UOL Notícias Internacional
 

04/03/2009 - 20h30

"Vi tanta pobreza que mudei meu conceito de vida", diz brasileiro que morou no Sudão

Thiago Varella
Do UOL Notícias
Em São Paulo
"Vi tanta pobreza que mudei meu conceito de vida. Passei a ser outra pessoa com as coisas que eu vi. No interior você vê a miséria absoluta. Falta saneamento básico, água potável, tudo." Assim o brasileiro Heron Ferreira relembra do Sudão, país em que morou por cinco anos e que é marcado pela guerra entre rebeldes de Darfur e o governo do presidente Omar Hassan al Bashir - o mesmo contra quem o Tribunal Penal Internacional (TPI) expediu nesta quarta um pedido de detenção

  • Alexandre Julião/Arquivo pessoal

    Torcida lota estádio do Al-Hilal para assistir a partida da equipe

  • Alexandre Julião/Arquivo pessoal

    Sem escada apropriada para o avião, passageiros improvisam para a descida após voo

Técnico de futebol, Ferreira foi tricampeão nacional pelo Al-Hilal, time da capital, Cartum. Além de cuidar da parte tática e técnica do Al-Hilal, Ferreira tinha de se preocupar com o aspecto psicológico dos jogadores. Apesar de morarem em Cartum, uma cidade relativamente mais segura que Darfur, coração do conflito, os jogadores da equipe se preocupavam com a situação de suas famílias.

Após esta experiência de três anos à frente do mais popular time de futebol do país, Ferreira fala do Sudão com o mesmo carinho com que se refere ao Brasil.

Alexandre Julião, outro brasileiro ligado ao futebol e que morou no Sudão, guarda outras lembranças do país: "é preciso ser louco para morar no Sudão", diz Julião, que em 2005 morou nove meses no Sudão.

Ao lado de Ferreira, Julião trabalhou no Al-Hilal. No curto período em que esteve no país, o brasileiro viveu as contradições típicas de um país em guerra. Ele deixou o Sudão devido à má qualidade de vida que encontrou lá.

Ao contrário do Brasil, o Sudão é um lugar sem roubos ou assaltos, na descrição de Julião. "Você pode contar dinheiro na rua que ninguém vai te roubar", conta. O povo, desta vez como no Brasil, é alegre e fanático por futebol.

Entretanto, o país sofre com situações extremas de pobreza. Os exemplos são diversos. "Nas ruas, as pessoas colocam água em recipientes de barro para que os pedestres possam matar a sede. A água é imunda, com cor de terra. Os locais são cheios de mosca e sujeira", diz.

ONDE FICA

  • Mapas UOL

    Localização de Cartum, capital sudanesa

Além disso, o custo de vida é alto. Poucas pessoas têm condições de fazer compras no supermercado, onde um quilo de frango chega a custar R$ 17.

"Achei que iria morrer"
O pior momento vivido por Julião e Ferreira foi em 2005, quando o vice-presidente do Sudão e ex-líder rebelde, John Garang, morreu em um acidente aéreo. O óbito gerou uma onda de conflitos que resultou na morte de ao menos 130 pessoas nas ruas de Cartum .

"Acompanhava o caso da janela de casa. Vi carros correndo nas ruas e pessoas andando com porretes na mão", conta Ferreira.

Apesar da orientação quase proibitiva de ficarem trancados em casa, Julião arriscou uma ida até o supermercado. "Passei muito medo. Vi muita destruição. Um carro da polícia me parou e achei que iria morrer. Ouvia muitas histórias de assassinatos nas ruas, e cheguei a pensar que o policial iria atirar sem ao menos perguntar quem eu era", diz.

REPÚBLICA DO SUDÃO

Nome oficial: República do Sudão
Localização: África saheliana
Nacionalidade: sudanesa
Capital: Cartum
Divisão: 25 Estados
Línguas: árabe e inglês (oficiais)
População: 40, 2 milhões de habitantes
Religião: islâmica (sunitas), minorias animistas e cristã
Moeda: libra sudanesa
Natureza do Estado: república militar islâmica
Expectativa de vida: 50,2 anos
Presidente "querido"
Ferreira procura não se envolver em política. Questionado sobre o caso do presidente Al Bashir, condenado nesta quarta-feira pelo Tribunal Penal Internacional de Haia por crimes que guerra , o brasileiro se absteve. "Não lia árabe, não acompanhava muito bem a política", diz.

Entretanto, o treinador afirma que o povo de Cartum admira muito o presidente. "Acho que a condenação no tribunal vai gerar uma grande onda de protestos na capital. Ele é muito querido por lá."

Se Julião preferiu regressar ao Brasil por causa das condições precárias do Sudão, Ferreira diz que voltaria ao país para trabalhar. "Voltaria tranquilamente. Para mim o Sudão é minha casa."

Hoje no Egito, o técnico tem profunda admiração pelo povo sudanês. "O povo é extramente alegre e brincalhão. Recebia centenas de abraços na rua. Resgatei o amor próprio do sudanês, por causa do futebol", afirma.

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