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30/12/2009 - 15h50

Invasão da URSS ao Afeganistão foi defensiva, diz arquivo

Por Carlos Santos Pereira, da Agência Lusa

Lisboa, 30 dez (Lusa) - Revelações dos arquivos da guerra fria e as próprias questões levantadas pelo atual impasse no Afeganistão estão forçando uma revisão das condições e do alcance da intervenção soviética no país nos anos 80.

As tropas soviéticas entraram no Afeganistão em 24 de dezembro de 1979, em uma ação denunciada pela Administração de Jimmy Carter, nos Estados Unidos, como "a maior ameaça à paz desde a Segunda Guerra" e uma manifestação intolerável do expansionismo soviético.

A intervenção soviética originou uma forte reação do Ocidente, precipitando o fim da détente e uma fase de grande tensão nas relações Leste-Oeste que levaria à "segunda guerra fria", da era Ronald Reagan.

Nove anos mais tarde, em 15 de fevereiro de 1989, o exército Vermelho deixou o Afeganistão, derrotado e humilhado, com 13 mil baixas no terreno.

Esta é, de maneira geral, a versão consagrada nas memórias políticas e midiáticas. Testemunhos recentes e a abertura dos arquivos da guerra fria estão, no entanto, dando uma visão menos linear da intervenção soviética no Afeganistão.

No entanto, atualmente se sabe que o Kremlin resistiu durante meses aos sucessivos apelos lançados pelas autoridades comunistas afegãs ao longo de 1979, pedindo apoio militar para conter a insurreição lançada pelos mujahidins um ano antes.

A decisão de intervir teria sido motivada não por ambições sobre os mares quentes do Sul ou o petróleo do Golfo, e sim por receios sobre a força de um aliado de grande importância estratégica para o flanco Sul da União Soviética.

CIA e guerrilha islâmica

Em autobiografia publicada em 1996 ("From the Shadows"), o atual secretário norte-americano da Defesa, Robert Gates, revela que a CIA (agência de inteligência dos Estados Unidos) começou a financiar e armar a guerrilha islâmica meses antes da intervenção soviética.

Zbigniew Brzezinski, na época secretário de Estado de Jimmy Carter, reconheceu recentemente que o apoio fazia parte de uma "armadilha" para arrastar os soviéticos para o Afeganistão, onde teriam "o seu Vietnã".

Os alertas do KGB e o alarme da direção soviética sobre o que viam como uma ação crescente dos norte-americanos no Afeganistão foram intensificados pela progressiva deterioração das relações com os EUA no final dos anos 70, mas muitos analistas tendem a avaliar a intervenção soviética mais como um reflexo defensivo do que como uma manobra expansionista.

Já a retirada soviética, nove anos depois, foi mais do que de um colapso militar iminente e se configurou como um processo político marcado pela Perestroika e pelas mudanças na política externa introduzidas por Mikhail Gorbachev.

Na verdade, a situação no Afeganistão nas vésperas de decisão russa de deixar o país era mais de impasse militar e político do que uma derrota militar pura e simples. Apesar das baixas sofridas, o Exército Vermelho ainda conseguia controlar os centros urbanos e as vias de comunicação e mantinha a pressão sobre as bases mujahidins.

Por outro lado, os militares no terreno nunca foram suficientes para garantir o controle das áreas retiradas do domínio dos insurgentes. Um problema que, preservadas as distâncias, também é registrado atualmente pelas forças dos Estados Unidos e da Otan no Afeganistão.

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