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Atentados do PCC paralisam maior cidade do país

Diego Padgurschi/Folha Imagem

Em meio a moradores, policial dá cobertura a colegas durante ação no Jardim Elba (zona leste de São Paulo)

Marcelo Gutierres

Em São Paulo

Sexta-feira, 12 de maio: anoiteceu em São Paulo. E iniciava-se a maior onda de violência já promovida no Estado por uma facção criminosa, o PCC (Primeiro Comando da Capital), conhecido entre os detentos como o "Partido". Em oito dias, o governo contou 373 ataques. Oficialmente, 154 pessoas morreram, sendo 24 PMs, 11 policiais civis, nove agentes penitenciários, 110 cidadãos - 79 deles suspeitos de ligação com o PCC.

Tratava-se de uma resposta da facção a uma tentativa da polícia de isolar seus principais líderes em presídios de segurança máxima no interior do Estado, num total de 765 presos removidos. Na mesma sexta-feira, oito detentos - apontados com o núcleo da facção - foram levados à sede do Deic (Departamento de Investigações sobre Crime Organizado), na capital paulista.

Já na sexta-feira, em todo o Estado ocorreram rebeliões em 24 unidades. Internos da Febem também se rebelam. Articulados, homens abriram fogo contra bases da Polícia Militar, da Guarda Civil Metropolitana, viaturas, delegacias, Grande São Paulo e interior. Ocorreram ataques também a endereços comerciais, agências bancárias, estações de Metrô e ônibus, incendiados pelo Estado. Outras duas séries aconteceriam em julho e agosto, ambas com menor intensidade em relação a maio.

Durantes as ações, a população de São Paulo viu o comércio baixar as portas, escolas e universidades cancelarem aulas, expediente encerrado mais cedo, shoppings fechados. O comércio registrou queda nas vendas de 90%. A pressa do paulistano ganhou outros contornos. Havia ansiedade de chegar em casa. A vida noturna da capital deixou de existir. Tradicionalmente congestionadas, as principais vias da cidade ficaram intransitáveis intransitáveis bem antes do horário do "rush". Pessoas espremiam-se ainda mais no metrô e em ônibus, outros alvos da facção. São Paulo parou... Nas manchetes da imprensa internacional.

Pego de surpresa, o poder público negou a desarticulação. Cláudio Lembo (PFL), que recebeu em março o governo paulista de Geraldo Alckmin - candidato do PSDB derrotado na corrida presidencial -, e o comandante-geral da PM, coronel Elizeu Eclair Teixeira Borges, afirmavam que as tropas haviam sido avisadas antecipadamente sobre a possibilidade dos ataques. Membros das corporações informavam não ter recebido comunicado algum.

Os ataques arrefeceram depois de uma ordem de Marcola, no dia 15, quando ocorriam 82 rebeliões, sendo 73 em presídios e nove em cadeias. A grande maioria das rebeliões encerrou-se quase que simultaneamente a partir das 16h. Os ataques foram diminuindo rapidamente até o dia 20. O governo negou que tenha negociado com os criminosos.

"Guerra aberta"
O coronel Elizeu Eclair Teixeira Borges, declarou que São Paulo estava em "guerra" contra o crime organizado. A reação policial alcançou índices classificados por analistas como "anormais". Foram presas mais de 80 pessoas. Segundo o comandante-geral da PM, entre os dias 12 e 20 de maio, as forças públicas mataram 110 pessoas: 79 suspeitos de pertencerem ao PCC e outras 31 pessoas por resistência à prisão, mas sem vínculo com a facção.

Porém, no mesmo período, 349 pessoas foram mortas por arma de fogo no Estado sem ter ligação alguma com os atentados do PCC, segundo laudos necroscópicos dos 23 IMLs (Institutos Médicos Legais) paulistas. Entidades acusaram a execução de inocentes por parte da PM. Os documentos chegaram a ser retidos pelo governo, a mando do então secretário da Segurança Pública do Estado de São Paulo, Saulo de Castro Abreu Filho, que negou a medida.

Principal alvo da facção, a Polícia Militar registrou aumento de morte de policiais na comparação dos dois períodos. Agentes foram mortos em horário de folga, na porta de casa, durante o trajeto para o trabalho. A morte do bombeiro João Alberto da Costa, em 13 de maio, chocou o Brasil. No primeiro semestre de 2005, foram nove mortes, contra 19 nos seis primeiros meses de 2006 - um aumento de cerca de 111%. Também na mira do PCC, entretanto, a Polícia Civil viu seu índice de morte manter-se estável quando comparado nesses dois semestres: dois agentes em cada período.

Novas ondas
São Paulo viveu mais duas outras ondas de ataques atribuídos ao PCC: uma em julho, outra em agosto. O principal alvo das ações de 11 a 14 de julho foram os ônibus, incendiados ou alvejados em todo o Estado. Prédios públicos e particulares, bancos e lojas também sofreram ataques. Oito agentes de segurança morreram no período. Em novembro, a Assembléia paulista aprovou indenizações a familiares dos agentes das forças de segurança mortos nos ataques.

A terceira investida deu-se entre 7 e 9 de agosto, num total de 205 ataques. O uso de bombas caseiras predominou, sobretudo contra prédio públicos, como o do Ministério Público e o da Secretária Estadual da Justiça. No mesmo mês, a facção seqüestrou o repórter da TV Globo Guilherme Portanova, 30, e o técnico Alexandre Coelho Calado, 27, perto da sede da emissora em São Paulo na zona sul da capital na manhã do dia 12 de agosto.

Calado foi libertado na noite do mesmo dia. Portanova continuou cativo até a madrugada do dia 14, quando a emissora exibiu um vídeo produzido por membros do PCC com relatos de supostas ilegalidades no sistema no RDD (Regime Disciplinar Diferenciado), o mais temido pelos presos devido ao seu rigor.
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