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"No QG das Diretas"

Leia abaixo o depoimento do jornalista Ricardo Kotscho ao livro “A Trajetória de Octavio Frias de Oliveira”, de Engel Paschoal, a partir de entrevista concedida em 27 de fevereiro de 2006.

A Folha já foi muitas coisas na sua história de 85 anos. O que ela é hoje é produto de três pessoas. Primeiro, do sr. Frias e do Cláudio Abramo, que transformaram um jornal que não tinha importância editorial – aliás, nos anos da ditadura nem editorial tinha – no grande jornal da abertura política. A campanha das diretas entra no bojo da decisão que eles tomaram. E, depois, do Otavio (Frias Filho). Embora eu não concordasse com o Projeto Folha, a verdade é que deu certo. Tanto é que foi imitado, copiado ou inspirou outras publicações brasileiras e mantém o jornal até hoje como líder entre os grandes jornais brasileiros”.

O depoimento é de Ricardo Kotscho, por duas vezes repórter da Folha de S.Paulo. Ele nasceu na cidade de São Paulo, em 1948. Sua carreira jornalística teve início em outubro de 1964, na Gazeta de Santo Amaro, jornal de bairro da capital paulista. Logo, foi para O Estado de S. Paulo, onde ficou 11 anos, passando por vários cargos.

Em seguida, partiu para a Alemanha e lá se fixou como correspondente do Jornal do Brasil. Retornou ao País em 1978, indo trabalhar na IstoÉ e, depois, no Jornal da República. “O Jornal da República durou menos que um ano, mas juntou uma equipe muito boa. Estavam lá o Clóvis Rossi, o Cláudio Abramo e quem comandava tudo era o Mino Carta. Eu estava de férias e, quando voltei, o Mino me disse ‘não deu para segurar – o jornal faliu –, mas não se preocupe, não, que eu já arrumei emprego para você. Você pode se apresentar lá na Folha. Eu falei com o Cláudio (Abramo) e ele falou com o sr. Frias’.

Da minha primeira conversa com o sr. Frias eu nunca vou esquecer. Ele falou: ‘Kotscho, eu acompanho o teu trabalho já faz tempo e quero te dizer que aqui na Folha não tem esse negócio de lista negra, de coisa que você não pode falar. Aqui é tudo livre. Você pode dizer o que quiser. Agora, não me fale da estação rodoviária. Você nem passe perto da estação rodoviária, porque esse é um problema que eu tenho’. E eu disse a ele: ‘Está combinado, sr. Frias. Tem outros assuntos para a gente tratar’. Nessa primeira conversa houve total empatia, eu gostei do jeito dele e se estabeleceu uma relação de confiança”.

Na Folha, no início dos anos 80, Kotscho cobria os movimentos sociais: os sindicatos, a igreja, os sem-terra. Acompanhou as greves dos metalúrgicos do ABC e tornou-se amigo do então sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva.

Foi em meio a esses movimentos que Kotscho captou o anseio popular pelas diretas. Sugeriu a Adilson Laranjeira, seu chefe de reportagem na época, que o jornal fizesse uma cobertura do assunto. Ele não sabia, nem poderia saber, que o assunto tramitava em clima de “segredo de Estado” entre os dirigentes da Folha. Otavio Frias Filho, então secretário do Conselho Editorial, já apresentara a idéia de uma campanha pelas diretas ao publisher do jornal, Octavio Frias de Oliveira, e ao editor responsável, Boris Casoy. Era novembro de 1983.

“A Folha foi o único jornal que cobriu o movimento das diretas. Os outros jornais, toda a grande mídia brasileira, davam pouco ou nada do assunto. E, dentro da Folha, quem realmente deu força para os repórteres como eu foi o sr. Frias. Foram meses desde que eu comecei a cobertura, do final de 1983 até abril de 1984, e eu conversei muito com o sr. Frias. Ele era um entusiasta da idéia. Inclusive porque foi o período em que a Folha começou a vender mais e se transformou em um jornal nacional. Até então, era um jornal muito de São Paulo”, afirma Kotscho.

A Folha tinha ambiente para abraçar a campanha das diretas. Para Kotscho, “o Estadão foi o jornal da resistência, o jornal que mais afrontou a censura, depois de ter apoiado o governo militar. Houve uma ruptura dos Mesquita com o governo militar, a partir de 1968, mas não havia, no final da censura, um diálogo da direção com a Redação, como havia na ‘Folha’.

Então, a Folha se aproveitou disso, e o Estadão recuou depois da saída da censura, a meu ver. Houve uma crise lá e toda a equipe do Clóvis Rossi, que tinha participado desse período de resistência à censura, saiu. Uma parte foi para a IstoÉ, depois Jornal da República, e uma parte foi para a Folha, onde, mais tarde, a gente se reencontrou. A Folha acabou sendo, a partir do início dos anos 80, o jornal da abertura política”.

E como a Folha passou a ser QG das diretas? Kotscho conta que “as lideranças políticas todas, com exceção das que apoiavam o regime militar, começaram a procurar a Folha. As pessoas iam falar com o sr. Frias. A Folha tornou-se ponto de encontro. Era a bandeira que faltava para o jornal. Ele já vinha crescendo, já abrira as páginas para diferentes pensadores, de direita e de esquerda, aquela terceira página de ‘Tendências/Debates’. Mas faltava alguma coisa para a Folha se transformar no grande jornal brasileiro. E faltava para todo esse movimento social e político, de esquerda, contra a ditadura, uma bandeira que unificasse tudo, que era a das diretas. As duas coisas acabaram conjuminando”.

Ricardo Kotscho reuniu todas as matérias que escreveu naquela época no livro “Explode um Novo Brasil – Diário da Campanha das Diretas” (Editora Brasiliense). De sua primeira passagem pela Folha, de 1980 a 1987, Kotscho se lembra ainda do CCRR – Conselho Consultivo de Representantes da Redação. “A Folha foi o único grande jornal que autorizou a implantação. Era uma reivindicação do sindicato, um conselho de representantes eleito pela Redação para discutir não só problemas trabalhistas, mas tudo com a direção do jornal. Isso com estabilidade, que era uma coisa que nenhuma empresa queria dar e o sr. Frias deu. Eram três ou quatro representantes da Redação que se dirigiam em primeira instância ao Boris, quando alguém era demitido, ou por questões de trabalho, horário, aumento. E, quando não dava certo com ele, o sr. Frias recebia.”

Kotscho deixou a Folha para trabalhar no Globo Rural, na TV Globo, mediante licença não-remunerada. Ele nunca trabalhara em televisão e queria conhecer o veículo. Ao voltar de uma viagem ao México, soube que Augusto Nunes tinha assumido o “Jornal do Brasil” em São Paulo e estava montando equipe. Contrário às mudanças ocorridas na “Folha de S.Paulo” com a implantação do Projeto Folha, Kotscho voltou ao “Jornal do Brasil”. Em 1988, era repórter da sucursal do “Jornal do Brasil” em São Paulo, de onde saiu para ser assessor de Lula, em 1989, retornando ao jornal em 1990. Em 1994, novamente participou da campanha de Lula. Em 2001, na fila de cumprimentos pelos 80 anos da Folha, recebeu convite do sr. Frias e voltou à Folha de S.Paulo, mas saiu no ano seguinte, para uma nova campanha do candidato Luiz Inácio Lula da Silva.

Eleito o presidente, Kotscho assumiu o cargo de secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República, ali ficando até 26 de novembro de 2004, quando pediu demissão.

“O sr. Frias, que sempre gostou de dizer que não é jornalista, tem alma de jornalista, feeling de jornalista. Grandes furos da ‘Folha’ foram obra dele. Um, que todo mundo sabe, foi o da verdadeira causa da morte do Tancredo (Neves). Outro foi a notícia de Bresser Pereira como ministro da Fazenda. O próprio Bresser Pereira não sabia de nada. E, em várias outras matérias, o sr. Frias chamava para dar a pauta: ‘Ô Kotscho, você conhece o Eliezer Batista? É um grande brasileiro. Ele veio aqui, contou umas coisas de Carajás. Você vai e faz a tua reportagem. Não é porque é meu amigo que você tem que falar bem’. E é verdade, e ele cumpria isso”.

Kotscho ainda lembra que “ele também tinha essa história de contratar bons jornalistas. A frase que aprendeu com o Nabantino Ramos é que ‘um bom jornal se faz com bons jornalistas’. Isso segundo ele. Porque, segundo outros, a frase é dele e ele atribui ao Nabantino”.