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27/03/2006 - 18h18
Antonio Palocci pede afastamento; Guido Mantega assume o Ministério da Fazenda

Antonio Palocci em sua última aparição pública, no dia 24
Palocci entregou a Lula carta de renúncia ao ministério da Fazenda nesta segunda-feira, pouco depois de o presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, dizer à PF que entregou ao ministro o extrato da conta do caseiro Francenildo Costa, obtido ilegalmente. O caseiro contrariou depoimento de Palocci à CPI dos Bingos e afirmou que ele freqüentava mansão de lobistas em Brasília. O ex-ministro do Planejamento, Guido Mantega, assume o Ministério da Fazenda.

Da Redação
Em São Paulo

O Ministério da Fazenda divulgou, na tarde desta segunda-feira, nota à imprensa informando que o ministro Antonio Palocci pediu afastamento do cargo. A nota é bastante curta e afirma: "O ministro Antonio Palocci decidiu solicitar ao Presidente da República seu afastamento do cargo. O ministro está encaminhando ao Presidente Lula carta explicando suas razões."

Ainda na tarde desta segunda, o presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, afirmou em depoimento à Polícia Federal que entregou ao ministro o extrato da conta do caseiro Francenildo Costa, obtido ilegalmente. Mattoso foi indiciado por crime de violação de sigilo funcional após confessar seu envolvimento no caso.

Após o anúncio do afastamento, o ministro foi ao Palácio do Planalto, onde deveria se reunir com o presidente Lula. A situação do ministro, já complicada por denúncias de irregularidades desde o ano passado, se complicou há cerca de 10 dias, quando o caseiro Francenildo Santos Costa teve seu sigilo quebrado ilegalmente.

Na carta que enviou ao presidente Lula, Palocci afirma não ter relação com o vazamento das informações bancárias de Costa. O ex-ministro também responsabilizou a disputa eleitoral pela crise que acarretou seu afastamento e disse ser vítima de "maldade".

"Estou convencido que minha permanência no Ministério da Fazenda, neste momento de exacerbado conflito político, e quando sou alvo de todo tipo de maldades e acusações, não mais contribui para o avanço da obra de Vossa Excelência, nem serve ao melhor interesse do Brasil", escreveu Palocci a Lula.

Segundo Francenildo, Palocci freqüentava uma mansão em Brasília, apelidada de "casa do lobby", para reuniões de lobistas acusados de interferir em negócios de seu interesse no governo Lula, para partilha de dinheiro e abrigava festas animadas por garotas de programa. Em depoimento à CPI dos Bingos, Francenildo afirmou que confirma "até morrer" as denúncias contra Palocci. O depoimento do caseiro, no entanto, foi interrompido após liminar obtida pelo PT junto ao STF.

O presidente Lula indicou o presidente do BNDES Guido Mantega para o cargo. O vice de Mantega no banco, Demian Fiocca, deve assumir a presidência do banco. O novo ministro da Fazenda informou no início da noite desta segunda que não promoverá alterações na política econômica.

O secretário-executivo do ministério da Fazenda, Murilo Portugal, também pediu demissão nesta segunda, em carta enviada ao presidente Lula. A saída de Murilo Portugal segue o anúncio de substituição de Palocci por Mantega na Fazenda.

Em carta ao Planalto, Portugal disse que, "considerando ter sido convidado pelo ministro Antonio Palocci para o cargo de confiança que ora ocupo, e tendo em vista o pedido de exoneração apresentado hoje pelo ministro Palocci", solicitava em caráter irrevogável a sua própria exoneração do cargo de secretário-executivo da Fazenda.

Economia

O controle da inflação, com altas taxas de juros e baixo crescimento do PIB, marcou a gestão de Antonio Palocci no Ministério da Fazenda. Embora tenha conseguido a estabilidade, a política econômica foi condenada por não estimular o crescimento. As críticas à sua política, somadas a denúncias de corrupção e irregularidades, fragilizam a posição do ministro Palocci.

O controle da inflação foi a prioridade de Antonio Palocci Filho quando assumiu o Ministério da Fazenda, em 2003. À época, a taxa anual batia nos 20%, e o dólar aproximava-se da casa dos R$ 4. O ministro, que manteve basicamente a mesma equipe do Pedro Malan, ministro de FHC, usou a política monetária para conter a alta de preços, elevandoi a taxa de juros.

A opção mostrou-se bem sucedida ao longo de 2003. A inflação passou a cair de forma regular e consistente. Por outro lado, a restrição ao crédito, decorrente de juros de aproximadamente 25% ao ano, resultou em um crescimento pífio, de cerca de 0,3%. Reduções graduais da taxa de juros não diminuíram as críticas que Palocci passou a receber do mercado.

Para muitos economistas e analistas políticos, o surto inflacionário de 2002 se deveu ao receio de mercado e investidores a um governo do PT. Não haveria motivos estritamente econômicos para a alta de preços. Portanto, segundo este raciocínio, os juros poderiam cair de forma mais acentuada após o governo mostrar que não alteraria a política econômica de FHC.

Para seus críticos, Palocci não aproveitava o ciclo de acelerado crescimento mundial para estimular o PIB brasileiro. Os setores da economia ligados a exportação puxam o crescimento do PIB.

Embora tenha crescido fortemente em 2004 (4,9%), a economia brasileira tem desempenho muito inferior aos dos líderes mundiais em crescimento (como a China, que cresce a uma taxa de 9% ao ano) e de outros países em desenvolvimento. O crescimento de 2,6% em 2005 intensificou as críticas.

Denúncias

A suspeita de que tenha partido de Palocci a ordem para a quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Santos da Costa constrange o ministro e o governo de forma semelhante ao escândalo do mensalão.

O governo comemorava a superação da crise aberta com as revelações de Roberto Jefferson --e a forte recuperação de Lula nas pesquisas, quando Costa, caseiro de uma mansão alugada por ex-assessores do ministro em Brasília, afirmou que Palocci freqüentava a casa, supostamente usada para acertos ilícitos.

O que poderia resultar em apenas uma guerra de versões piorou muito com a revelação de que o caseiro recebeu depósitos incompatíveis com seus rendimentos em sua caderneta de poupança. Aliados do ministro pretendiam sugerir que o caseirto estava a mando de seus detratores.

Trajetória

Nos anos 70, Antonio Palocci Filho conciliava as aulas de Medicina na USP de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, com a militância estudantil --era integrante da Libelu (Liberdade e Luta), um movimento de linha trotskista radical. Palocci usava, nessa época, o codinome militante de "Pablo"

Em 1980, Palocci entrou para o PT. Disputou em 1988 as eleições para vereador de Ribeirão Preto e foi um dos mais votados, eleito com cerca de 3.500 votos. Dois anos depois, foi eleito deputado estadual.

Palocci foi eleito prefeito de Ribeirão Preto em 1992. Sua primeira gestão como dirigente da cidade foi o único mandato completado por Palocci. Em seu governo, o ex-esquerdista radical privatizou parte da companhia telefônica local e concedeu à iniciativa privada o tratamento de esgoto, além de ter firmado laços com o empresariado.

Palocci concluiu sua gestão em 1996. Naquele ano, ainda não era permitida a reeleição (aprovada em 1998 pelo Congresso Nacional). Em 1997, foi eleito presidente do PT no Estado de São Paulo.

Nas eleições de 98, Palocci foi eleito deputado federal com votação histórica: 100.000 votos, sendo 80 mil originários de Ribeirão Preto. Não chegou a completar o mandato --foi novamente eleito, em 2000, prefeito de Ribeirão.

Palocci venceu, em primeiro turno, com a ajuda do marqueteiro Duda Mendonça. Além de ter como vice o presidente da Associação Comercial e Industrial, colocou um banqueiro em uma das secretarias municipais. Palocci ganha fama de administrador competente.

Em 2002, Palocci aproximou-se definitivamente da cúpula petista. Com o assassinato do prefeito Celso Daniel, de Santo André, a campanha do então candidato à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva precisa de um novo coordenador. Palocci é o indicado para o cargo. Com a vitória de Lula em outubro, Palocci foi um dos chefes também do governo de transição, em novembro e dezembro.

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