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12/02/2005 - 20h54
Freira norte-americana é assassinada em emboscada no Pará

Por Leonardo Pedro, especial para Reuters

BELÉM (Reuters) - A freira norte-americana, Dorothy Stang, radicada no Brasil há mais de três décadas, foi assassinada na manhã deste sábado em um assentamento de trabalhadores sem-terra na floresta amazônica, no município de Anapu, oeste do Pará. A missionária já havia feito vários alertas, inclusive ao governo federal, sobre as ameaças de morte que sofria.

"Recebemos informações da comunidade de que ela foi morta com três tiros em uma emboscada a cinqüenta quilômetros da cidade", informou o delegado regional da Polícia Federal no Pará, Raimundo Freitas.

A freira Betsy Flynn, da mesma ordem religiosa da vítima, disse que o assassinato foi à queima roupa. "Ela recebeu tantas ameaças, nunca pensei que isso aconteceria", afirmou.

Dorothy, 74 anos, integrava a entidade Irmãs de Notre Dame e atuava também na Comissão Pastoral da Terra (CPT). Ela trabalhava há mais de oito anos com as comunidades e movimentos sociais na região da rodovia Transamazônica para incentivar o desenvolvimento sustentável e denunciava a ação de madeireiros, grileiros e fazendeiros na exploração ilegal da floresta.

"Ela andava quilômetros e quilômetros no meio da mata ensinado as mulheres a cuidarem melhor dos seus filhos e a tirar o sustento da floresta sem destruí-la e, por isso, simboliza a resistência e exemplo de vida digna para as comunidades carentes da Transamazônica", disse a presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-Pará, Meire Cohen.

Há pelos menos seis meses Dorothy vinha sofrendo ameaças de morte que foram levadas ao conhecimento da Secretaria de Segurança Pública do Pará, segundo a OAB do Estado.

"A morte dela não é uma intimidação, mas um encorajamento para continuarmos a luta para acabar com os predadores da floresta", afirmou Meire. No ano passado, Dorothy recebeu o prêmio criado pela OAB-Pará para homenagear os defensores dos direitos humanos no Estado.

CRIMINOSOS IDENTIFICADOS

Há duas semanas, em encontro no Pará com o titular da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Nilmário Miranda, a freira havia denunciando ameaças de morte a ela e a trabalhadores rurais, segundo assessoria de imprensa do ministro. No início do mês, Miranda esteve em Belém para instalar um projeto-piloto do Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos.

Neste sábado, depois da notícia do assassinato da freira, Miranda afirmou que dois pistoleiros já haviam sido identificados. "Há testemunhas que serão protegidas pela polícia federal", disse.

O delegado regional executivo da Polícia Federal no Pará, Raimundo Freitas, confirmou que foram identificados suspeitos. "Já temos inclusive o nome de um possível mandante e de executores, mas não divulgaremos por enquanto para não atrapalhar as investigações", disse.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu uma investigação rigorosa do assassinato, segundo o chefe da Ouvidoria da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Pedro Montenegro.

"Ele já foi informado e reagiu com indignação ao caso. Lula pediu que o Ministro Nilmário Miranda viaje ao local do crime e acompanhe pessoalmente os trabalhos", disse Montenegro à Reuters.

O representante da Secretaria de Direitos Humanos classificou o crime como uma provocação ao Estado de direito, principalmente porque ocorreu duas semanas após a instalação do projeto-piloto da Secretaria.

O Pará foi escolhido devido às elevadas estatísticas de conflitos agrários e assassinatos de líderes de movimentos sociais. "Isso merece uma punição exemplar, o que vai ocorrer", afirmou Montenegro.

Uma equipe da Polícia Federal que acompanhava neste sábado a reunião da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, em uma reserva extrativista no município de Porto de Moz, no Pará, seguiu de helicóptero para o local do crime que fica há mais de 700 quilômetros de Belém. Após ter sido informada sobre o assassinato, Marina Silva suspendeu as discussões e avisou o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, sobre o caso.

Bastos comparou o crime ao assassinato do líder seringueiro Chico Mendes, ocorrida em 1988 no interior do Acre, e à chacina de Unaí, quando funcionários do Ministério do Trabalho foram assassinados na área rural da cidade mineira.

"A única resposta que isso merece é a punição penal, dura, rápida e exemplar, que mostre que estes valores não podem ser infringidos impunemente. Este crime não vai ficar sem castigo", declarou o ministro em nota.

A morte da freira mobiliza também a cúpula da segurança pública paraense. O secretário de Defesa Social do Estado, Manoel Santino, e o delegado geral da Polícia Civil, Luiz Fernandes, viajaram para a região do crime.

Na delegacia regional da Polícia Civil em Altamira, a mais próxima do local do crime, as informações sobre o caso ainda são vagas. "Lá em Anapu, a delegacia não tem telefone, não pega celular e enfrentamos dificuldade de comunicação. O que sabemos aqui é que houve o assassinato, mas não temos os detalhes", disse à Reuters a delegada plantonista Indira Vaz.

O chefe da Procuradoria da República no Pará, Ubiratan Cazzeta, disse que o assassinato está ligado à luta de proprietários de terra na região contra a implantação de um programa de desenvolvimento sustentável proposto pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário.

"Este assassinato mostra que ainda existem pessoas que vivem na barbárie. A luta é entre os proprietários de terra, que dizem possuir o título de posse das propriedades rurais, e a comunidade. Defendemos que a terra é propriedade da União", declarou Cazzeta.

(Colaborou Andrew Hay)

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