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O Papa no Brasil

13/05/2007 - 21h00

Papa critica ideologias, seitas e machismo em discurso a bispos

Rodrigo Bertolotto
Enviado especial do UOL
Em Aparecida (SP)
No último dia de sua visita ao Brasil, o papa Bento 16 abriu a 5ª Celam (Conferência Episcopal da América Latina e Caribe) criticando capitalismo, comunismo, globalização e outras idéias modernas, em uma tentativa de afastar a discussão ideológica da reunião em Aparecida que determinará o futuro do catolicismo na região que concentra metade do 1,1 bilhão de seguidores do Vaticano.

Bento 16 também voltou a criticar as seitas, disse que o catolicismo não foi imposto aos índios americanos e falou contra o "machismo" característico da América Latina.

No mais importante pronunciamento no Brasil, de onde decolou às 20h55 deste domingo, ele demonstrou, falando em espanhol, que deseja que as discussões que os bispos manterão até o dia 31 de maio se concentrem em temas religiosos.

EFE
Papa Bento 16, durante a missa realizada na manhã deste domingo em Aparecida
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"A realidade são só os bens materiais, os problemas sociais, econômicos e políticos? Aqui está precisamente o grande erro das tendências dominantes no último século, erro destrutivo, como demonstram os resultados tanto dos sistemas marxistas como também dos capitalistas. Falsificam o conceito de realidade com a amputação da realidade fundamental e, por isso decisiva, que é Deus", sentenciou o pontífice, que embarca ainda neste domingo a Roma, mostrando seu ponto de vista.

O recado tem um alvo específico: os seguidores da Teologia da Libertação, ala forte na América Latina e que critica a visão meramente mística do catolicismo europeu, do qual Joseph Ratzinger, o atual papa, é seu mais conhecido defensor (ele próprio, como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, silenciou vários freis e padres teólogos da Libertação).

Disputas políticas marcaram a definição dos participantes brasileiros da 5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe.

Os principais problemas na hora de fechar a relação das 266 pessoas que participam da Assembléia de Aparecida - entre 162 membros, 81 convidados, oito observadores e 15 peritos (teólogos e sociólogos) -, foi a opção da Cúria Romana em não levar em consideração nomes escolhidos pela representação de leigos e de diáconos.
ESCOLHA DOS PARTICIPANTES
DO ENCONTRO FOI POLÍTICA
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No pronunciamento, Bento 16 fez alusão indireta ao atual avanço da esquerda na América Latina, que tem como cabeça mais visível o presidente venezuelano, Hugo Chávez.

"Na América Latina e no Caribe, como em outras regiões, se avançou para a democracia, ainda que há motivos de preocupação diante das formas de governo autoritárias ou sujeitas a certas ideologias que se acreditava estarem superadas, e que não correspondem com a visão cristã do homem e da sociedade, como nos ensina a doutrina social da Igreja", afirmou. Mas também alfinetou o capitalismo da região. Para ele, "a economia liberal de alguns países latino-americanos" segue aumentando "uma enorme pobreza e os espoliados dos próprios bens naturais".

Como seu antecessor (o polonês João Paulo 2º era profundamente anticomunista), Bento 16, que foi o mentor teológico do papa anterior, não aprecia a mistura de cristianismo e marxismo da Teologia da Libertação, mas, por outro lado, também procura balancear, alvejando a modernidade ocidental.

CONFERÊNCIAS EPISCOPAIS ANTERIORES NA A. LATINA
Rio de Janeiro (BRA) - 1955
Serviu para apontar a necessidade de articulação dos bispos na região, o que gerou o Conselho Episcopal Latino-americano (Celam). O clima era de embate da Igreja Católica contra aquilo que ela entendia serem seus inimigos, como comunismo, protestantismo e espiritismo.
Medellín (COL) - 1968
Na opinião do professor do Departamento de Teologia da PUC-SP Wagner Lopes Sanchez, foi a mais progressista e profética das conferências. Marca o momento de desenvolvimento da Teologia da Libertação e aponta para uma releitura do Concílio Vaticano 2º a partir dos desafios da América Latina. Contou com a presença do papa Paulo 6º, na única viagem que fez à América Latina.
Puebla (MEX) - 1979
Período de neoconservadorismo ou de restauração da Igreja. As duas decisões mais importantes da conferência foram a declaração de preferência da Igreja pelos pobres e pelos jovens. Presente, João Paulo 2º. Apesar do debate sobre Teologia da Libertação, o papa frisou em seu discurso que a conferência se tratava de pastores, não de políticos, e que estes deviam ser orientados pelo Evangelho, e não por ideologias ou política.
Santo Domingo (DOM) - 1992
Contou com presença inaugural de João Paulo 2º, que já havia conseguido nomear muitos bispos na região identificados com o novo perfil conservador do Vaticano. A Teologia da Libertação, corrente teológica disseminada na década anterior pela América Latina, passa por pressão e dificuldades. Assume questão da inculturação --diálogo para se aproximar das culturas onde a Igreja está inserida, sem impor colonialismo, e afirma importância dos leigos dentro da Igreja.
Fonte: Reuters
"Tanto o capitalismo como o marxismo prometeram encontrar o caminho para a criação de estruturas justas e afirmaram que estas, uma vez estabelecidas, funcionariam por si mesmas", discursou. "E essa promessa ideológica se demonstrou falsa. Os feitos colocam isso em evidência. O sistema marxista, onde governou, não só deixou uma triste herança de destruições econômicas e ecológicas, como também uma dolorosa destruição do espírito. E o mesmo vemos também no Ocidente, onde cresce constantemente a distância entre pobres e ricos e se produz uma inquietante degradação da dignidade pessoal com a droga, o álcool e sutis miragens de felicidade", completou.

Ele também alvejou os processos tecnológicos, vendo pontos positivos e negativos. "No mundo de hoje acontece o fenômeno da globalização como uma rede de relações em nível planetário. Ainda que em certos aspectos é uma conquista para a grande família humana e um sinal de profunda inspiração de unidade, por outro lado, comporta também o risco dos grandes monopólios e de converter o lucro em valor supremo", afirmou.

Mesmo com estocadas para todos os lados, o papa renegou o que muitos acreditam que a Igreja irá se transformar: um partido político. "Se a Igreja começar a transformar-se diretamente em seu sujeito político, não faria mais pelos pobres e pela justiça. Faria menos, porque perderia sua independência e sua autoridade moral, identificando-se com uma única via política e com posições parciais", apontou, em outro recado para os adeptos da Teologia da Libertação. Bento 16 apontou o papel da igreja como "advogada da Justiça e dos pobres".

Desde a 2ª Celam, em Medellin no ano de 1968, os teólogos progressistas têm grande influência no catolicismo latino-americano, mas a situação começou a mudar no papado de João Paulo 2º, que nomeou muitos bispos conservadores para a região. Na 4ª Celam, em Santo Domingo no ano de 1992, já se sentia o maior contraponto da linha mais ética e menos social da Igreja. A insistência de Bento 16 em uma pauta moral no Brasil (como aborto, eutanásia, divórcio, castidade, anticoncepcionais, etc.) mostra qual é a ênfase do atual papa.

Para ele, só a fé une ("A fé nos libera do isolamento do eu, porque nos leva à comunhão"), e a justiça social depende de valores morais ("As estruturas justas não nascem nem funcionam sem um consenso moral da sociedade"). Quando ele fala em "Cristo, nosso único Mestre e Salvador", o pontífice quer dizer que não misturem a Bíblia com textos fora da tradição religiosa.

Além das ideologias, Bento 16 apontou como responsáveis de "um certo enfraquecimento da vida cristã" vários fatores como "o secularismo, o hedonismo, o relativismo e o proselitismo das numerosas seitas, de religiões animistas e novas expressões pseudo-religiosas." O papa não economiza palavras quando ao referir às igrejas evangélicas que crescem no Brasil e na América Latina "uma das razões de a conferência episcopal acontecer em Aparecida".

O papa criticou até o machismo típico da região, chamando-o de "a desgraça da mentalidade machista" - apesar de analistas apontarem a própria Igreja, com o celibato e a proibição de mulheres oficiarem missa, como um dos fatores para essa característica.

Bento 16, com sua receita para reforçar o catolicismo (falou até na importância da missa dominical) tenta influenciar a discussão que acontecerá quando ele já estiver de volta à Roma, depois de uma passagem fervorosa pelo Brasil (ele se surpreendeu com a receptividade local), mas que em termos numéricos ficou abaixo das expectativas da Igreja (suas missas no Campo de Marte e em Aparecida reuniram menos público do que o esperado). A conferir se sua presença no Brasil irá influenciar mais os 266 religiosos na Conferência Episcopal ou os milhões de fiéis da região.

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A visita do representante de Jesus Cristo ao nosso país não poderia ter vindo em melhor hora. Felizmente ele trouxe para nós brasileiros cinco dias de inúmeras bênçãos, das quais estamos muito necessitados. Já fazia algum tempo que nos noticiários não se escutavam mais notícias boas, somente morte e violência...Nós brasileiros temos que a cada dia mais termos orgulho de ter nascido nessa pátria tão querida, ainda mais agora que com essa tão ilustre visita que nos agraciou com um santo originalmente brasileiro....Que Santo Antonio de Sant'Anna Galvão rogue por nós!!!!Marco Antonio Vieira - Ponta Porã/MS

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