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05/11/2008 - 18h30

Desgaste de Bush, crise econômica e planejamento de campanha impulsionam Obama à vitória

Pedro Cirne
Do UOL Notícias*
Em São Paulo
Três fatores principais impulsionaram Barack Obama nestes dois anos de campanha que resultaram em sua eleição a presidente dos Estados Unidos: o desgaste de seu antecessor, George W. Bush; a crise do mercado imobiliário iniciada em 2007; e o planejamento de campanha, associado a um forte engajamento dos eleitores.

A gestão George W. Bush (leia sobre ela aqui) durou oito anos e foi marcada por fatos que resultaram em um enorme desgaste para Bush - e por extensão, ao partido Republicano.

Se em 24 de setembro de 2001, pouco após os ataques terroristas de 11 de Setembro, Bush tornou-se o presidente mais popular da história dos Estados Unidos, com 90% de aprovação, segundo o instituto de pesquisas Gallup, sua popularidade despencou - não a ponto de evitar sua reeleição em 2005, mas principalmente em seu segundo mandato.

O PRIMEIRO PRESIDENTE NEGRO
Reuters
Barack Obama foi eleito o 44º presidente dos Estados Unidos. Aos 47 anos, ele torna-se o primeiro negro a governar o país, ao derrotar o rival republicano John McCain.
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John McCain admite derrota
Entre os principais fatos que resultaram em seu desgaste, estão a invasão ao Iraque; a divulgação de fotos de iraquianos torturados por soldados norte-americanos, que levou a um pedido de desculpas por parte de Bush; a lenta e falha reação do governo ao furacão Katrina, classificada pelo próprio Bush como "inaceitável"; e, por fim, a maior crise econômica que os Estados Unidos tiveram desde os anos 30.

Durante esta crise, conhecida como crise do "subprime", como é chamada a modalidade de empréstimos de segunda linha no país, alguns dos maiores bancos dos Estados Unidos anunciaram prejuízos bilionários e tiveram de ser socorridos. Em setembro de 2008, o governo elaborou um pacote contra a crise, cuja criação esbarrou na dificuldade de aprovação no Congresso. Bush teve de utilizar um discurso mais rígido e falar que a economia norte-americana pode entrar em recessão - o pacote de socorro foi aprovado só em outubro. Mesmo assim, os investidores desconfiaram da eficácia do plano e, com temores de que possa acontecer uma recessão global, os mercados desabaram.

ÁLBUNS
AFP
O presidente recém-eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, discursa em frente
a uma multidão em Chicago
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BARACK OBAMA: VIDA E CAMPANHA
CINDY MCCAIN X MICHELLE OBAMA
HUMOR NA ELEIÇÃO DOS EUA
A crise financeira permanece insolúvel e será um dos legados de Bush para Obama - outro, ainda na área econômica, é que apesar de Bush ter herdado um superávit de US$ 651 bilhões (R$ 1,3 trilhão) ao assumir o poder, em 2001, ele vai deixar o orçamento com déficit recorde de US$ 438 bilhões, sem levar em consideração o pacote de estímulo econômico no valor de US$ 700 bilhões.

Esses números tiveram influência em mais da metade dos norte-americanos: pesquisas de boca-de-urna realizadas no dia da votação mostraram que a economia era a principal questão da campanha para 62% dos eleitores.

Como resultado direto dessa enorme queda na popularidade de Bush (de 90% de aprovação em setembro de 2001 a menos de 30% de aprovação em 2008), o partido Republicano, desgastado, escolheu como candidato a presidente John McCain, político considerado distante de Bush. Além disso, o presidente tomou cada vez menos parte na campanha conforme se aproximavam as eleições. Durante os últimos dias antes da votação, apenas se mostrou ante à imprensa para pegar um helicóptero que o levou a Camp David.

Campanha diferenciada
A esses dois fatores (desgaste do presidente e crise financeira) relacionados à gestão de George W. Bush, somam-se mais dois, agora resultados da estratégia de campanha de Obama: o planejamento cuidadoso, que contou com incursões pela Internet e a Estados que não eram considerados prioritários por outros candidatos, e a resposta do eleitorado frente a esse estímulo diferenciado.

Para Rubens Ricupero, ex-Secretário-Geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ex-embaixador do Brasil em Washington, a campanha de Obama "foi de uma qualidade exemplar" (assista à entrevista aqui). "Primeiro, pela audácia de buscar os recursos na Internet: ele é o primeiro candidato que faz da Internet um grande instrumento. Com contribuições pequenas, de US$ 20 ou US$ 50, ele conseguiu bater de longe qualquer outro (em arrecadação)", analisou. "Segundo, uma campanha muito inteligente, fora do esquadro", completou Ricupero. "Nos Estados Unidos, há muito tempo que os candidatos só disputam aqueles Estados que têm muitos votos e que podem passar de um partido para o outro. Ele, não: resolveu entrar em muitos Estados ao mesmo tempo e virou o jogo em Estados que eram considerados republicanos."

A aproximação com os mais jovens acontece dentro e fora da Internet. No site de relacionamentos Facebook, Obama mantém 2 milhões de "amigos" contra 500 mil de McCain. Os jovens também aumentaram as platéias de seus comícios, que chegaram a reunir 100 mil pessoas.

Em agosto de 2008, Obama conseguiu US$ 66 milhões em doações, um recorde em arrecadação mensal. No mês seguinte, mais que dobrou esse número: foram US$ 150 milhões recebidos para a campanha, um novo recorde.

No total, a campanha de Obama angariou US$ 600 milhões, outro recorde em eleições, e reuniu uma grande rede de voluntários, entre não-famosos e famosos. Além desses colaboradores, ainda conseguiu o apoio de pessoas influentes, como a apresentadora de TV Oprah Winfrey; Paul Volcker, ex-presidente do Fed (Banco Central norte-americano); Caroline Kennedy, filha do ex-presidente John F. Kennedy; e, mais recentemente, de Colin Powell, ex-secretário de Estado de George W. Bush.

O resultado também se refletiu no comparecimento às urnas: quase 66% dos eleitores registrados para as eleições presidenciais norte-americanas compareceram às urnas na terça-feira e resistiram às longas filas, de acordo com o site Real Clear Politics, o que significaria a maior taxa de participação desde 1908.

Outra conseqüência desse planejamento: houve vitórias em Estados tradicionalmente republicanos, como Carolina do Norte (em que Obama venceu por 50% a 49%) e Virgínia, que desde 1964 não votava num democrata (Obama venceu por 52% a 47%).

* Com informações de BBC Brasil, Folha Online e Reuters

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