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Fotomontagem de Carina Maki Hata/UOL, com fotos de Jorge Araújo/Folha Imagem (cor), Folha Imagem e Álbum de Família

Livro narra a vida do publisher da Folha

Haroldo Ceravolo Sereza
Editor da Home Page do UOL

Em 1962, Octavio Frias de Oliveira planejava uma viagem à Europa. Queria descanso, para se recuperar do esforço que a estação rodoviária, na região da Luz, no centro de São Paulo, exigira para se estabilizar como negócio. Num dia tranqüilo, no seu escritório, um amigo, Armando Nieto, telefonou e perguntou se podia passar por lá. "Ele chegou, abriu a porta da minha sala e disse de supetão: 'Quer comprar a Folha?' 'O quê?', respondi, sem entender direito. 'Quer comprar a Folha?', Nieto repetiu. 'Você está louco. Eu não entendo nada disso, não é a minha área, não sei nada disso', falei, sem acreditar que ele realmente me tivesse perguntado aquilo'", contou o próprio Frias.

Em 13 de agosto, uma sexta-feira, alguns dias depois de completar 50 anos, ele dava, com o sócio Carlos Caldeira, um cheque de entrada (para ser depositado na segunda-feira) e comprometia-se a pagar mais 24 prestações de 17,5 mil cruzeiros, "que era muito dinheiro naquele tempo". Quem acabou viajando para a Europa para descansar foi o vendedor, José Nabantino Ramos. Caldeira e Frias permaneceram sócios da Folha até o início da década de 1990, quando o grupo passou a ser controlado apenas pela família de Frias.

A compra da Folha e a entrada de Frias no setor das comunicações estão narradas em "A Trajetória de Octavio Frias de Oliveira" (Mega Brasil), livro do jornalista Engel Paschoal que será lançado nesta segunda-feira (14/8), no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo (av. Faria Lima, 201), a partir das 18h30. A obra também mostra o papel de Frias à frente da Folha no momento em que o jornal tornou-se um aglutinador dos debates em torno da abertura política no final do regime militar e no processo de consolidação democrática nos anos 1980 e 1990.

O perfil escrito por Paschoal traz ainda depoimentos de 19 personalidades, entre jornalistas, políticos e empresários. Figuram nesta lista, entre outros, os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e José Sarney, os empresários Lázaro Brandão e Antônio Ermírio de Moraes e os jornalistas Janio de Freitas, Clóvis Rossi e Elio Gaspari.

"Aos 50 anos, Frias estava no auge. Assumiu o jornal com a visão de um empresário e se entregou de corpo e alma ao projeto, transformando-o num sucesso", diz Paschoal. O livro, resultado de uma série de entrevistas feitas pelo jornalista e colaborador do UOL e de uma pesquisa que incluiu o acesso a um longo depoimento concedido por Frias a jornalistas da Folha em 1989, torna pública também uma série de imagens do empresário, que completou 94 anos no último dia 5 de agosto.

Até hoje, após construir um grupo de empresas de comunicação que inclui três jornais (Folha, Agora e Valor, este em sociedade com a Globo), o UOL, um instituto de perquisas (Datafolha) e a sociedade numa grande gráfica (Plural), Frias resiste a aceitar a qualificação de jornalista. Prefere a de empresário, embora tenha colhido algumas informações que resultaram em furos memoráveis do jornal. Um exemplo, talvez o maior deles: a informação, em 1985, de que Tancredo Neves tinha um tumor e poucas chances de sobreviver e assumir a Presidência da República, então interinamente ocupada por seu vice, José Sarney.

Primeiros anos
Octavio Frias de Oliveira, oitavo filho (de nove, entre irmãos e irmãs) de Luiz Torres de Oliveira, então juiz em Queluz (SP), no Vale do Paraíba, e Elvira Frias de Oliveira, nasceu no Rio de Janeiro, em Copacabana, em 5 de agosto de 1912, na casa da avó.

Quando tinha 7 anos, a mãe morreu, após uma série de cirurgias malsucedidas em busca do causador das dores que ela sentia. A essa altura, a família já vivia em São Paulo e Luiz Torres trocara o posto de juiz pelo de administrador do bairro operário construído pelo empresário Jorge Street, casado com uma tia de Elvira, Maria Zélia Frias Street, que deu nome à Vila Maria Zélia, no bairro do Belém, zona leste de São Paulo. Mas os negócios de Street não iam bem, e a Companhia Nacional do Tecido de Juta foi vendida para o conde Francisco Matarazzo. Luiz Torres perdeu o emprego e a família mudou-se para a rua Bela Cintra.

Em 1926, após uma reprovação no Colégio São Luís e diante das dificuldades econômicas da família, Octavio começou a trabalhar como office-boy na Companhia de Gás. Lá ficou até o início dos anos 1930, quando sua habilidade com as máquinas de calcular de então o levou à Recebedoria da Fazenda do governo do Estado. Em 1932, quando eclodiu a Revolução Constitucionalista, ele chefiava um novo serviço. Aderiu ao movimento (um tanto a contragosto) e foi parar em Cunha (SP). No livro de Paschoal, entre as fotos que ilustram a trajetória de Frias, está uma em que ele, na casa da família, no bairro da Pompéia, posa com uniforme militar.

Acidente
Em 1946, Octavio aceitou a proposta de Octavio Orozimbo Roxo Loureiro e participou da formação do BNI, inicialmente Banco Nacional Imobiliário e depois Banco Nacional Interamericano. No ano seguinte, casou-se com Zuleika Lara de Oliveira.

Com o BNI, Frias participou de inúmeros projetos imobiliários, entre eles o Copan, assinado por Oscar Niemeyer. O projeto foi lançado em 1951 e a construção começou em 1952, visando ao Quarto Centenário de São Paulo, em 1954. "Mas Frias lembra que 'não havia jeito de o Niemeyer fazer o projeto. Depois de muitos atrasos, um dia tranquei o Niemeyer na sala e disse: você só sai daqui com um projeto. Horas depois, ele havia feito os primeiros esboços do Copan'", conta o livro de Paschoal.

Em 1955, Octavio Frias, andando a cavalo, sofreu um acidente grave. Caiu do animal e lesionou a coluna. Ficou engessado por seis meses. Mesmo engessado, Frias podia dirigir seu automóvel. E, em 13 de março do mesmo ano, bate o carro num caminhão parado, sem sinalização, na pista da rodovia Presidente Dutra. No veículo, viajavam também Zuleika, a empregada Ana, José (irmão de Frias) e um sobrinho. Zuleika e José morrem.

O BNI já vivia uma crise, e Frias, por divergências com o sócio, estava se afastando do banco, que seguiu administrado por Orozimbo Roxo Loureiro. Nas palavras de Frias, destacadas por Paschoal, "o BNI foi por água abaixo". "Apesar de licenciado, eu era ainda, para todos os efeitos legais, diretor do BNI. E, como a responsabilidade de diretor de banco vai até dois anos depois da saída, fiquei com todos os meus bens bloqueados. Não podia mexer em nada. Não tive responsabilidade sobre o que aconteceu, mas fui atingido diretamente". O BNI ficou sem liquidez, sofreu intervenção do governo e terminou comprado pelo Bradesco de Amador Aguiar.

"Sem mulher, sem nada, partindo da estaca zero", como lembra o próprio Frias, ele voltou para Transaco, uma empresa sua que, até então, ficara sob administração de um parente. A Transaco vendia assinaturas da Folha e, sob a administração de Octavio, pulou de 150 a 300 assinaturas por mês para 6 mil assinaturas permanentes da Folha por mês. "Três meses depois eu já estava com dinheiro no bolso". As assinaturas permanentes seriam um problema que no futuro Frias, na direção da empresa, teria de resolver: elas se tornaram um fardo pesado demais para a empresa, que só resolveu algumas delas na Justiça.

Na mesma Transaco, Octavio conheceu Dagmar de Arruda Camargo, que foi um dia à empresa pedir um emprego para o marido. Meses depois, ela separou-se do marido e foi morar com Frias. Dagmar tinha uma filha, Maria Helena, do primeiro casamento. Com Frias, teve mais três: Otavio, Maria Cristina e Luís. Em 1965, já viúva, Dagmar casou-se com Octavio.

Rodoviária
Em 1960, Carlos Caldeira, um amigo que, após a crise do BNI, praticamente desaparecera, o procurou e o convidou para um novo empreendimento: uma estação rodoviária que organizasse os ônibus que chegavam a São Paulo.

Entre as memórias de Frias sobre o empreendimento - que, rapidamente, deu certo -, Paschoal destaca um fato pitoresco. Tanto o governo do Estado, sob o comando de Carvalho Pinto, que liberara um financiamento bancário, quanto a prefeitura, administrada por Adhemar de Barros e responsável pela liberação da planta, haviam colaborado para a que o projeto andasse. "Então, os dois queriam uma placa lá", lembra Frias. "Era um corre-corre para pôr a placa de um e tirar a do outro (risos). Quando a gente sabia que o Carvalho Pinto ia passar, punha a placa dele. Quando o Adhemar ia passar, tirávamos a placa do Carvalho Pinto e púnhamos a do Adhemar. Era uma palhaçada. E assim foi até a inauguração, em 1961".

Como Frias e Caldeira compraram a Folha em 1962, havia uma suspeita, negada pelos sócios, de que a rodoviária financiava o jornal, o que levou a uma pressão grande sobre o empreendimento.

Em 1967, a rodoviária acabou ocupada pelo polêmico coronel Américo Fontenelle, responsável pelo trânsito da cidade, e foi devolvida após sete meses de administração do Estado. Funcionou até 1982, quando foi inaugurado o terminal do Tietê. Depois de alguns anos fechado, o prédio foi vendido para investidores coreanos.

Regime militar
Durante o regime militar, a Folha viveu alguns de seus momentos mais difíceis. Mas também foi nele, a partir de 1975, que assumiu um papel decisivo na circulação de opiniões no processo de abertura política.

Com o endurecimento do regime e o surgimento da guerrilha urbana, a empresa viu-se envolvida no confronto. Veículos do jornal foram usados pela repressão. Várias facetas do episódio são recuperadas por Paschoal na obra. Um dos depoimentos a que o autor recorre é de Otavio Frias Filho: "Depois de conversar com o meu pai e até com gente que teve ligações com a guerrilha naquela época, eu diria que sim: os caminhões de transporte da Folha foram usados por equipes do DOI-Codi para fazer campana e até para prender guerrilheiros, ou supostos guerrilheiros. Mas tenho a convicção de que isso foi feito à revelia do meu pai e até do Caldeira. Eu digo até do Caldeira, porque ele era a pessoa que tinha mais afinidade com esse setor do regime militar. Ele tinha uma amizade pessoal antiga com o coronel Erasmo Dias, até porque os dois eram de Santos. Não podemos esquecer que a então Folha da Tarde dava um tratamento tão agressivo em relação à guerrilha, ao Lamarca etc., que a Folha de S.Paulo foi colocada como alvo da VAR-Palmares e da ALN, e eles chegaram a fazer atentados contra caminhões do jornal. Queimaram três caminhões da Folha, ameaçaram de morte o meu pai. Minha família morou no prédio da Folha, da morte do Lamarca, em setembro de 1971, até fevereiro de 1972".

Em 1975, sob o comando do jornalista Claudio Abramo, que entrara na empresa dez anos antes, a Folha dá início ao que Paschoal chama de política de pluralidade. Contrata jornalistas como Paulo Francis, Newton Rodrigues e Alberto Dines e passa a convidar para escrever em suas páginas nomes como Gerardo Mello Mourão, Osvaldo Peralva, Flávio Rangel e Glauber Rocha. Em 22 de junho de 1976, é criada a seção Tendências/Debates, que aproveita o fervilhar de idéias que passam a circular aproveitando a abertura política.

Num dos depoimentos do livro, o jornalista Getúlio Bittencourt afirma que a Folha ocupou um espaço até então restrito aos jornais alternativos. "A vida inteligente estava por ali", em veículos como Opinião, Movimento, Pasquim, Versus. "Quando a Folha abriu espaço para opinião, os novos talentos, ela ocupou o espaço dos jornais alternativos. Fernando Henrique Cardoso, que escrevia para o 'Opinião', escrevia para a Folha, assim como Bolívar Lamounier. O sr. Frias, é claro, fez uma coisa mais ampla, o Plínio Corrêa de Oliveira [da organização de extrema-direita católica TFP, Tradição, Família e Propriedade] também escrevia para a Folha, o Marco Maciel... ele pegou um espectro que ia da esquerda à direita, mas bastou ele colocar esse espectro da esquerda dentro da Folha que ela ficou muito maior do que todos os jornais alternativos juntos."

O jornal passou a incomodar profundamente os militares. Em 1º de setembro de 1977, o jornalista Lourenço Diaféria publica, no caderno cultura da Folha, a Ilustrada, um texto intitulado "Herói. Morto. Nós", que falava de um bombeiro que morrera após salvar um garoto de um poço de ariranhas no zoológico de Brasília. "Diaféria o comparava a outros heróis militares, especialmente duque de Caxias", conta Paschoal. "O jornalista falava da estátua dele em São Paulo e concluía: 'O povo está cansado de estátuas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal'". No dia 15 de setembro, Diaféria foi preso. No dia 16, a Folha deixou em branco o espaço de sua coluna.

Frias recebeu, então, uma ligação do chefe da Casa Militar, Hugo Abreu, que ameaçou enquadrá-lo na lei de segurança nacional caso a Folha voltasse a publicar a coluna em branco. Numa reunião, a Folha conclui que não fazia sentido "bancar o herói". O jornal, então, desistiu da coluna em branco e publicou um editorial, qualificando a prisão de Diaféria de chocante e lamentável.

Os sócios Octavio Frias e Carlos Caldeira decidiram, também, adotar um recuo estratégico. Afastaram-se oficialmente da direção da empresa e a transferiram a dois funcionários de confiança, Wanderley de Araújo Moura e Renato Castanhari. Claudio Abramo deixou também o cargo de diretor de Redação, que passou a ser ocupado por Boris Casoy.

O jornal, no entanto, não mudou o rumo do projeto que o levaria a ter um papel central na campanha das Diretas-Já, na virada de 1983 para 1984.

Filhos
A partir dos anos 1980, os filhos Otavio e Luís passam a desempenhar papéis cada vez mais importantes na empresa que, em 1986, viu a Folha tornar-se o jornal de maior circulação do país.

Otavio assume o posto de diretor de Redação da Folha em 1984 e comanda a implantação do chamado Projeto Folha, enfrentando forte resistência de setores da redação.

Em 1991, Luís, que já ocupara vários postos da administração da empresa, torna-se presidente do grupo.

Neste processo, Octavio Frias, o pai, transferiu muitas de suas funções para os filhos, mas seguiu comandando as discussões sobre os editoriais do jornal. Num dos momentos mais difíceis, após a invasão do jornal por policiais federais no governo Collor, comandou as reuniões que decidiram o texto e o tom do editorial que denunciou a ação do governo.

Quando a Folha decidiu criar o UOL, em 1996, Octavio Frias disse ao filho Luís que não entendia bem o que ele estava fazendo, mas que ele devia seguir em frente, desde que mantivesse o foco principal na Folha. "Daí, fui em frente", contou Luís Frias ao autor do livro. "De 2000 para cá, meu pai não teve dúvida de que é importante. Ele já dizia: 'Isso é o futuro'. Ele foi um dos grandes incentivadores do UOL."

Este texto foi publicado em 12 de agosto de 2006, para o lançamento da primeira edição do livro