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19/04/2008 - 09h13
Um ilustre paraguaio que chefia uma família de ilustres brasileiros

Carolina Juliano
Enviada especial do UOL
Em Assunção (Paraguai)

Motivos para amar o Brasil ele tem de monte. Sua mulher é brasileira, de Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Dos seis filhos (quatro homens e duas mulheres), um nasceu no México, dois no Peru, um na Argentina e os outros dois no Rio de Janeiro. Mas todos vivem com a mãe na capital carioca, em uma casa aprazível com vista para o 'sovaco' do Cristo Redentor.

Nas fotografias mal pregadas nas paredes da pequena casa onde mora sozinho, na rua República da Síria, em Assunção, vê-se imagens dele com alguns de seus ilustres conhecidos, como Frei Betto, Luiz Inácio Lula da Silva, Fidel Castro, Letícia Sabatella... Entre os parentes também aparecem outras caras famosas entre os brasileiros, como os atores Henrique Díaz, Chico Díaz e sua mulher Silvia Buarque. Este homem que vive quase incógnito na capital paraguaia é também o avô do neto de Chico Buarque de Hollanda.

BRASIL IMPERIALISTA
Carolina Juliano/UOL
Para o comunicólogo Juan Díaz Bordenave, é difícil para o Paraguai não temer o Brasil
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Mas com tudo isso que tem no Brasil, por que vive sozinho nesta casinha no Paraguai? "Porque sou paraguaio", responde sem titubear Juan Díaz Bordenave. O comunicólogo, como comumente é designado, é agrônomo formado na Argentina, doutorado em Jornalismo Agrícola pela Universidade de Wiscosin, nos Estados Unidos, e com especialização em Michigan. Integra a Aliança Patriótica para a Mudança, que tem como candidato à presidência do Paraguai o ex-bispo Fernando Lugo. Voltou a viver em Assunção há cinco anos e desde então não poupa esforços para tentar mudar o seu país.

Enquanto recebia atenciosa e demoradamente a reportagem do UOL em sua casa, Bordenave atendeu a diversos telefonemas. Alguns partidários a comentar o comício final de Lugo, realizado na noite anterior. Um ex-ministro propondo uma "estratégia urgente de última hora" para tentar garantir que Lugo consiga maioria no Congresso. O filho Chico, "que esteve aqui na semana passada, ele faz parte de uma ONG pelos direitos humanos no Brasil e vai mandar observadores para as eleições", conta ele cheio de orgulho.

Testemunha da história
Este homem que coleciona histórias de outras pessoas na parede de sua casa também é testemunha viva de um capítulo importante da história paraguaia. Ele conta que em 1976 visitou a Usina de Itaipu em construção, ciceroneado pelo então chefe das obras. "Aquele homem falou com todas as letras que Itaipu seria 'um negócio da China' para o Brasil porque até 2023 o país iria ter a energia que o Paraguai não utilizaria a preço de custo."

"Eu estava lá", continua ele. "O tratado foi firmado entre ditadores que sabiam exatamente que o Paraguai ficaria em desvantagem, mas eles tiveram as vantagens. Os 'homens de Itaipu' tornaram-se em pouco tempo os mais ricos do Paraguai."

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Por este motivo, Bordenave diz que não hesitou em integrar uma comissão para tentar mudar o tratado de Itaipu, formada por Fernando Lugo há cerca de um ano. Ele sabe que para o Paraguai utilizar a energia que hoje vende ao Brasil por imposição do tratado, seu país precisa construir linhas de transmissão que nunca foram feitas e ainda desenvolver um parque industrial que utilize a energia. "Para isso precisamos de dinheiro, o dinheiro que virá se o Brasil pagar ao Paraguai o preço de mercado da energia e não o de custo."

O governo Lula, segundo ele, ofereceu construir para o Paraguai essas linhas de transmissão e ainda investir no país para que ele comece a se industrializar, em troca da não-renegociação do tratado. "Sabemos que viria aí muito dinheiro, mas o Paraguai está cansado de receber esmolas. Queremos que nos dê o que temos direito para nós mesmos investirmos em nós."

O Brasil imperialista
Juan Díaz Bordenave tem ao menos uma dezena de livros publicados no Brasil, alguns já passados da 30ª edição. "Publico lá porque no Paraguai um livro vira best seller com mil exemplares vendidos. No Brasil uma primeira tiragem é o triplo disso", diz ele, enfatizando que os paraguaios sabem da grandeza e da importância do maior país da América Latina.

A visão do Brasil como um grande imperialista é inevitável para qualquer paraguaio, segundo Bordenave. Ele sustenta que todo paraguaio tem um certo medo do seu maior vizinho porque historicamente o Brasil fez investidas pesadas no Paraguai. "Primeiro foram os bandeirantes, os bravos homens de São Paulo que invadiam o Paraguai para roubar índios e escravizar; depois o Brasil interferiu na época da nossa independência e ajudou a derrubar Rodriguez de Francia em uma das épocas mais prósperas do nosso país", conta ele.

A terceira investida do Brasil sobre o Paraguai foi na Guerra da Tríplice Aliança, desencadeada quando Dom Pedro II resolveu intervir na política interna uruguaia para que sua instabilidade não prejudicasse o Rio Grande do Sul e o Paraguai interveio militarmente, sob o comando de Solano López. Brasil, Argentina e Uruguai se uniram e derrotaram o Paraguai após 5 anos de lutas.

Três dias de chuvas nesta semana encheram o rio Paraná. Do lado brasileiro da fronteira com o Paraguai, Itaipu teve que abrir suas comportas na sexta-feira para diminuir o volume de água do gigantesco lago da hidrelétrica. Na Ponte da Amizade, sentido Brasil-Paraguai, uma ilha aparece na paisagem do lado direito. Do lado esquerdo, no sentido oposto, trânsito. Um engarrafamento para paulistano nenhum botar defeito. O pouco mais de meio quilômetro de distância da ponte e mais um quilômetro, pelo menos, tudo parado.
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"Como não temer o Brasil?", questiona Bordenave. "O Brasil traz de Portugal essa tradição imperialista e ainda hoje age assim, por exemplo, no Mercosul." O comunicólogo paraguaio não tem dúvidas de, da forma como está se desenvolvendo o Mercosul, o Brasil vai sempre ganhar e o Paraguai sempre perder. "O que era para ser um bloco para as nações se ajudarem para um bem comum, vem se limitando a negociações comerciais e, agora até política, com a criação do Parlasul."

Eleição histórica
Bordenave chega a se emocionar quando conta como surgiu a candidatura de Fernando Lugo e tentando explicar os motivos de tamanho êxito de um político sem experiência como o ex-bispo. "Foi o povo que colheu 100 mil assinaturas em favor de que ele se lançasse candidato", conta. "Partidos de oposição ao governo colorado e outras instituições apoiaram e se uniram em torno da candidatura dele. Enfim surgia um nome da oposição. Por isso esse momento do Paraguai é único e essa eleição, histórica."

A coligação foi, então, batizada com um nome guarani, Tekojoja, que significa "viver entre iguais". E todo o processo até o fim das atividades de campanha, na última quinta-feira, enalteceu a participação popular. "Lugo percorreu 207 localidades do país e recolheu depoimentos do povo para saber o que lhes faltava. Chamou esse documento de 'El dolor del pueblo' (a dor do povo). Levou isso para seus assessores analisarem. Depois, percorreu outras tantas cidades para saber da própria população quais as soluções que apontavam para solucionar os seus problemas. E encaminhou 500 páginas de sugestões à equipe que escreveu seu programa de governo."

O fenômeno da candidatura de Fernando Lugo, que em menos de um ano só cresceu nas pesquisas eleitorais, tem uma explicação simples para este paraguaio simples: "eu aprendi vivendo no exterior que todo povo é bom e quer ser correto, mas ele precisa que o seu líder também o seja para se espelhar. A corrupção no Paraguai é endêmica, todos sabem que é nosso principal problema. Mas quando surge um homem que se opõe a isso e se coloca como esperança de mudança, o povo revela que está farto e quer se espelhar nele."

Antes de terminar a conversa com o UOL, mais um telefonema do Brasil. E o acerto de uma viagem para São Paulo com a duração de 3 ou 4 dias na mesma data em que o interlocutor da chamada estará na capital paulista. "Desta vez era minha mulher ao telefone", explica-se. "Como vê a minha vida é no Brasil, mas eu vivo mesmo é no Paraguai."