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26/12/2005 - 21h35
Economia em alta salva governo em 2005

Antonio Palocci, o todo-poderoso da economia brasileira
A economia foi em 2005 uma tábua de salvação para o governo Lula. Abalada pelas denúncias do "mensalão" (suposto esquema do governo para compra de apoio de deputados), a administração petista teve uma inestimável ajuda dos números: as exportações bateram recordes, o real valorizou-se, a inflação ficou sob controle e o governo conseguiu captar dinheiro no exterior, com emissão de títulos.

Armando Pereira
Editor de UOL Economia

O mercado não se assustou com a crise política, salvo em poucos momentos, e deu fôlego ao projeto de reeleição de Lula em 2006, apesar das dificuldades que deve enfrentar por causa dos juros e do reduzido crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), que reflete as riquezas produzidas no país no ano.

Os dados mostram que a imagem do Brasil diante do mundo teve melhora. O risco-país atingiu o menor nível da história, alcançando 304 pontos (o recorde anterior era 337, em 1997) no dia 27 de dezembro. Quanto menor o índice, maior a disposição dos investidores em aplicar no país.

O governo Lula não criou os milhões de empregos prometidos, mas os resultados nessa área delicada mostraram melhora. O número de desempregados em outubro caiu 7,3% em relação ao mesmo mês de 2004, conforme dados do IBGE.

Também segundo o instituto, o emprego industrial teve, no acumulado do ano, até setembro, alta de 1,7%. O total de horas pagas na indústria também subiu, registrando expansão de 1,2% no mesmo período.

No maior Estado do país, São Paulo, a indústria local mostrou, igualmente, variação positiva, nas contas da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). Até outubro, a indústria havia acumulado expansão de 4,92% no número de vagas, com a geração de 101.900 postos.

O número de vagas com carteira assinada aumentou. Pelas informações do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), do Ministério do Trabalho, o emprego com carteira assinada cresceu 5,7% de janeiro a setembro, com a geração de 1,409 milhão de postos no período.

Quanto ao salário dos trabalhadores, o desempenho não foi tão bom no ano. Houve precarização do mercado de trabalho: foram fechadas vagas que pagavam mais e abertas outras que remuneram menos. Isso fez a renda real cair 1,4% em outubro. A renda média em São Paulo diminuiu 31% entre 1995 e 2005.

Ainda no campo da renda, houve, no entanto, uma boa notícia, referente a 2004, mas divulgada no fim de 2005. A miséria atingiu o menor patamar desde 1992, segundo pesquisa da FGV (Fundação Getúlio Vargas). A proporção de pessoas abaixo da linha de miséria (renda inferior a R$ 115 por mês) passou de 27,26% em 2003 para 25,08% em 2004.

Por outro lado, a inflação, outro indicador que afeta a renda da população, não saiu do controle. O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) contabilizou, de janeiro a novembro, alta de 5,31%. A variação foi inferior à verificada em igual intervalo de 2004, quando a elevação do índice foi de 6,68%.

O objetivo do governo para a inflação no ano é 5,1%, mas o centro oficial da meta é 4,5%. Há uma margem de tolerância de 2,5 pontos percentuais, por isso o índice anual pode chegar a 7% para manter-se na meta.

Além de não se desvalorizar internamente, o dinheiro brasileiro ganhou força internacionalmente. O real foi a moeda que mais se fortaleceu no mundo. Em 12 meses, entre novembro de 2004 e novembro de 2005, a moeda do país subiu 33% em relação ao dólar.

Os consumidores aprovaram, porque ficou mais barato comprar produtos importados e viajar. Mas especialistas e exportadores reclamaram das perdas que a situação pode representar.

Real mais valorizado significa que os produtos nacionais vendidos no exterior ficam mais caros, o que ocasiona perda de mercado. O setor agrícola teme o mesmo efeito para o próximo ano.

O Banco Central fez operações para diminuir a quantidade de dólares disponível no mercado, mas não conseguiu reduzir significativamente a valorização do real.

No mercado acionário, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) teve um ano histórico, batendo o recorde de pontos.

Mesmo com o real valorizado, as exportações do país não diminuíram, tiveram um ano excelente e quebraram o recorde. Ainda em outubro, a balança comercial (diferença entre exportações e importações) teve um saldo positivo superior ao do ano anterior inteiro, que já havia sido recorde.

Em novembro, o saldo da balança ultrapassou os US$ 40 bilhões, numa alta de 34% em relação aos US$ 30,155 bilhões registrados em igual período de 2004.

A agricultura também conseguiu bons números na exportação, batendo recorde, com vendas de US$ 36,2 bilhões até outubro.

Ainda no comércio exterior, o país teve a comemorar as sucessivas vitórias na Organização Mundial do Comércio (OMC). Ganhou a causa contra os subsídios ao acúçar na Europa e ao algodão nos Estados Unidos. O Brasil também conquistou terreno na questão das tarifas sobre o frango e a banana exportados para a Europa.

Fora os lances bem-sucedidos, o país travou, junto com outras nações em desenvolvimento, uma disputa acirrada pela redução de subsídios agrícolas dos EUA e da Europa. Esses subsídios, pagos pelo governo aos agricultores, fazem seus produtos serem mais baratos do que custariam sem essa ajuda. A polêmica já se arrasta há tempos e é complexa.

Nas diversas reuniões feitas sobre o assunto, não se atingiu o consenso. Autoridades européias chegaram a ficar irritadas, acusando e ameaçando o Brasil.

Em razão da pressão, a União Européia acabou anunciando uma reforma da política de produção e subsídios do açúcar.

Além das vantagens econômicas, a presença forte do Brasil na OMC deu visibilidade e ajudou o país a destacar-se politicamente.

Porém, nem tudo foi sucesso no setor agropecuário durante o ano. A febre aftosa, detectada em outubro, ameaça afetar o status de maior exportador de carne do país. Dezenas de países embargaram a compra do produto.

Internamente, até a inflação foi afetada pela doença. A carne subiu e pesou no custo de vida em São Paulo, segundo levantamento da Fipe. E tudo pode ter acontecido por falha no sistema de imunização contra a aftosa, conforme avaliação de especialistas.

Por causa do surto, as perdas estimadas pelo governo chegam a US$ 500 milhões para exportações de carne só em 2005. Só que até nisso o Brasil deu sorte, pelo menos até outubro. Apesar do surto de aftosa, as vendas externas de carne bovina estavam a caminho de estabelecer um novo recorde com vendas de US$ 3 bilhões em 2005.

A outra face da moeda

O ano de 2005, entretanto, não foi só tranqüilidade para a economia. A política econômica ortodoxa de juros altos e corte de investimentos do ministro Antonio Paloccci (Fazenda) sofreu críticas de empresários, políticos da oposição e até colegas de ministério.

Além dos aspectos estritamente econômicos, Palocci teve de encarar distúrbios políticos, na onda do "mensalão". Em duas ocasições, o ministro chegou a ser envolvido nos escândalos, mas teve habilidade para falar com o mercado e convencer os agentes econômicos de que não tinha nada a ver com corrupção.

Num primeiro momento, um ex-assessor o envolveu num suposto esquema de corrupção em Ribeirão Preto (SP), onde Palocci foi prefeito.

Em agosto, o advogado e ex-assessor de Palocci Rogério Tadeu Buratti depôs no Ministério Público de São Paulo e disse que o então prefeito recebia R$ 50 mil por mês da empresa Leão Leão, responsável pela coleta de lixo na cidade. A denúncia caiu como uma bomba e agitou o mercado, com dólar subindo e Bolsa caindo.

O ministro agiu rapidamente e convocou uma entrevista coletiva para negar qualquer participação em corrupção. Suas informações convenceram o mercado, e os indicadores retomaram um caminho positivo. Até a oposição ficou a favor depois das explicações.

Mas a trégua durou pouco. Três meses depois, em novembro, as acusações voltaram a rondar o ministro, que foi convidado a depor na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. De novo, negou qualquer irregularidade em sua administração como prefeito. De novo, convenceu o mercado e deixou os indicadores, como a Bovespa, em situação confortável.

Apesar do êxito nessa área, Palocci continuou na berlinda. Foi protagonista de uma discussão pública com a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), que criticou a política econômica, pedindo mais verba para a área social. Dilma disse num jantar que Palocci não tem "criatividade e abertura" para experimentar outras alternativas à economia. Palocci respondeu e disse que sua colega estava "errada".

O ponto da discórdia entre os ministros foi o superávit primário -a economia de receitas realizada pelo governo para o pagamento de juros da dívida. Essa economia bateu recordes no ano e, embora ajude o país a diminuir o endividamento, tem um lado ruim. O governo consegue o superávit aumentando impostos ou deixando de gastar, por exemplo, em investimentos em obras e serviços.

Palocci defende o superávit porque isso demonstraria ao mercado seriedade e compromisso do governo com as contas públicas. O problema é que foi alvo de críticas entre os próprios colegas e até de seu chefe, o presidente Lula. Preocupado com os efeitos dos cortes de investimentos na eleição de 2006, o presidente não quer fazer mais economia do que já foi feito.

Além disso, mesmo com tanto sacrifício, o resultado tem sido pequeno. A dívida do governo federal em títulos públicos subiu R$ 127 bilhões até outubro, em relação ao mesmo período de 2004.

Os juros básicos da economia (taxa Selic) também foram fonte de muito desgaste para Palocci. Empresários, oposição e alidados criticam as taxas, por considerar que elas sufocam a atividade econômica.

Quando os juros são altos, o crédito também fica caro. Empréstimos bancários, cheque especial, crediário e taxas de cartão de crédito sobem nessa circunstância. Assim, o consumidor compra menos do comércio, que reduz as encomendas à indústria. A ociosidade nas fábricas acaba causando demissões e menos consumo ainda.

Durante o ano, mesmo com a inflação mostrando controle, o BC realizou sucessivas altas na Selic. A redução, muito gradual, com meio ponto por mês, aconteceu só no segundo semestre.

O problema é que a taxa subiu tanto, que os cortes posteriores não apresentaram muitos resultados. Em janeiro de 2005, a taxa era de 18,25% ao ano. Foi subindo até o pico de maio (19,75%), ficou estável até agosto e começou a cair em setembro. Mas a queda foi tão suave, que, em novembro, ainda era mais alta do que em janeiro: 18,5%.

Como reflexo, os juros do cheque especial, por exemplo, recuaram um pouco, mas continuaram em patamares altos.

O Brasil ganhou uma liderança pouco honrosa: a de país com a maior taxa de juros reais do mundo.

O ritmo da redução dos juros desagrada ao comércio e à indústria, que não param de pedir mudança na política econômica cada vez que a taxa do mês é anunciada.

Os empresários têm os números a seu favor para comprovar os efeitos recessivos do custo do dinheiro. A produção industrial no país no terceiro trimestre caiu 0,7%. Esse foi o pior resultado desde o segundo trimestre de 2003 (-0,9%).

As reclamações contra a política monetária não vêem só de fora, mas também de dentro do governo. Além de Dilma, Palocci teve de ouvir, em várias ocasiões, o vice-presidente e ministro da Defesa, José Alencar, disparar publicamente contra a taxa de juros, dizendo que ela impede o crescimento do país.

A política econômica do governo também é criticada pelos opositores por, segundo eles, favorecer o setor financeiro. A julgar pelos lucros dos bancos, a oposição vai ter munição para dizer que a administração petista foi amiga dos banqueiros.

O lucro do Bradesco dobrou no ano, até setembro, com R$ 4,051 bilhões. O Itaú, com ganhos recordes, vem logo a seguir, com R$ 3,827 bilhões no mesmo período. O Unibanco também quebrou seu recorde, ao lucrar
R$ 1,329 bilhão até setembro.

Com o freio de mão puxado pelos juros, o espetáculo do crescimento para o resto da economia não aconteceu, e o PIB se enfraqueceu, caindo 1,2% no terceiro trimestre do ano. O indicador, que mede as riquezas produzidas por um país, está baixo e é motivo de críticas generalizadas. A pequena expansão econômica no governo Lula deve ser a maior arma da oposição em 2006.

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