UOL Notícias Internacional
 

25/04/2009 - 07h00

Massacre da praça da Paz Celestial manteve a estabilidade da China, diz especialista

Edilson Saçashima
Do UOL Notícias
Em São Paulo
O massacre da praça da Paz Celestial, na China, que completa 20 anos agora, continua uma ferida não cicatrizada na história do país. A repressão aos manifestantes, a maioria estudantes que reivindicavam maior abertura política, deixou um saldo de mortos e feridos que permanece indefinido. O Partido Comunista chinês jamais divulgou um balanço sobre o número de vítimas, mas acredita-se que a contagem ultrapasse as centenas. Os livros escolares não mencionam o evento, considerado pelo governo uma "rebelião contra-revolucionária". Duas décadas depois, uma avaliação pode ser feita. Segundo especialista entrevistado pelo UOL Notícias, o episódio contribuiu para a manutenção da estabilidade do país.

Para Alexandre Uehara, professor de relações internacionais e membro do Gacint (Grupo de Análise da Conjuntura Internacional da Universidade de São Paulo), havia na época a preocupação de que o governo chinês pudesse perder o controle do país. "Apesar de muito criticado, a repressão permitiu a continuidade da estabilidade", diz.

A situação não mudou muito nesses 20 anos, diz ele. "Lembre-se dos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, quando a restrição à liberdade foi muito grande", diz Uehara. Segundo a ONG Human Rights Watch, no início das competições, cerca de 130 pessoas supostamente envolvidas com os protestos da praça da Paz Celestial estavam presas ou aguardavam julgamento.

Para Uehara, apesar do discurso por maior liberdade, os países parceiros da China têm a preocupação de que o controle permaneça. "Do ponto de vista político-social, afrouxar o controle poderia aumentar o fluxo de refugiados chineses, o que seria um problema aos países vizinhos, tendo em vista o tamanho da população chinesa. Em relação ao aspecto econômico, manter o controle pode ser favorável sob o ponto de vista comercial. Além disso, a China caminha para ser a segunda economia mundial e pode exercer o papel de financiadora internacional", afirma.

CRONOLOGIA

15 de abril Morre o líder reformista Hu Yaobang
22 de abril Durante o funeral
de Hu Yaobang, manifestantes
pedem reformas
13 de maio Início da greve de
fome dos estudantes
15 de maio Visita do presidente da União Soviética, Mikhail Gorbachev, a China
20 de maio Governo decreta
lei marcial
4 de junho Forças de segurança invadem a praça
5 de junho Manifestante solitário para diante de comboio de tanques em imagem que ganha o mundo
Efeito bola de neve
De certa forma, o desfecho dos protestos chineses foi o contraponto para uma época marcada pela derrocada dos países comunistas. Foi em 1989, alguns meses após as manifestações em Tiananmen (palavra chinesa que significa "paz celestial"), que o Muro de Berlim veio abaixo, marcando o fim de uma era.

A queda do muro foi consequência da política de distensão implementada pelo então presidente da extinta União Soviética, Mikhail Gorbachev. O dirigente soviético também inspirou os intelectuais e estudantes que deflagraram os protestos na China e que desejavam maior abertura política no país.

O estopim dos protestos foi a morte de Hu Yaobang, ex-secretário geral do Partido Comunista chinês. Considerado um liberal reformista, ele foi expulso do governo por Deng Xiaoping em 1987, o que na época provocou protestos estudantis.

Em 15 de abril de 1989, Yaobang morreu após sofrer um ataque cardíaco durante uma reunião do Politburo. Logo que foi anunciada a sua morte, estudantes da Universidade de Pequim começaram a reclamar a reabilitação da visão oficial de Hu Yaobang.

Na semana seguinte, durante o funeral de Yaobang, um grupo de estudantes se reuniu na praça da Paz Celestial e reivindicou um encontro com o primeiro-ministro Li Peng, conhecido por ser o adversário político de Yaobang. O pedido foi negado. Então, os estudantes incitaram uma greve nas universidades de Pequim.

No princípio, as manifestações reuniam 500 pessoas. Em 29 de abril, três dias após o jornal "Diário do Povo" acusar os estudantes de causar tumultos, os protestos contavam com cerca de 50 mil pessoas nas ruas de Pequim. Algumas estimativas indicam que no auge dos protestos a praça da Paz Celestial chegou a reunir um milhão de manifestantes.

O CENÁRIO DO MASSACRE

Tiananmen é a maior praça urbana aberta do mundo, com cerca de 405 mil metros quadrados de área
A praça foi originalmente construída em 1651, mas a sua extensão atual e a sua pavimentação são de 1958
Mao Tsé-tung proclamou a República Popular da China, em 1º de outubro de 1949, nesta praça
A praça não possui árvores nem bancos


Um homem enfrenta os tanques
Em 13 de maio, os estudantes na praça da Paz Celestial iniciaram uma greve de fome. Dois dias depois, Gorbachev visitava a China, marcando a distensão das relações entre a China e a União Soviética. Mas a tensão em Pequim permaneceu. Em 20 de maio, o governo decretou lei marcial, sem surtir efeito.

A greve de fome completava a terceira semana quando os líderes do governo decidiram adotar a força para encerrar a crise. Forças de segurança foram deslocadas para Pequim. Manifestantes tentaram conter o avanço com barricadas, mas de nada adiantou. Em 4 de junho, as forças de segurança invadiram a praça com tanques.

Manifestantes desarmados entraram em confronto contra os soldados, que responderam com tiros. O caos se espalhou pelas ruas ao redor da praça. Relatos divulgados ao longo desses anos desenham um cenário de caos. Moradores de edifícios vizinhos eram alvejados diante da janela. Feridos eram levados aos hospitais por condutores de riquixás. Em algumas horas, a crise se encerrava e deixava um cenário de campo de batalha. As estimativas sobre mortes variam entre 300 a 4.000.

Foi no dia seguinte, 5 de junho, que o protesto produziu a imagem que se tornou um ícone das manifestações. Uma coluna de tanques segue pela avenida após o fim da crise. Um manifestante solitário para diante dos tanques e interrompe o avanço do comboio. O homem desafia o Exército por alguns minutos, até ser expulso do local. Ao longo dos anos houve especulações sobre a sua real identidade. Seu paradeiro continua um mistério.

Veja o vídeo do manifestante que parou os tanques na praça da Paz Celestial

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