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"Levou os novos acadêmicos para a Redação"

Leia abaixo o depoimento Fernando Henrique Cardoso ao livro "A Trajetória de Octavio Frias de Oliveira" (Mega Brasil), de Engel Paschoal, a partir de entrevista concedida em 13 de abril de 2006.

Carlos Alberto Cerqueira Lemos construiu sua casa em Ibiúna, município vizinho da cidade de São Paulo, com o dinheiro que recebeu por um projeto para o edifício da Folha de S.Paulo. O projeto não foi executado, mas foi ele quem arquitetou a aproximação de dois dos seus amigos: o futuro presidente Fernando Henrique Cardoso e Octavio Frias de Oliveira. "O Carlos é grande amigo meu. Foi ele quem fez a minha casa em Ibiúna", diz Fernando Henrique. "Estávamos sempre juntos lá e ele me dizia: 'Você tem que tomar um café com o Frias'. Era a época do regime militar e eu passava parte do tempo fora, parte no Brasil, trabalhando no Cebrap. Até que um dia o Carlos passou no meu escritório e me disse: 'Hoje nós vamos tomar um café com o Frias!'. Eu fui, não sei exatamente a data, acho que em 1976, por aí. Nesse encontro estavam o Cláudio (Abramo) e o Frias. E eu gostei de cara do Frias, porque ele é muito inteligente, muito vivo. E tem um estilo irônico, que eu aprecio".

O convite para Fernando Henrique escrever na Folha foi imediato, durante o café. E ele aceitou, igualmente de pronto, apesar de preocupado com a inexperiência em escrever para um jornal dirigido ao grande público, como ele próprio revela, lembrando que estava acostumado com os jornais alternativos, de perfil intelectualizado, como o Opinião. "Eu comecei na Folha, mas não sabia como escrever para um jornal diário, que tinha um leitor mais eclético. Entrei na página 2, naquela coluna que depois foi do Samuel Wainer e hoje é do Clóvis Rossi. E tinha um jornalista na Redação (eu não me lembro o nome) que me ajudava muito. Era um sujeito muito simpático, que me corrigia. Naquele tempo não tinha esse negócio de internet. Era complicado mandar um artigo, às vezes eu ditava pelo telefone."

Carioca, nascido em 1931, o ex-presidente morou pouco no Rio de Janeiro. Da primeira vez, do nascimento até 1940, chegou a fazer dois anos do curso primário em um colégio de Copacabana, por acaso chamado Paulista. Após uma permanência em São Paulo, quando Fernando já cursava o secundário, o pai foi transferido para o Rio, onde ele prosseguiu os estudos.

"Depois, voltei para São Paulo. A Radhá (que viria a ser esposa de Cláudio Abramo) foi minha colega desde o curso de admissão. Um dia, o Cláudio foi conversar comigo: 'Olha, eu vou sair da Folha, porque houve pressão dos militares... mas o Boris (Casoy), que vai me substituir, está combinado conosco'".

Era setembro de 1977 e, sob a intimidação do regime militar, às vésperas das manobras fracassadas do general Sylvio Frota, Cláudio Abramo foi substituído por Boris Casoy. Segundo Fernando Henrique, "os intelectuais começaram a se afastar da Folha em protesto, mas eu fiquei. O Cláudio e outros amigos pediram que eu ficasse, porque o afastamento do Cláudio era uma manobra tática do Frias. O Boris era considerado mais conservador. Mas é um homem direito, não ia fazer nenhuma bobagem, como não fez. E eu fiquei na Folha, apesar daquela recuada... porque todo mundo achava que o Frota ia dar um golpe. O Geisel não deixou. Foi um momento muito duro e as coisas, de qualquer maneira, não pioraram". Em outubro de 1977, o general Frota, ministro do Exército, foi demitido pelo presidente Ernesto Geisel.

A relação de Fernando Henrique Cardoso com a Folha perdurou. Escreveu sua coluna semanal por uns dez anos, inclusive durante todo o período em que ocupou uma vaga no Senado e até se tornar ministro das Relações Exteriores do governo Itamar Franco. Na época, não só ele, mas colegas do Cebrap também colaboraram com a Folha: José Serra e Eduardo Graeff eram editorialistas, e Vilmar Faria ajudou na criação do Datafolha.

Para o ex-presidente, duas instituições souberam perceber a mudança da vida em São Paulo nos estertores da ditadura: a Abril e a Folha. "O que fizeram? Puxaram a universidade para si. A Abril, na época da ditadura começou a chamar gente, aquele pessoal que não tinha emprego, para fazer os fascículos. Eu mesmo trabalhei nisso, a Ruth, o Pedro Paulo Poppovic, que era nosso amigo, dirigia essa parte da Abril. E a Folha, por sua vez, chamou a nova geração de acadêmicos. A Folha sempre competiu com o 'Estadão' e, a partir de determinado momento, o 'Estadão' tinha a velha geração e a Folha, a nova. Eu fui da transição. Não era propriamente da nova geração, mas dei o aval para que os mais jovens viessem. E concordava com essa política. Era preciso abrir a imprensa. O pessoal da esquerda era muito do tipo 'eu não colaboro'. Eu acho positivo colaborar com quem deseja mudar as coisas, melhorar a situação do País, mesmo que não seja nas condições ideais. É preciso abrir caminhos, abrir espaços. E tudo isso ocorreu porque o Frias soube equilibrar inteligência e ousadia em um momento muito difícil".

De articulista a assunto obrigatório das edições diárias da Folha durante os oito anos do seu mandato presidencial, Fernando Henrique Cardoso entende que o jornal tem dinâmica própria: "Tem que ter independência, tem que ter a capacidade antecipatória, essa que a Folha colocou no manual dela. E como é que funciona? É pelo viés, não é pelo normal. É pelo que está errado que o jornal vê o conjunto. Claro que você fica irritado, mas é a maneira que a imprensa tem de olhar a sociedade, é o ângulo próprio dela. É o viés, é o desvio, o escorregão. Às vezes a imprensa exagera. O risco do jornalista é o de só olhar o viés.

Nesse caso desorienta a opinião, porque não dá os parâmetros para ela se organizar. Transmite a sensação de que está tudo errado. É preciso haver um certo equilíbrio. Mas a Folha foi por esse caminho, do qual eu não discordo. Eu discordo só do exagero, às vezes, mas não da linha".

Para Fernando Henrique Cardoso, "o Otavio (Frias Filho) encarnou isso de uma maneira muito forte. A Folha pautou muitos jornais e avançou. Mas, por trás, está o Frias, com sua capacidade extraordinária de trabalho. Embora o Otavio tenha muitas virtudes, é mais intelectual. O Frias não, é um político e um empresário. Ele tem um pessimismo que é, digamos, metodológico. Por cautela. Porque, se ele fosse pessimista mesmo, não teria feito o que fez. Ele acredita no que faz, mas toma distância. É uma pessoa que tem muitas qualidades e que nunca deixou de olhar para o essencial. Sabe que também é essencial não perder dinheiro porque o jornal é uma empresa. Ele tem essa visão, que parece simples, mas é fundamental. Para quem não é empresário, é diferente. O Frias tem esse sentimento muito agudo de que é preciso ter dinheiro para ter independência e poder fazer o que se deseja. Mas se fosse só isso, ele não iria longe. É preciso ousar e ele sabe fazer isso muito bem.

Quando resolveu abrir a Folha à colaboração das esquerdas e dos opositores ao regime arbritário, foi porque percebeu que o jornal tinha de ser mais crítico. Até então a Folha era apenas mais um jornal, mais uma empresa. Quando o Frias percebeu que já era possível - sem arriscar a vida da empresa - mudar de tom, entrou decididamente pelo lado democrático. Quando viu a nuvem negra do Frota lá em cima, recuou, recolheu algumas velas, mas não mudou o rumo. Foi mais devagar, mas não mudou o rumo.

Eu admiro essa capacidade de ser realista, recuar se necessário, mas não desistir de alcançar o que se deseja". Sujeito do noticiário por força das circunstâncias do cargo que ocupou, o ex-presidente lembra dos muitos ataques que recebeu da Folha, mas que, mesmo assim, nunca telefonou para Octavio Frias de Oliveira para reclamar. "Uma única vez, não foi com o Frias, falei com o Otavio, por causa do 'suposto' dossiê Cayman. Disse ao Otavio que não havia cabimento, que aquilo era uma chantagem. E a Folha levou dois anos para tirar o assunto da pauta. Mas foi a única vez. Não é o meu estilo. Como eu sei que o viés é a linha dos jornais, eu não reclamei. Uma vez, quando da inauguração do centro gráfico, eu disse ao Frias que não ia, porque saíram uns artigos insinuando que havia roubalheira no governo. Como é que eu vou homenagear um jornal que fica dizendo, direta ou indiretamente, que eu sou ladrão?

Mas o Frias fez com que escrevessem um versão mais amena, sem alusões, mesmo que longínquas, a mim. Aí, eu fui. Fiz um discurso emocionado, porque foi sentido mesmo. A Folha ainda na época do regime militar tomou posições corretas e eu disse isso lá. Eu tenho muita admiração pelo Frias. Ele tem uma história fascinante. Ele é 'self-made man'. Aquele barão não sei das quantas, lá atrás, de quem ele descende não tem nada a ver com o Frias. O Frias se fez sozinho. Eu gosto dele".