UOL Últimas NotíciasUOL Últimas Notícias
UOL BUSCA




20/04/2008 - 22h40
Ex-bispo Fernando Lugo vence as eleições no Paraguai e põe fim a 61 anos de domínio colorado

Carolina Juliano
Enviada especial do UOL
Em Assunção*

Atualizado às 3h30 do dia 21

O ex-bispo católico Fernando Lugo, candidato da Aliança Patriótica para Mudança, foi eleito neste domingo (20) o presidente do Paraguai, rompendo com mais de seis décadas de domínio do Partido Colorado no país. Às 21h40 (22h40 de Brasília), com mais de 90% dos votos apurados, o TSJE (Tribunal Superior de Justiça Eleitoral) anunciou oficialmente a vitória de Lugo, que já contabilizava 40,83% dos votos. A candidata colorada Blanca Ovelar ficou em segundo lugar, com 30,72%.

Um clima de euforia tomou conta das ruas da capital Assunção desde o início da apuração, quando a vantagem de Lugo começou a se ampliar sobre a segunda colocada Blanca Ovelar, do Partido Colorado. Partidários da Aliança Patriótica para a Mudança tomaram a frente do comitê central da campanha de Fernando Lugo, na Avenida República da Argentina, e depois migraram para o centro da cidade, para um hotel onde o candidato falou à imprensa internacional.

"Quando a Justiça ratificar os resultados, estaremos abertos para construir a integração real da região, no continente e no mundo", disse o presidente eleito do Paraguai. "Há alguns meses um grupo de paraguaios sonhava que poderia se juntar e colocar o país em primeiro lugar. Hoje, finalmente, podemos concluir a jornada com um comportamento exemplar", continuou ele. "Queria agradecer a todos os cidadãos paraguaios que, de maneira impecável, participaram das eleições ainda que temessem alguns anunciados atos de violência".

Ao recordar momentos vividos durante a campanha eleitoral, Lugo disse que durante suas andanças pelo interior do país pode perceber um sentimento forte de desejo de mudança. "A palavra quase mágica era 'mudança', escutávamos que o país não pode agüentar mais."

"Mudança" e "esperança" foram, sem dúvida, as palavras mais pronunciadas nos últimos meses no Paraguai. Desde que esse partidário da Teologia da Libertação, admirador de Leonardo Boff e de Dom Helder Câmara, simpatizante dos governos de Hugo Chávez, Evo Morales e de Rafael Correa, decidiu se apresentar como opção para romper com um sistema que governa o Paraguai há 61 anos, o povo paraguaio vive numa espécie de onda de otimismo e confiança.

Lugo foi votar hoje, às 7h12, de braços dados com Hebe de Bonafín, presidente da associação Mães da Praça de Maio, da Argentina, com quem caminhou desde a sua casa até o local de votação, a escola Talavera Ritcher, na avenida Médicos del Chaco. Depois, ao lado do amigo brasileiro frei Betto, rezou na paróquia São João Batista do Verbo Divino.

Além dos amigos ilustres que se fizeram presentes, centenas de observadores internacionais estiveram no país no dia das eleições a fim de, indiretamente, referendar o êxito desse candidato messiânico sobre o poder colorado.

O 'não' do Vaticano
Em 2006, Fernando Lugo, então bispo da diocese de San Pedro, pediu ao Vaticano permissão para se candidatar à presidência do Paraguai. Ele queria atender aos apelos de pelo menos 100 mil paraguaios, que por meio de um abaixo-assinado, pediram que ele fosse o candidato de uma aliança que acabaria reunindo nove partidos de oposição, além de entidades da sociedade civil. Diante da recusa da Santa Sé, no Natal daquele ano, aos 56 anos, Lugo largou a batina para abraçar a política.

Alguns pensavam que esse rompimento forçado com a Igreja - mas não com a fé, como fez questão de salientar em diversas ocasiões - poderia macular a imagem do religioso e ressaltar a de um rebelde. A aceitação do seu nome por parte de vários setores da sociedade paraguaia foi um verdadeiro fenômeno, o que fez seus opositores o atacassem duramente durante a campanha.

No último debate realizado entre cinco dos principais candidatos à presidência, Lugo resolveu não comparecer na última hora, enfurecendo seus adversários e os jornalistas da emissora Telefuturo.

Um dos motivos do seu não-comparecimento, segundo pessoas próximas ao candidato revelaram ao UOL foi uma denúncia que Lino Oviedo faria contra ele. O ex-general apresentaria no programa a lista de visitas de um presídio onde esteve preso o seqüestrador que raptou e matou Cecília Cubas, filha do ex-presidente Raúl Cubas. Na lista de visitantes figurava o nome do então sacerdote.

Bispo dos pobres
Fernando Lugo trabalhou também no Equador, com monsenhor Leonidas Proaño, conhecido pelos equatorianos como "o bispo dos pobres". Mais tarde, de volta ao Paraguai, ganhou ele a alcunha de "bispo dos pobres" por seu trabalho junto às comunidades de sem-terra de San Pedro, uma das regiões mais pobres do país.

Sobrinho de um dirigente do Partido Colorado que foi perseguido pelo ditador Alfredo Stroessner (1954/89) e teve de se exilar, Lugo foi também atacado pela sua inexperiência. Ele, de fato, entrou tarde para a política, em 29 de março de 2006, quando conseguiu reunir 40.000 pessoas de todas as tendências políticas para protestar contra o atual governo de Nicanor Duarte.

Um comício realizado na praça do Congresso, em Assunção, foi o estopim para sua decisão de abandonar a batina, depois de ser convencido pela oposição a liderar uma frente contra o governo. Em torno dele, então, aglutinaram-se organizações camponesas, de trabalhadores, partidos e movimentos sociais minoritários, sob o manto do Partido Liberal, de maioria de centro-esquerda, que hoje ostenta a primeira minoria no Legislativo.

Reforma agrária e Itaipu
Durante a sua campanha, o candidato da frente que ganhou o nome guarani de Tekojoja (que significa viver entre iguais), prometeu que seu governo evitará se posicionar em um dos pólos de esquerda regional, e que fará uma reforma agrária respeitando a Constituição. Disse também que vai renegociar a maneira como o Paraguai vende a energia elétrica da represa binacional de Itaipu ao Brasil para estipular "um preço de mercado justo".

Outra promessa de Fernando Lugo é compor um governo com ampla participação da popular. Ouvir os problemas da população carente paraguaia, aliás, foi o ponto de partida para a elaboração do seu programa de governo. Depois de se fazer candidato, Lugo percorreu 207 localidades recolhendo depoimentos sobre os problemas da população. Elaborou, então, um documento que chamou de "A Dor do Povo". Depois disso, o ex-bispo percorreu novamente grande parte do país para ouvir, de novo do povo, quais as propostas de solução para os problemas apresentados. Esses relatos resultaram em 500 páginas, que foram entregues a assessores encarregados da elaboração do programa de governo.

*Com agências