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21/04/2008 - 18h07
A pobre Assunção reflete o Paraguai que Fernando Lugo herda a partir de hoje

Carolina Juliano
Enviada especial do UOL
Em Assunção

O presidente eleito do Paraguai, Fernando Lugo, tomará posse no dia 15 de agosto com diversas responsabilidades nas costas. A primeira e mais evidente é presidir um governo com características particulares para marcar a diferença do anterior, no poder há mais de seis décadas. Outra responsabilidade, não menos importante: posicionar o seu país na América do Sul e no mundo, e tirá-lo da triste posição de segunda nação mais pobre do nosso continente.

A capital Assunção é um reflexo das estatísticas negativas do Paraguai. Maior cidade do país, onde vivem 520 mil dos 6 milhões de habitantes, Assunção tem uma imagem opressiva. É suja, mal asfaltada, sem planejamento ou cuidado com suas ruas e avenidas. Seus prédios são mal conservados, muitos deles jazem abandonados degradados pelo tempo e pelo descaso.

AFP
 
"Como um homem de fé e esperança que sou, estou convencido de que chegaremos a um acordo com o Brasil sobre o tratado de Itaipu", disse nesta segunda-feira o presidente eleito no Paraguai, Fernando Lugo. Ele nega que pretenda tomar qualquer medida extrema, como fez Evo Morales, na Bolívia, ao nacionalizar as petrolíferas estrangeiras e aumentar o preço do gás. "A nossa relação com o Brasil é de país para país, de Estado para Estado, e tomara que isso possa facilitar a busca de um consenso que seja melhor para as duas partes", falou. O presidente Lula garantiu que Brasil não vai rever o tratado de Itaipu.
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O Paraguai só perde para a Bolívia o posto de país mais pobre da América do Sul. Ali, 30% da população está abaixo da linha de pobreza e, apesar de dados oficiais darem conta de que existe no país 6% de analfabetismo, especialistas estimam que 59% dos paraguaios sejam analfabetos funcionais, ou seja, sabem ler, mas não compreender.

A impressão que se tem ao trafegar pelas ruas sujas da capital paraguaia - em táxis invariavelmente amassados e com estofamento deformado; ou em ônibus coloridos que parecem saídos de algum portal com passagem para a década de 70 - é de que estamos sempre de passagem, e que ali, logo ali, depois daquela rua feia, vamos dar em um lugar mais aprazível, uma grande avenida, uma praça ampla.

Mas não. Não há em Assunção avenidas largas ou bem pavimentadas. Nem tampouco bem iluminadas. Assunção é escura e é difícil encontrar um ponto para se descansar o olhar. A chamada Praça do Congresso, onde Fernando Lugo e Blanca Ovelar encerraram suas campanhas eleitorais, tenta ser uma exceção.

Com ares de praça de uma cidade do interior de São Paulo, com chafariz e tudo, a praça abriga a Catedral Metropolitana, o Congresso Nacional e o Cabildo. Este último, um prédio imponente, uma espécie de Casa Rosada em miniatura. O Cabildo visto de longe, por quem vem caminhando pela rua Alberdi e chega à praça de frente para ele, chega a iludir o olhar.

O prédio é vistoso e das suas laterais saem duas balaustradas que convidam a chegar perto, se debruçar e descansar o olhar na Baía de Assunção, formada ali atrás, no Rio Paraguai. Ao se aproximar da mureta, no entanto, o que se vê do lado de lá é uma imensa favela. Crianças com dentes podres correm de um lado para outro e uma mulher lava roupas em um único balde, com uma única porção de água, no meio da viela.

Assim é a capital do Paraguai. Uma cidade com ar decadente, mas que na verdade não decaiu, só não evoluiu. Os seus táxis são quase todos Mercedez, mas o motor ronca como o de um Fusca 68. Os ônibus com cara de caminhão comumente avançam os sinais por simplesmente não conseguirem frear. O freio está gasto, assim como Assunção está gasta.

Em Assunção, um chip para telefone celular é vendido na esquina, em uma mesa de plástico coberta por um guarda sol. O preço é anunciado em uma folha de papel escrita a mão: 15.000 guaranis (R$ 5,8). No mesmo local se vendem orquídeas e roupas de lã e jornais, revistas e cachorro quente. Lojas de bugigangas, à lá 25 de Março, há aos montes. São abarrotadas de coisas e, assim como a cidade, escuras.

Mas o povo da capital paraguaia é algo a parte. Ele traz no rosto e no sotaque resquícios indígenas e tem um ar de submissão. É um povo com ar de sofrido e desgastado pela pobreza, mas um povo humilde, pacífico e atencioso. É difícil não responderem com um sorriso e toda a presteza do mundo a algum pedido de informação.

Há também crianças nas ruas de Assunção. Muitas. Sujas e descalças, elas perambulam pelas praças e, como no Brasil, pelos semáforos do centro da cidade. Quando percebem alguém que não pertence à paisagem daquele ambiente que é o delas, se aproximam logo. Mas quando pensamos que nos vão pedir uma moeda, eis que as pequenas Anali e Laura saem com essa: "nos saca una fotito, por favor?"

Eu tiro a foto. Elas de novo se aproximam e puxam a minha mão que carrega a máquina até a altura delas. "Queremos ver!", falam em coro. Eu mostro. E elas então me pedem para que faça para elas uma cópia "em papelito". Pena que já não há tempo hábil para atender ao pedido dessas meninas de não mais de seis anos. Elas só voltam ali agora no próximo sábado, "quando há mais movimento para a gente ver".

Esta é a capital do país que o monsenhor, ex-bispo de San Pedro, herda a partir desta segunda-feira (21). E este é o povo que compareceu em massa às urnas no último domingo para protagonizar um dos capítulos mais importantes da história política do Paraguai. E depositou nas suas costas mais essa responsabilidade, a de fazer florescer a 'esperanza de cambio' que eles tanto repetem há quase um ano.