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19/04/2008 - 08h00
Cruzar a Ponte da Amizade revela semelhanças entre Brasil e Paraguai

Diogo Pinheiro
Enviado especial do UOL
Em Ciudad del Este

Três dias de chuvas nesta semana encheram o rio Paraná. Do lado brasileiro da fronteira com o Paraguai, Itaipu teve que abrir suas comportas na sexta-feira para diminuir o volume de água do gigantesco lago da hidrelétrica. Na Ponte da Amizade, sentido Brasil-Paraguai, uma ilha aparece na paisagem do lado direito. Do lado esquerdo, no sentido oposto, trânsito. Um engarrafamento para paulistano nenhum botar defeito. O pouco mais de meio quilômetro de distância da ponte e mais um quilômetro, pelo menos, tudo parado.

Seu Fernando, que conduz o táxi, pede para olhar as placas. A grande maioria com bandeira vermelha, azul e branca e o "y" no final de Paraguai. "Os paraguaios, de sexta-feira, costumam fazer compras no Brasil. Olha a fila. Eles preferem os produtos brasileiros. E isso não é nada. Passar para o Brasil, às vezes, demora duas, três horas", conta.

A fila continua no sentido contrário. Vans bastante deterioradas. Segundo o taxista, vindas da Europa para serem jogadas no Oceano Pacífico, na costa do Chile. "Os paraguaios acabaram comprando", diz ele. Um fiscal de fronteira paraguaio aparenta se esforçar para tentar enxergar além dos vidros escuros dos carros. Olha para o nosso táxi também.

A bela paisagem loco fica para trás. Passamos pela ponte com uma câmera de vídeo, um lap top, um tripé e um gravador digital no carro. Por orientação do taxista, fiz uma declaração dos equipamentos na Receita Federal, ainda do lado brasileiro. Pergunto: "Já estamos no Paraguai?" "Ciudad del Este", responde o taxista. "Assunção fica a 300 km daqui", relata.

Nos primeiros metros, do lado paraguaio, seu Fernando pára. Pede para eu colocar em uma espécie de recibo meu nome e o número do meu documento de identidade. Ele desce do carro. Retorna com o mesmo papel assinado por um homem, que estava sem traje oficial.

"Ele é fiscal de transporte paraguaio. Se pedirem este papel na volta, é preciso mostrar a assinatura dele. Se não, o taxista paga uma multa de U$ 80 [cerca de R$ 130], se voltar com o mesmo passageiro", explica.

Se não fosse pelos letreiros em espanhol e pela reta final da campanha eleitoral (a cidade está tomada por cartazes e faixas), a impressão é de que você continua no Brasil. Todo mundo entende o português e o real é aceito em qualquer estabelecimento formal ou informal. As centenas de vendedores ambulantes também aceitam. Eles são homens, mulheres, crianças e adolescentes de todas as idades e tamanhos. Em comum, a nacionalidade paraguaia.

Um real vale 3.000 guaranis, a moeda local. Pela rua tem de tudo. É só deixar o prédio de cinco andares que funciona como estacionamento para os milhares de turistas, a maioria, brasileiros. Todos em busca de preços mais baixos em diversos produtos vendidos em Ciudad del Este. O estacionamento custa R$ 6. Um batalhão de vendedoras espera na porta. "Cueca e meia?", pergunta uma delas. "Não uso", responde seu Fernando.

Nas calçadas, muitas barracas. Gente se esbarrando. Roupas, artigos esportivos, óculos, eletroeletrônicos, bebidas, perfumes, relógios e comida. "Eu prefiro a 25 de Março", diz Karina Roque, 43, professora de Limeira, interior de São Paulo, lembrando do maior centro de comércio popular da capital paulista. "Só que venho para cá uma vez por ano", conta.

Outra semelhança: motos. Muitas motos, desde a ponte. A qualidade dos veículos do transporte público é péssima. O número reduzido de placas de sinalização também contribui para as buzinas aumentarem. Um caminhão da Petrobras passa pela principal avenida da cidade.

PRINCIPAIS CANDIDATOS
Reuters
Ex-bispo, o candidato Fernando Lugo é tido como o 'pai dos pobres' no Paraguai e lidera as pesquisas de intenção de voto
Reuters
Candidato Lino Oviedo é ex-general e se apresenta ao eleitorado como 'perseguido político' e 'homem de mão forte'
Reuters
Blanca Ovelar já foi ministra da Educação em duas ocasiões e representa a continuidade do atual cenário político paraguaio
PERFIL DE FERNANDO LUGO
PERFIL DE LINO OVIEDO
PERFIL DE BLANCA OVELAR
Além do comércio de rua, muitas lojas. Chineses, coreanos e árabes são proprietários. Alguns moram no Brasil, em Foz do Iguaçu, e faturam no país, que mais parece um bairro da cidade vizinha. É o caso do empresário libanês Mohamed Elsayed. Há 23 anos ele tem uma loja de equipamentos eletrônicos em um shopping de Ciudad del Este.

Ele conta que até tentou levar o negócio para a vizinha Foz do Iguaçu, mas não deu certo. "Aqui é mais fácil. O Brasil tem muitos impostos", diz. "Só não me sinto seguro aqui", conta, ao recusar ser fotografado. Na loja, um pen drive de 1G custa R$ 12. Um notebook com gravador de DVD sai por R$ 1.350. No Brasil, há produtos equivalentes por R$ 50 e R$ 3.500, respectivamente, diz o empresário.

No prédio onde fica sua loja, todos os seguranças andam armados. Seu Fernando conta que é muito fácil comprar uma arma em Ciudad del Este.

Na rua, os vendedores ambulantes se aproximam quando a reportagem pede para tirar uma foto de um vendedor oferecendo um medidor de pressão com estetoscópio por R$ 40. Querem aparecer em troca da compra de um produto qualquer. Pode ser uma cueca ou uma meia. Seu Fernando repete: "não uso". Mesmo assim, todos falam bem dos brasileiros. Afirmam gostar do país e do povo.

"O Brasil ajuda muito", diz a comerciante Aurora Vera, 38, que com dois filhos adolescentes tocam uma acanhada lavanderia de roupas no centro da cidade.

Questionei alguns brasileiros sobre o que achavam do lugar e dos paraguaios. Todos reclamaram da cidade. "O nível salarial e cultural aqui é bem diferente", disse a empresária Itamara Matiello, 38, de Medianeira, interior do Paraná. "Venho sempre que posso para comprar de tudo. Roupas, tênis e perfumes", conta.

Apenas um brasileiro que abordei, de São Roque, interior de São Paulo, afirmou que não gosta dos paraguaios. "Eu falo isso aqui na rua e você quer meu nome", disse sem se identificar.

Voltamos para Foz do Iguaçu. O congestionamento já havia acabado na Ponte da Amizade. No carro, o mesmo equipamento declarado na Receita brasileira. Nada. Nenhuma abordagem de autoridades paraguaias ou brasileiras. Só uma advertência "gestual" para o seu Fernando. Parou na aduana paraguaia para a reportagem fotografar a fila de vans velha, estacionadas a poucos metros dali. Nem pareceu que tínhamos saído do Brasil.