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17/11/2005 - 10h47
Cem anos de história do café "A Brasileira" em Lisboa

Por Helena Neves, da agência Lusa.

Lisboa, 17 Nov (Lusa) - O emblemático café A Brasileira, antigo ponto de encontro de pensadores e artistas e onde nasceu o termo "bica", comemora sábado o primeiro centenário e está a preparar um livro onde conta episódios da sua história.

A 19 de Novembro de 1905, A Brasileira abria as suas portas na Rua Garrett, no Chiado, pondo à venda o "genuíno café do Brasil".

Nesse dia, quem levasse um quilo - pela quantia de 720 reis - tinha direito a beber uma chávena de café de graça.

Três anos depois, A Brasileira, fundada por Adriano Telles, regressado do Brasil, começou a vender café à chávena e a afluência do público era crescente, o que levou à realização de obras de remodelação que deram uma nova cara ao estabelecimento, decorado com mobiliário de carvalho em estilo Renascença, talhas douradas e espelhos nas paredes.

As obras deram um novo aspecto ao café que se tornou num "elegante e luxuoso salão" e o Chiado passou a contar com um estabelecimento moderno e com todas as características próprias de um café, segundo um trecho do livro que será editado até ao final do ano, conforme diz à agência Lusa o actual proprietário, Jaime Soares da Silva.

Atento às necessidades e aos reparos de uma clientela que se fidelizava na tradição das tertúlias, Adriano Telles tentava adaptar a decoração do seu café aos "tempos modernos", acatando novos conceitos estéticos.

Assim, os trabalhos de remodelação começaram de novo em 1923 e Norberto de Araújo, jornalista e famoso olisipógrafo, lançou a ideia de se substituir as telas "pelintras" por obras representativas da "última escola" de pintores modernistas como Almada Negreiros.

Jaime Silva, que comanda os destinos do café desde a década de 1980, conta à Lusa que o termo "bica" para designar café nasceu no início do século XX n'A Brasileira.

"Um dia, os clientes estavam a queixar-se que o café não estava saboroso como habitualmente, o que levou à intervenção de Adriano Telles", diz Jaime Silva.

Tendo ouvido comentar que o café naquele dia não estava muito bom, o dono do café virou-se para o empregado de mesa e disse-lhe para trazer uma "bica", uma cena presenciada pela clientela composta por escritores, artistas e políticos.

"Com isto queria dizer chávena de café tirada directamente do saco e não da cafeteira, onde ia perdendo gosto e aroma", explica o proprietário do café.

A Brasileira deveu ainda muito do seu encanto aos funcionários que serviam às mesas: o mais conhecido era "João Franco", um galego que tinha conquistado aquela alcunha devido às suas parecenças físicas com o político da monarquia portuguesa.

Jaime Silva lamenta que os empregados actuais já não estejam ligados à história do café: "tenho 30 empregados de várias nacionalidades" que pouco conhecem do historial d'A Brasileira.

Para corresponder à afluência de clientes, A Brasileira começou a encerrar há 15 anos atrás às 02:00, o que actualmente, segundo o proprietário, já não se justifica devido à insegurança e à falta de policiamento no Chiado.

O responsável conta ainda que o estabelecimento tem alguns problemas com o uso abusivo das casas de banho por pessoas que não são clientes do café.

"Ao domingo até fazem fila", contou Jaime Silva, apontando como motivos para esta situação o facto de ser o único estabelecimento aberto ao domingo no Chiado e ao Metropolitano ter as casas de banho fechadas.

Esta situação já levou o café a pagar cerca de 20.000 euros em multas à autarquia devido a queixas apresentadas pelos clientes.

Apesar destes problemas, o proprietário quer manter a imagem emblemática do café, onde ressalta no seu interior um balcão que percorre todo o corredor do estabelecimento e as mesas com tampo de mármore onde pensadores, artistas e jornalistas se reuniam em tertúlias e Almada Negreiros leu o "Manifesto Anti-Dantas".

As paredes estão decoradas com diversas obras de pintores como Manuel Baptista, Hogan, Azevedo, Vespeira, Rodrigo, Eduardo Nery, João Vieira, Palolo e Noronha da Costa, que substituíram outros de uma outra geração entre os quais se distinguiram Almada Negreiros, Eduardo Viana, Bernardo Marques e Stuart Carvalhais.

Na esplanada do café, encontra-se uma estátua em bronze do poeta Fernando Pessoa sentado à mesa bebendo café, da autoria do mestre Lagoa Henriques.

Um dos percursos habituais do poeta era entre a sua casa e o Largo do Chiado, rumo ao local de encontro habitual de poetas e pensadores portugueses.

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