhorar a qualidade do ensino e investir nos professores. "A escola pública era boa, eu estudei em escola pública e cheguei à universidade. Temos que recuperar isso."

Serra respondeu sobre as razões que levam um morador a deixar a cidade de São Paulo. O tucano disse que é preciso melhorar pontos de estrangulamento da cidade e "melhorar o atendimento de saúde pública, o sistema de transportes, fazer mais metrô em parceria com o governo do Estado e estimular o uso de veículos a gás". Também falou da necessidade de diminuir a burocracia para abertura de empresas e diminuir impostos e taxas. Marta preferiu falar sobre educação. "Se os pais têm chances para matricular a criança numa boa escola, eles não saem de São Paulo", disse. A prefeita também aproveitou para dizer que merece um novo mandato porque fez "muito pela cidade na primeira gestão".

Sobre reurbanização de favelas, a candidata petista disse que investiu em moradias populares. "Construimos mais de 24 mil habitações e não podemos ficar só na reurbanização de favelas". Marta disse que para cada tipo de moradia precária a prefeitura tem um tipo de solução. Citou a locação social, que cobra aluguel de 15% da renda das famílias carentes, e a cessão de posse para pessoas que morarvam em áreas da prefeitura. Já Serra preferiu citar o programa Favela-Bairro, feito por Cesar Maia no Rio de Janeiro. "É preciso dar às favelas condições de viver", como nomes de ruas.

Segundo bloco
Com perguntas diretas, Serra e Marta se hostilizaram. Marta perguntou a Serra se ele vai contruir novos CEUs, e o tucano respondeu que, se houver dinheiro no Orçamento, vai construir. Marta disse que ele não vai fazer. Eles discutiram também sobre o orçamento para o gabinete da prefeitura.

Marta disse que recebeu uma prefeitura "arrasada" de Celso Pitta e perguntou para Serra qual a proposta concreta dele para resolver a questão dos transportes.

Serra disse que o problema passa pela integração do ônibus com o metrô, junto com o governo estadual. O tucano disse que o governo do Estado vai implementar um sistema eletrônico para facilitar a integração. Para ele, é preciso haver melhor planejamento do transporte e não deve existir corredor onde há metrô. Ele afirmou que a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) foi sucateada nos últimos anos e criticou a falta de semáforos inteligentes. Serra disse ainda que os corredores de ônibus (o Passa-Rápido) começou nos anos 70, com Olavo Setúbal, e depois, na gestão Mário Covas na prefeitura (1983-1985).

Marta retrucou dizendo que fez uma "revolução no transporte" em dois anos e meio. Ela disse que a linha 5 do metrô custou R$ 1,8 bilhão para transportar 22 mil pessoas e que os seus projetos de ônibus fizeram com que 5 milhões de pessoas fossem beneficiadas. "Se fosse pegar o meu dinheiro e aplicasse no metrô, a cidade estaria esburacada, num caos pior do que na época do Pitta."

Serra lembrou que o dinheiro "não era dela, mas do povo", dizendo que "esse dinheiro deveria ter ido pro metrô", além de criticar a construção dos túneis nas avenidas Faria lima e Cidade Jardim. O candidato do PSDB disse ainda que "tem gente que nem tem linha de ônibus [perto de casa]".

Serra perguntou para Marta por que não foi criado nenhum leito em sua gestão. Marta disse que fez muito pela saúde, mas que "não está satisfeita". Ela criticou o PAS, plano de saúde implementado na gestão anterior. Ela disse que recebeu de Pitta hospitais "detonados, sem equipamentos". Ela citou o aumento de 200 para 700 do número de equipes do Programa Saúde da Família, atendendo a 3 milhões de pessoas. A prefeita disse ainda que, quando assumiu, teve de enfrentar uma crise de dengue na cidade. Ela afirmou também que a mortalidade materna caiu 31%.

Marta citou o seu projeto do CEU Saúde, que prevê a construção de dez policlínicas. A prefeita disse que aumentou de 15% para 17% o Orçamento de 2005 para o setor. "Não sou louca de prometer o que não posso fazer."

Serra lembrou que, como ministro da Saúde, visitava os hospitais para ver os problemas e resolvê-los. Para ele, "não dá pra jogar toda a culpa na gestão anterior".

Marta afirmou que, até outubro, os remédios da prefeitura vinham do governo estadual, mas o "repasse não era adequado". Ela disse que retirou do Estado e reduziu a compra do remédio em 40%. Ela disse que vai "resolver" os problemas da sáude "devagar, com planejamento. Milagre, não tem".

Marta perguntou para Serra se ele é contra ou a favor dos CEUs e se vai construir mais escolas. "Em toda a minha vida pública, deixei a situação melhor do que encontrei", disse. Ele acusou Marta de mudar nomes de projetos (como os corredores de ônibus para Passa-Rápido). Disse também que vai manter os CEUs e "fazer funcionar melhor". "Vou pensar nas 50 mil crianças que estão em escola de lata. Vou pensar na creche. 100 mil crianças estão fora de creche e pré-escolas."

"Quanto aos novos CEUs, se você deixou no Orçamento [dinheiro previsto] sem truques. Se tiver tudo isso no seu Orçamento, nós vamos fazer, tendo claro que ensino não é só prédio."

Em seguida Marta disse: "Acho que ele não vai fazer os CEUs, é uma forma de não se comprometer". Ela disse que vai fazer os 24 CEUs. Marta disse que os "escolões" são o "melhor instrumento para combater a exclusão social" e que isso passa por "prédio bonito sim".

Terceiro bloco
No terceiro bloco, os candidatos novamente responderam questões feitas por eleitores indecisos. Sobre habitação, Marta disse que a prefeitura tem vários programas. "O problema habitacional vem de anos e anos. O Estado tem obrigatoriedade por lei de pôr 1% do ICMS em programas de habitação, mas não faz isso em São Paulo", acusou a petista. Serra disse que a prefeitura deveria ter acelerado o ritmo de construção e aumentar as parcerias com o governo do Estado, principalmente com a CDHU.

Quando questionado sobre saneamento básico e asfaltamento, Serra disse que a parte que cabe à Prefeitura, a do asfalto, não tem sido feita. "É uma questão de fazer, pôr mãos à obra". Em relação ao saneamento, que é responsabilidade estadual, Serra acusou Marta de viver em "pé de guerra" com a Sabesp, companhia estadual que cuida do uso da água e do tratamento de esgoto. "A prefeitura quis desmantelar a Sabesp, municipalizando e quebrando a unidade". Já Marta disse que "a Sabesp arrecada 60% de suas receitas na cidade de São Paulo e só aplica 10% aqui". Disse que sua briga era para o governo municipal ter voz e participação nas decisões da Sabesp.

O desemprego voltou a ser tema de pergunta para os candidatos. Marta relacionou a geração de empregos na capital ao sucesso dos projetos sociais implantados em sua gestão. Disse que as áreas que mais receberam recursos do Renda Mínima, como o Capão Redondo, são as que mais geraram empregos. "A cidade de São Paulo é um farol que tem atraído investimentos". Já Serra tentou vincular o desemprego à política econômica de Lula, "uma cópia malfeita da política do Fernando Henrique e agora o Lula é o queridinho do FMI (Fundo Monetário internacional". Além disso, voltou a citar a burocracia e as taxas como fatores que afastam os empregos.

Nessa questão, Serra afirmou que emprego se deve sobretudo ao governo federal e atacou o PT, dizendo que o partido critiva o governo FHC, mas que tem copiado a política dele agora que chegou ao governo federal. Na tréplica, a petista comentou sobre o ISS e afirmou que Serra distorce os números.

A última pergunta do bloco foi sobre o cumprimento de promessas. Serra falou em trabalhar para a cidade: "Meu compromisso é trabalhar desde a primeira hora, e é o que São Paulo precisa, com planejamento, prioridade e parceria com a sociedade e economia do dinheiro público". Marta acusou Serra de "ficar na teoria e esquecer da prática". Prometeu construir mais 24 CEUs (Centros Educaionais Unificados), 21 terminais de ônibus, 22 Passa Rápido e 40 CEUs Saúde (Clínicas de Especialidades Unificadas). Serra lembrou que algumas de suas propostas já foram adotadas por outras prefeituras, como a distribuição gratuita de remédios para doentes crônicos, já aplicada pela Prefeitura do Rio de Janeiro. O tucano também falou da extinção da "taxa do motoboy". Não sei se fizeram isso por uso eleitoral ou porque viram que estrangulavam os motoqueiros da cidade".

Quarto bloco
Serra perguntou quantas vezes Marta visitou hospitais, lembrando que, quando ministro, ia aos hospitais resolver "imediatamente" os problemas.

Marta disse que visita freqüentemente e que, às vezes, "dói o coração ver determinadas situações". Ela reclamou mais uma vez do PAS, que não previa a manutenção de equipamentos. Ela disse que faz uma "esforço grande" no setor. Serra retrucou dizendo que "isso não tebe efeito". "Talvez isso seja um problema da sua equipe fazer funcionar". Marta diz que "criticar é fácil", e que difícil foi fazer. Ela criticou os hospitais estaduais, mas o tucano afirmou que o govenro do Estado fez cinco hospitais e a prefeitura, nenhum, e que Marta tinha dinheiro para construi-los porque o ex-prefeito Pitta tinha deixado recursos suficientes no orçamento.

Serra perguntou "para onde foi o dinheiro das taxas", se as verbas para enchentes foram cortadas para o ano que vem. Marta acusou Serra de manipular dados "de novo".

O ápice do bloco foi quando Marta disse que Serra critica todos os seus projetos. "Serra, você critica todos os meus projetos e parece que não tem nada de bom no que eu faço. O que você vai fazer com o Vai-e-volta, a merenda escolar, os uniformes?"

Serra disse que vai manter e ampliar os projetos, mas que não é contra eles. O tucano disse que apenas 10% dos alunos são atendidos pelo Vai-e-Volta e que os uniformes das crianças poderiam ser feitos por cooperativas, lembrando que essa proposta é da candidata derrotada do PSB no primeiro turno, a deputada federal Luiza Erundina. Serra reclamou do ensino nas escolas municipais. "Os alunos não sabem quanto é sete vezes oito." Ele ainda questionou a candidata por que não acabou com as escolas de lata se havia dinehiro para fazer CEUs.

Serra perguntou para Marta por que cortou 40% do orçamento com gastos para os deficientes físicos. Marta disse que o portador é prioridade, lembrando ter uma coordenadoria para o assunto dentro de seu gabinete. "No centro, nunca foram feitas tantas rampas."

Marta lembrou ainda que "teve um deficiente" que acusou Serra de muita coisa, mas que ela não tinha preconceito contra os deficientes. A prefeita fez alusão a acusação de Paulo Maluf no horário eleitoral na TV durante o primeiro turno, quando foi exibida gravação de um deficiente físico que disse ter levado "calote" de José Serra na campanha presidencial de 2002.

O candidato retrucou: "Todo mundo ouviu aqui: não falei de ter preconceito, perguntei por que você cortou a verba".

Marta disse que a verba para seu gabinete é ampla. "Você é mestre em manipular número. Você sabe disso muito bem, você é economista. A verba do meu gabinete tem a coordenadoria da mulher, do negro, do idoso, do portador de deficiência, do carnaval; e você fica insinuando que é pra fazer festa no palácio."

Quinto bloco
No quinto e último bloco, os candidatos fizeram as considerações finais.

A primeira a despedir-se foi Marta Suplicy. A prefeita disse que no domingo (31) a população vai julgar os mais de 3 anos e meio de seu mandato e que "para uma pesosa poder julgar, ela tem que ter um sentimento de justiça, que é o mais nobre dos sentimentos".

"Coloque de um lado a cidade que eu recebi e o que eu consegui fazer. Esse é o julgamento que acharia justo." A petista citou ainda que terá o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do mesmo partido que o seu. "Isso não existe há 18 anos." Ela disse ainda ser vítima de "muito preconceito" e disse que é acusada de ser arrogante por ser mulher.

Ela se referiu ainda à disucssão que teve no ano passado com o mediador do debate, Chico Pinheiro, no telejornal "SP TV". "Quando erro, peço desculpa. Liguei para você [Chico Pinheiro] à noite e pedi desculpa. Ele não tinha a obrigação de saber que eu usava colete à prova de balas [durante mudanças no sistema de transportes]."

Ela encerrou dizendo que, se merece ser chamada de "Martaxa", merece também ser também "a Marta dos CEUs, do renda Mínima, dos velhos, das crianças, do Renda Mínima, do Passa-Rápido, e do povo pobre da cidade de São Paulo".

Serra disse que "chega ao dia de hoje depois de uma longa jornada na vida pública". Ele disse que nasceu no bairro da Mooca, na zona leste. "Nunca tive nada de mão beijada, cresci junto com São Paulo."

Lembrou também que participou do governo Montoro (1983-86), de seu mandato de deputado federal e do tempo em que foi ministro da Saúde (1998-2002). Disse que na Saúde o melhor resultado que obteve foi a "queda da mortalidade infantil".

"Estou convencido de que a gente pode melhorar a vida da nossa cidade."

Serra disse que quer fazer que São Paulo volte a ser a terra de oportunidades que era quando ele nasceu.