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22/04/2008 - 00h02
Análise: o fim do isolamento do Paraguai

Fernando Gualdoni

O Paraguai sai de uma longa noite, desse claustro que Augusto Roa Bastos descreveu em seu romance "Yo el supremo" [Eu o supremo]: "O Paraguai será invencível enquanto se mantiver fechado compactamente sobre o núcleo de sua própria força". Com essas palavras, o escritor paraguaio -prêmio Cervantes em 1989- definiu a essência da política paraguaia que começa com a ditadura de José Gaspar Rodríguez de Francia (1811-1840), se mantém depois das guerras da Tríplice Aliança e da do Chaco -o Paraguai combateu em dois dos três grandes conflitos bélicos sul-americanos depois da independência da Espanha- e se confirma durante 61 anos do Partido Colorado no poder (período que incluiu os 35 anos de ditadura de Alfredo Stroessner, entre 1954 e 1989).

Os colorados estão saindo e Fernando Lugo tem diante de si o desafio de pôr de pé e no mapa um país empobrecido e o quarto mais corrupto do continente americano. A primeira preocupação é saber com que esquerda se identificará o novo inquilino do palácio presidencial de Assunção -o Mburuvicha Róga ("casa do chefe" na língua dos indígenas guaranis)-, se com a moderada do Chile e Brasil ou com a mais radical da Venezuela e Bolívia.

VITÓRIA DE FERNANDO LUGO
Crédito
Simpatizantes de Lugo se reúnem em Assunção para comemorar
BASTIDORES DA ELEIÇÃO
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Em suas entrevistas Fernando Lugo não deixou claro; parece que flerta com as duas, e por isso seus primeiros dias de governo serão vitais para ver para que tendência se inclina. Será acompanhado de perto por seus vizinhos e pelos EUA por dois motivos fundamentais: porque o Paraguai é um grande produtor de energia elétrica e é uma reserva aqüífera única, e porque sua tríplice fronteira com Brasil e Argentina abriga 25 mil muçulmanos (a maior concentração regional) e é uma das maiores portas de entrada para o tráfico de armas na América do Sul.

O Paraguai é o maior produtor de energia elétrica per capita do mundo e está em 12º lugar entre as potências hidrelétricas, segundo a Agência Internacional de Energia dos EUA, graças às represas de Itaipu (a maior do mundo até que seja terminada a das Três Gargantas na China) e a de Yacyretá. A primeira é administrada junto com o Brasil e a segunda com a Argentina. Com somente 6 milhões de habitantes, o Paraguai praticamente pode exportar toda a energia que produz para seus vizinhos. Apesar dessa riqueza energética, o Produto Interno Bruto do país mal chega a US$ 9 bilhões, o menor da América do Sul com exceção do Suriname, segundo números do Banco Mundial.

Por outro lado, o país está no centro do Aqüífero Guarani, uma reserva de água doce embaixo de quatro países que supera em tamanho Espanha, Portugal e França juntos, e que pode abastecer cerca de 720 milhões de pessoas com 300 litros diários por habitante durante um século. Se é verdade que as guerras do futuro serão pela água e não pelo petróleo, está claro que o Paraguai é um alvo estratégico único.

O tema da tríplice fronteira deixa Washington de cabelos em pé. Depois dos atentados de 11 de Setembro foi uma das áreas mais investigadas por sua possível relação com o terrorismo islâmico. Anteriormente as autoridades argentinas haviam esquadrinhado a região em busca de suspeitos ligados aos atentados contra a embaixada de Israel em 1992 e uma mutual judia em 1994, ambos em Buenos Aires, que deixaram mais de uma centena de mortos.

Em 2005 os EUA conseguiram que o governo de Assunção autorizasse o uso de suas bases aéreas e desse "imunidade" para os militares americanos que precisassem atuar na região. Em toda a América do Sul, com exceção da Colômbia, as tropas americanas só têm tratamento especial no Equador e no Paraguai. Uma das primeiras decisões do equatoriano Rafael Correa depois de ganhar as eleições presidenciais em 2006 foi expulsar os americanos da base de Manta em 2009. Agora é provável que Fernando Lugo também não os queira em território paraguaio.