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"Ele analisa o jornal do ponto-de-vista do leitor"

Leia abaixo o depoimento do jornalista Boris Casoy ao livro "A Trajetória de Octavio Frias de Oliveira" (Mega Brasil), de Engel Paschoal, feito a partir de entrevista concedida em 3 de março deste ano.

Quando colocou os pés na Folha de S.Paulo pela primeira vez, em 1974, Boris Casoy não se sentia preparado. “Não para ser jornalista, mas para exercer a função de editor. Até porque exigia um conhecimento técnico de jornal que eu não tinha. Eu nunca tinha trabalhado em jornal”. Jornalista ele era, e experiente também. Nascido na cidade de São Paulo em 1941, Boris começou a trabalhar aos 15 anos. Só que, apaixonado por rádio, sempre trabalhou com um microfone nas mãos. Começou como locutor de esportes, na extinta Rádio Piratininga. Passou, depois, pelas rádios Santo Amaro, Panamericana e Eldorado. E do rádio, Boris partiu para a área de assessoria.

Como secretário de imprensa do prefeito Figueiredo Ferraz, Boris teve vários encontros com Octavio Frias de Oliveira, publisher da Folha: “O Frias presidia a Fundação Cásper Líbero e a prefeitura fazia questão de pôr em ordem o prédio da fundação na avenida Paulista. O prédio tinha uma série de pontos inacabados, não tinha alvará de funcionamento e eu fui escalado para acompanhar essa tentativa de regularização com o Frias. Pela Fundação Cásper Líbero, ele tinha um cronograma de término de obras, e eu fui muito duro com ele. Depois, quando me contratou, ele me disse que, além das informações que o Cláudio Abramo lhe dava a respeito do meu trabalho na prefeitura, que eram positivas, ele gostou desse tipo de ação que eu tive em relação a ele. Não era uma relação de camaradagem. Era uma relação dura, embora educada. As exigências não foram abrandadas.

O fato de ele ser um grande empresário de comunicação não me acovardou. Estou dizendo o que ele me disse, como ele via. Ele juntou todas essas coisas e achou que, na visão dele, ter uma pessoa como eu, se vestisse a camisa da Folha, faria um aprendizado muito rápido e colaboraria com o jornal. Foi tudo muito rápido.

Essa primeira etapa minha, de 74, foi muito rápida. Eu fiquei muito nervoso, não dei conta do recado. Ele me colocou como editor-chefe logo depois. Eu me sentia despreparado mesmo. Mas, da segunda vez, que foi em 1977, eu já me senti preparado”. Em 1977, Boris substituiu Cláudio Abramo como editor-chefe da Folha. E ficou no cargo até 1984.

Ele sempre teve todo o apoio de Frias. Mas nem por isso deixava de ser cobrado. Frias ligava diariamente para ele logo cedo, já tendo lido o jornal inteirinho. E apontava todos os erros. “E, quando eu dava uma desculpa – ‘olha, o jornalista é muito nervoso, ficou doente, eu tive que substituir por uma pessoa não especializada na última hora’ –, Frias dizia: ‘Da próxima vez, você dá essa explicação também para o seu leitor. Eu sou consumidor, eu paguei, eu não quero saber o que aconteceu. Eu quero a informação correta, na hora certa’. Era assim que ele posicionava a gente. Temos uma tendência de nos enredar nas próprias tolerâncias que existem nas Redações. E ele não tolerava esse ciclo de tolerância, como ele chamava. Eu te tolero, você me tolera. Existia muito isso nas Redações. Como empresário, ele acima de tudo é um vendedor. Ele tem a visão do vendedor. Como vendedor, tem a visão do comprador”.

Uma das virtudes de Frias, segundo Boris, “é não se apegar a nenhum tipo de preconceito e nem ao preconceito de não saber as coisas, que é muito humano. Quando estourou a questão energética, da possibilidade de racionamento de gasolina, petróleo, como de fato houve, o governo ia estabelecer as ‘simonetas’, as cotas. Ele foi procurar as melhores cabeças para discutir a questão energética, exaustivamente, muitas vezes com a Redação, muitas vezes sem a Redação, a cúpula da Redação, para aprender. E, como bom aluno, aprendia e concluía. Ouvia os prós, os contras. Quem era a favor, quem era contra, e tirava uma conclusão. Não é que ele decidia. Não é aquela coisa que você ouve todo mundo e cada um tem uma posição. Ele formava um amálgama e concluía. Geralmente, o aprendizado dele era muito bom a ponto de poder discutir e debater comas pessoas sobre os assuntos”.

Frias não era inflexível. Quando alguém dizia “Essa sua posição está errada”, ele respondia: “Discute comigo”. Uma vez, o assunto era a desburocratização do ministro Hélio Beltrão. Uma das questões envolvia a plaqueta que todos os anos devia ser afixada na placa dos carros. Boris achava que “aquela plaqueta tinha outras finalidades, que não a de identificar os devedores. Era uma demanda de produção de plaquetas. Alguém comentou com o Frias que aquilo era uma loucura, porque se identificava o não pagador.

E o Frias dizia: ‘Me parece lógico’. E eu disse a ele: ‘Olha, Frias, quando você não paga imposto predial, ninguém põe placa na porta da sua casa. Quando você não paga o imposto de renda, você não sai com placa na cabeça’. E ele: ‘Ganhou, acabou a discussão’, e mudou de posição. Ele não era burramente rígido. Às vezes, ele era rígido. Às vezes, ele falava: ‘Vamos discutir e me convença’. Se os argumentos que você dava eram fortes, ou ele ficava em dúvida, ou mudava de posição”.

Outra característica que Boris admira em Frias é que ele sempre respeitou a idéia dos outros: “Quando a idéia é de outro, ele usa a idéia, mas a atribui sempre ao autor. Ele jamais grila uma idéia, o que é muito comum no gênero humano. Essa é uma maneira que ele vê de incentivar a criatividade, os debates”. Um exemplo é a página 3, de ‘Tendências/Debates’: “A página 3 foi criada num momento em que o regime militar começava a abrir. Era uma zona cinzenta. A gente não sabia até onde podia ir, tateávamos no escuro. A idéia da página 3 foi do Cláudio (Abramo), mas o sucesso da página 3 é do Frias, porque ele trouxe, ele exigiu, ele fiscalizou para que houvesse um grande leque ideológico. Trazer algumas figuras da extrema esquerda ou da extrema direita era tabu dentro da Redação. Porque essas pessoas eram malvistas ou bem-vistas em determinadas áreas da Redação, em razão da própria diversidade da Redação. Mas o Frias ficava acima disso”.

Segundo Boris, a Redação não queria essa diversidade: “Imagine, a Redação achava que o Plínio, da TFP, era um horror. ‘Trazer esse cara para escrever no nosso jornal?’ Mas o Frias bancou e bancou o leque todo. O parâmetro era qualidade, representatividade.

Não importava a ideologia. Quando eu assumi o jornal da segunda vez, as condições eram apocalípticas, e ele dizia assim: ‘Eu quero que o jornal seja objetivo, com noticiário, com o maior leque de opiniões’. É confortável o que ele sempre pediu. ‘Eu quero um jornal que seja tão bom que tenha esse conteúdo de noticiário isento, apartidário, independente, e cuja leitura seja obrigatória, que ninguém saia de casa sem ter lido a ‘Folha’’. Porque (se a pessoa não lesse) estaria por fora.

Esta subdefinição é minha. A Folha seria leitura obrigatória e também se tornaria obrigatório anunciar na Folha, como conseqüência.

Ele ainda brincava com a gente, uma expressão que ele usa muito: ‘Não tem circo sem bilheteria’.