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"O jornal é o espelho do Frias"

Leia abaixo o depoimento do banqueiro Lázaro de Mello Brandão para o livro “A Trajetória de Octavio Frias de Oliveira”, de Engel Paschoal, feito a partir de entrevista concedida em 13 de abril de 2006.

Lázaro de Mello Brandão conhece Octavio Frias de Oliveira de longa data: “Nós o respeitamos muito pela maneira como ele conduz a vida dele e a atividade profissional. Ele sempre mostrou grande apreço pelo Bradesco. Isso nos dá muito conforto, porque ele naturalmente tem a sua avaliação. E ele é muito personalista. Se toma um rumo qualquer, tem uma posição muito própria.

Quando ele assumiu a ‘Folha’, já tinha um relacionamento conosco, porque havia um resquício do passado. Ele foi do banco do Roxo Loureiro, o BNI, que ficou conosco. Mas, ao adquirir a ‘Folha’ do Nabantino Ramos, manteve um contato estreito com o Amador Aguiar, que era o nosso comandante aqui, sempre de uma maneira muito cordial e muito franca. A gente percebia a determinação dele de criar um jornal competitivo e que naturalmente cresceria e alcançaria posições de destaque”.

Brandão nasceu em Itápolis, interior de São Paulo, em 15 de junho de 1926. Formado em administração de empresas e economia, iniciou sua carreira em setembro de 1942, como escriturário, na Casa Bancária Almeida & Cia. No ano seguinte, em março de 1943, a Almeida & Cia. transformou-se no Banco Brasileiro de Descontos, atual Bradesco. Por isso, pode-se dizer que Brandão é cria da casa, onde passou por todos os escalões da carreira bancária. Em janeiro de 1963 foi eleito diretor e, em setembro de 1977, diretor vice-presidente executivo. Sucedeu o fundador do banco, Amador Aguiar, em janeiro de 1981, quando assumiu a Presidência da Diretoria. Em fevereiro de 1990, acumulou a presidência do Conselho de Administração. Em março de 1999, indicou o seu sucessor na presidência da Diretoria, permanecendo na presidência do Conselho de Administração.

O Bradesco criou a Cidade de Deus em Osasco, na Grande São Paulo, em 1953. Brandão lembra que “Frias foi um dos que entenderam que essa era uma medida ousada, e realmente era, que surpreendeu todo o sistema financeiro. Na ocasião, havia dificuldades de transporte, de comunicação, de energia, de tudo. Tinha precariedade em tudo. E, mesmo assim, Frias achava que era uma decisão que daria resultado, mas exigindo um esforço muito grande. Ele acompanhou nossa evolução e isso criou muita proximidade. Outro fator de ligação foi a gráfica. O sr. Aguiar era tipógrafo quando jovem, e o xodó dele aqui era a gráfica. Depois de um tempo, um prédio de 28.000 m2 foi construído para abrigar a gráfica. Era uma gráfica voltada para dentro, mas que acabou fazendo trabalhos para fora. Imprimia para o Banco do Brasil, para a concorrência. E, certamente quando Frias aparecia, a visita à gráfica fazia parte da rotina. Os dois trocavam informações sobre questões técnicas da área gráfica”. Para Brandão, “a ‘Folha’ é um jornal que tem uma preferência indiscutível e é confiável, o que é importante. Não tem linhas alternativas.

Tem uma linha definida, muito clara, e coloca coisas até que se conflitam com posição dele. Eu acho que, como mídia, é um jornal que tem que ser respeitado”. Ele credita essa característica à “independência que Frias levou para a área jornalística. Certamente, Frias imprime um respeito evidente e sabemos avaliar o que ele tem feito, seja na área gráfica, seja na maneira de conduzir as matérias. Disso, a gente tem uma visão muito clara”.

A determinação, o esforço e uma dedicação pessoal indiscutível e plena são os fatores que levaram Frias a tomar gosto pela atividade jornalística, segundo Brandão. “Ele certamente imprimiu uma marca, que é a ‘Folha’. Ele tem uma disciplina rígida, inquestionável. É muito determinado. E uma disposição para crescer, para dominar, para ter uma posição de destaque na área de mídia. E introduzindo novidades, seja na área gráfica, seja na área de informática. Ele criou o UOL com algumas dificuldades, com alguns tropeços, mas nunca desistiu, nunca recuou, e hoje tem uma posição muito mais definida, muito mais consolidada. Acho que foi um dos primeiros que trouxeram cores para o jornal. E tomando posição muito marcante em vários editoriais. No movimento Diretas-Já, por exemplo, ele foi muito positivo. Me lembro das dificuldades com o governo Collor, ele tinha também posição muito marcante. Recentemente, antes desses problemas todos (de corrupção no País), saiu um editorial em que ele criticava o excesso de uso do poder, que criava todas essas distorções e que, em seguida, se mostrou ser a origem desses problemas”.

Por isso, Brandão diz que “o jornal é o espelho do Frias, do que ele se propõe. É indiscutível. E nós temos que enaltecer a energia dele, pela faixa etária em que está e ainda com presença no comando.

É um exemplo excepcional. Ele realmente é abnegado nesse sentido. E pensar que ele diariamente media o retorno do faturamento em comparação com a concorrência. Era uma briga de foice, e ele fazia isso pessoalmente.

Outra coisa que considero muito importante é essa abertura clara, associando-se à Globo para fazer o jornal ‘Valor Econômico’”.