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“Atravessar todas as crises do século 20 e chegar ao século 21 em situação excelente”

Leia abaixo o depoimento do banqueiro Olavo Egydio Setubal ao livro “A Trajetório de Octavio Frias de Oliveira”, de Engel Paschoal, a partir de entrevista realizada em 24 de abril de 2006.

“Engenheiro!”. Assim Olavo Egydio Setubal sempre fez questão de se autonomear, mesmo quando já trabalhava em banco e dirigia funcionários do setor financeiro. Hoje, ele reconhece que “isso era bobagem”, só para lembrar que Octavio Frias de Oliveira “é jornalista, por mais que diga o contrário. Ele dirige os jornalistas!”.

Setubal nasceu na cidade de São Paulo, em 16 de abril de 1923. Filho do jornalista e escritor Paulo de Oliveira Setubal e de Francisca de Souza Aranha Setubal, seguiu o caminho de estudo das “exatas” e formou-se engenheiro mecânico e eletricista pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo em 1945.

Na Poli, como é chamada a Escola Politécnica por estudantes e professores, Setubal foi professor-assistente de eletrônica de 1945 a 1948, ao passo em que trabalhava também como pesquisador no IPT, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas, desde 1943 e até 1948.

A partir de 1962, ano em que Frias comprou a Folha de S.Paulo, Setubal passou a despontar na atividade financeira, tendo sido diretor da Carteira de Crédito Geral do Banco do Estado de São Paulo. Em 1966, já era membro do Conselho Nacional de Seguros Privados. Em 1971, tornou-se membro da Comissão Consultiva Bancária do Banco Central do Brasil e, em 1974, membro do Conselho Monetário Nacional. Sua atividade política levou-o a ocupar o cargo de prefeito da cidade de São Paulo, de 1975 a 1979, e de ministro de Estado das Relações Exteriores, de 1985 a 1986. “Eu tomei posse na prefeitura sem nunca pensar em ser prefeito. Lá pelas circunstâncias da política, o Paulo Egydio (Martins) me convidou e eu aceitei. E aí eu assumi a prefeitura, convidei o secretariado sem conhecer ninguém. Só o Cláudio Lembo eu levei comigo. Ele era advogado do Itaú”.

Setubal não se recorda de quando conheceu Frias. “Eu acho que a primeira vez que tive contato com o Frias foi quando eu estava na prefeitura e houve problema com a estação rodoviária. Eu tive contato com o Caldeira e, depois, com o Frias. Eu não me lembro de o Frias ter ido à prefeitura. Eu é que fui lá. Nessa ocasião, a rodoviária era um problema grave para eles (os sócios Frias e Caldeira) e eu tinha tomado a decisão de construir a nova rodoviária, essa que aí está, e aquilo gerou um certo mal-estar. Mas passou e não deixou seqüelas”.

De sua passagem na Prefeitura de São Paulo, durante os anos da ditadura, Setubal conta que “a única coisa que os militares deixavam fazer era política municipal. Então, os jornais tinham o prefeito como alvo preferido. Basta dizer que, no primeiro dia em que, após tomar posse, eu saí com o meu secretário de Vias Públicas, que era o Otávio Pereira de Almeida, havia 20 carros de imprensa na porta da minha casa. Naquele tempo, quando o prefeito saía de manhã, iam muitos jornalistas atrás. A única coisa possível para a imprensa era meter o pau no prefeito. Desse primeiro dia, uma coisa que lembro muito é que eu estava andando com o Otávio e fomos em direção a onde é o jornal ‘O Estado de S. Paulo’. De repente, nós entramos num lugar e foi uma lição para o prefeito urbano, que era eu. Eu vi uma correria e perguntei: ‘O que é isso?’ e me responderam: ‘Ah, é porque estão matando um porco e eles pensam que é a prefeitura que vem apreender’. Então, eu fiquei sabendo que na periferia de São Paulo se matava porco na rua e se dividia a carne entre as pessoas. Foi a minha primeira lição da realidade da periferia”.

A grande capacidade de comunicação pessoal é uma das características que Setubal mais admira em Frias. “Ele sempre foi uma pessoa afável. Pelo menos comigo. A vida inteira nós tivemos um convívio muito cordial. Agora, ele como personalidade, ter pego a Folha em uma situação muito difícil, atravessar todas as crises do século 20 e chegar ao século 21 com a Folha em uma situação excelente prova que ele é um grande jornalista. Eu não acompanhei em detalhes, quando ele comprou a Folha. Se alguém me perguntar os detalhes das fusões do Itaú, eu direi, mas outras coisas, não. Naquele tempo, eu trabalhava 12 horas por dia no banco e não olhava para mais nada”.

Em suas lembranças, Setubal não registra nenhum conflito entre o banco e a Folha. “Aliás, nem com a imprensa em geral. Houve as linhas usuais de meter o pau nos bancos, mas isso passa despercebido, porque é muito genérico. Eu não tive incidentes nem convívio pessoal com o Frias, mas fui muitas vezes à Folha para almoçar com ele e com a Redação. Eram almoços muito agradáveis, com jornalistas fazendo debate de algum assunto, em ‘off’. O Clóvis Rossi sempre tinha uma posição contestadora. Mas tudo isso já está aí para trás. Recentemente, o Frias teve problemas de saúde e eu também. Então, não tivemos muito convívio”.

Frias chegou a convidar Setubal para colaborar com a Folha, mas ele recusou o convite por alegar escrever mal e não gostar de escrever. “Escrevi apenas alguns artigos sobre política externa, há muitos anos, antes de ser ministro.”

Embora diga que não é bom para dar entrevistas e que a sua memória falha, Setubal é um leitor voraz. “Leio O Estado, a Folha e O Globo em casa. Pego só o primeiro e o segundo cadernos. O resto, eu descarto. Aliás, na Folha, não é o segundo caderno. É o caderno Dinheiro e o primeiro caderno. Depois, eu venho para cá (escritório do Itaú) e leio o Valor Econômico, o Financial Times, que eu acho o melhor jornal do mundo, e revistas. Bom, a Folha é do contra. Desde o tempo do Fernando Henrique (Cardoso), acho que até antes. A Folha tornou-se claramente um jornal contestador do status quo. Porque, como O Estado de S. Paulo representa o status quo, a Folha representa o oposto. Por isso, a gente tem que ler O Estado e a Folha”.