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 Internacional

09/08/2004 - 09h09
Vida de mendigo que inspirou Spielberg não muda com a fama

Por Kerstin Gehmlich

PARIS (Reuters) - Alfred Merhan vive discretamente, há 16 anos, em um banco no aeroporto Charles de Gaulle, de Paris. Ao seu lado estão seus poucos pertences, guardados em sacolas e caixas.

A presença de Merhan debaixo das luzes de néon da praça de alimentação do aeroporto serviu de inspiração para o novo filme de Spielberg, "The Terminal", estrelado por Tom Hanks no papel de um cidadão do leste europeu que vive durante meses no aeroporto de Nova York.

Merhan, que nasceu no Irã e cujo nome real é Merhan Karimi Nasseri, diz não ter visto esse filme -- nem outro filme de Spielberg -- já que não há cinema no aeroporto.

Mas, desde que "The Terminal" estreou nos Estados Unidos, em junho, Merham conta como os jornalistas fazem fila para conhecê-lo, os passageiros param para tirar fotos dele e fãs lhe mandam cartas -- endereçadas para "Alfred, no Terminal 1".

"Eu posso ser famoso, mas a minha vida não mudou nada. Eu continuo sentado aqui e não morando em um bom apartamento", disse.

Merhan conta que recebeu mais de 300.000 dólares da DreamWorks, produtora de Spielberg, pelos direitos de sua história, mas afirma que não tocou na maior parte do dinheiro. Ele vive com poucos euros ao dia, que gasta comprando jornais, comida e café.

Merhan, que diz ter 59 anos, não parece um mendigo. Seu bigode é impecavelmente aparado, e seu cabelo negro, cuidadosamente penteado. Embora 16 anos vivendo no aeroporto não o tenham deixado doente fisicamente, seu médico disse que ele perdeu um pouco a noção da realidade.

"O que mais me assombra é que, em todos estes anos que conheço Alfred, nunca conheci alguém que o conhecesse antes de ele chegar aqui. Então, só posso confiar nele para conhecer sua história", disse Philippe Bargain, chefe do centro médico do aeroporto, que trata de Merhan desde 1988.

E sua história muda constantemente. Em poucas horas, Merhan pode narrar relatos completamente diferentes sobre como chegou a Paris.

ODISSÉIA MISTERIOSA

O que parece ser conhecido é que ele nasceu no Irã. Quando era jovem, mudou-se para a Grã-Bretanha para estudar na Universidade de Bradford nos anos 1970, onde ele participou de manifestações contra o Xá.

Quando voltou ao seu país, em 1976, ele foi preso e interrogado por suas atividades como militante. Expulso do Irã, voltou para a Grã-Bretanha, onde teve o pedido de asilo político recusado.

Merhan então vagou pela Europa durante anos, sem casa, e passou vários meses preso por imigração ilegal. Em 1999, as autoridades francesas finalmente concordaram em garantir-lhe asilo político, mas ele já tinha mudado de idéia.

"Quando chegou à prefeitura para assinar os papéis, os documentos diziam Merhan Karimi Nasseri -- seu nome real", conta Bargain. "Alfred disse: 'Eu me recuso a assinar estes papéis porque este não é meu nome. Meu nome é Sir Alfred Merhan."' Merhan, que nega ter nascido no Irã e diz que não fala nada de si, continua sem papéis, mas as autoridades fazem vista grossa.

"Ele não perturba a ordem pública", disse uma autoridade policial. "Não nos incomoda, então não o incomodamos. Nós nunca tivemos nenhum problema com ele. Ele é um pouco a mascote do aeroporto".

SONHANDO COM HOLLYWOOD

Bargain diz que Merhan poderia deixar sua "prisão" no aeroporto se ele quisesse -- só teria que assinar os papéis. Mas Merhan parece não estar certo em relação a seus planos futuros.

Ele diz não se sentir em casa no aeroporto. "Eu não quero ficar aqui para sempre, mas estou feliz com esta situação como uma solução a curto prazo. Eu não me sinto em uma prisão, não estou entediado. Eu leio, escrevo", disse.

Merhan se lava nos banheiros dos aeroportos durante as noites, quando a maioria dos turistas já se foi. "Eu sinto falta de fazer compras algumas vezes, estar na cidade, ir ao cinema."

Merhan, que já foi tema de vários documentários e agora quer publicar um livro sobre sua vida, algumas vezes sai do aeroporto para tomar um pouco de ar, mas nunca vai muito longe.

"Eu gostaria de ir a Hollywood para mais projetos de filmes", diz sorrindo. "Mas eu cobraria mais, isso tenho certeza".

Ele poderia ficar desapontado já que o filme de Spielberg se parece muito pouco com a sua vida. O personagem de Hanks se apaixona por uma aeromoça, Catherine Zeta-Jones -- e Merhan diz que não tem nenhum amigo.

Embora Merhan pareça não saber se quer deixar o terminal, ele não desiste de sonhar. "Há muitos vôos que vão para os Estados Unidos daqui todos os dias. Deve ser fácil chegar lá".

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