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04/08/2005 - 23h44
Jefferson ataca Dirceu e faz novas denúncias

Por Natuza Nery e Patrícia Duarte

BRASÍLIA (Reuters) - Firme no objetivo de atacar frontalmente o ex-ministro José Dirceu (PT-SP), o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) levantou em seu depoimento à CPI do Mensalão novas suspeitas sobre o governo e o PT, mas voltou a poupar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Para Lula, disse, retribuiria o "cheque em branco" em demonstração de confiança que uma vez o presidente disse estar disposto a passar para ele.

A estratégia do parlamentar é fazer o jogo do eterno denunciante. A cada nova aparição, ele tenta emplacar uma novidade que dificulte a situação de petistas. Desta vez repetiu, com mais detalhes, a acusação de que Dirceu seria idealizador de uma suposta negociação fracassada com a Portugal Telecom para repasse de dinheiro ao PT e ao PTB.

Jefferson havia feito essa revelação no Conselho de Ética na terça-feira. Segundo ele, em 24 de janeiro deste ano, Rogério Tolentino, sócio do empresário Marcos Valério de Souza, Emerson Palmieri, tesoureiro informal do PTB, e o próprio Valério foram a Portugal, mas "voltaram de mãos abanando".

A acusação foi negada pela empresa, por Dirceu e por Valério, que é acusado de ser operador do suposto mensalão. O empresário admitiu ter se reunido com a Portugal Telecom, mas para tratar de assuntos de interesse de suas empresas.

Ao contrário do que havia sugerido no conselho, Jefferson eximiu Lula de conhecer as supostas negociações.

"Se minha declaração em algum momento fez suspeitar do presidente Lula, quero dizer que não fui claro", afirmou.

Diante dos questionamentos da oposição sobre Lula, Jefferson chegou a pedir que alguém do governo fosse à sessão para fazer essa defesa. "Não sou seu porta-voz."

FRANCO-ATIRADOR

Outra denúncia do petebista, trazida a público sem detalhes, dá conta de que ele e Valério trataram do antigo processo de compra da Varig pela TAP, viação aérea estatal portuguesa.

Segundo uma fonte próxima à Varig, Valério viajou em março para se encontrar com a TAP como intermediário de uma negociação que acabou esbarrando na recusa dos controladores da empresa, por ser considerada prejudicial para a Varig.

"Era uma proposta maluca e fui totalmente contra", disse um ex-dirigente que prefere não se identificar sem dar detalhes.

Jefferson também falou de uma suposta operação de aplicações financeiras no Banco do Espírito Santo (BES), de Portugal, pelo Instituto de Resseguros do Brasil (IRB) em troca de benefícios financeiros.

Outra operação envolveria o BES, dessa vez com a Eletronorte, "num esquema bilionário", que, segundo o deputado, renderia uma comissão de 40 a 60 milhões de reais, a serem repassados para PT e PTB. Neste caso, acrescentou o deputado, o processo era para "reestatizar" as linhas de transmissão da empresa.

"Era uma operação casada", definiu Jefferson. "Pelo que vi, ele (Valério) não só operava contas de publicidade... O careca era embaixador do Brasil para assuntos de telefonia, obras e viação aérea."

À noite, a diretoria da Eletronorte divulgou uma nota afirmando que "não tem conhecimento sobre qualquer estudo de reestatização de linhas de transmissão, conforme divulgado no dia de hoje". A diretoria informa ainda "que não possui nenhum relacionamento com o Banco Espírito Santo".

FUNDOS

Quanto ao governo, o parlamentar foi enfático: "Dirceu era o chefe da quadrilha, mas não fazia tudo sozinho", referindo a Luiz Gushiken, ex-ministro e atual assessor especial de Lula. Para ele, Gushiken participaria do esquema por meio dos fundos de pensão.

O ex-ministro, por meio de nota, classificou as declarações de Jefferson como levianas e caluniosas.

"São falsas as insinuações e ilações a respeito do meu papel junto aos fundos de pensão, que obedecem a marcos regulatórios específicos e estão submetidos a amplo leque de instituições de fiscalização e controle", afirmou Gushiken. Ainda envolvendo fundos de pensão, Jefferson indicou que eles também fariam parte do suposto esquema do "mensalão", atrelando-os aos bancos Rural e Santos, este em processo de liquidação. O deputado chegou a afirmar que o Rural somente sobrevive com as aplicações das fundações e que pode seguir o mesmo caminho do Banco Santos.

Questionado por um parlamentar onde estaria o dinheiro dos fundos de pensão, Jefferson sugeriu que se verificasse a lista das instituições que perderam dinheiro com a quebra do Banco Santos.

"O Banco Santos é o começo (para as investigações). Se não correr rápido com os fundos do Rural, vão micar lá também porque o Rural só está se mantendo vivo graças aos fundos de pensão", afirmou Jefferson.

O Banco Rural, por meio de assessoria de imprensa, declarou que os investidores institucionais correspondem a cerca de 13 por cento do volume total de recursos captados e que opera com "ativos líquidos de excelente qualidade".

O deputado disse que o Banco Santos pode ter sido usado no "mensalão", já que agências que seriam ligadas a Valério faziam movimentações nas agências da instituição.

CONTRADIÇÕES

Parlamentares que presenciaram alguns momentos da sessão afirmaram que, embora seja um orador talentoso, Jefferson começou a entrar em contradições. Uma delas é quanto à versão de que teria recebido 4 milhões não declarados do PT para um acordo eleitoral.

O montante, dividido em uma parcela de 2,2 milhões de reais e outra de 1,8 milhão de reais, teria sido entregue por Valério em malas de dinheiro, envolto em tarjetas do Banco Rural e do Banco do Brasil.

Mas uma lista de sacadores fornecida pelo próprio empresário à Procuradoria Geral da República mostra que Emerson Palmieri sacou, por meio de dois emissários, 2,468 milhões de reais em sete diferentes retiradas da agência do Banco Rural. Esse valor ultrapassa o declarado por Jefferson.

A explicação dada por ele é de que Alexandre Chaves, um dos sacadores, retirou essa quantia por sua determinação para resolver problema pessoal do funcionário. Essa informação ainda não havia sido esclarecida por ninguém do PTB.

"Não bate com a contabilidade de Valério. Ele não explica isso. Uma hora fala que os 4 milhões vieram em malas e depois indica que vieram das contas", disse o deputado Paulo Pimenta (PT-RS), vice-presidente da CPI, após Jefferson ter dito que conheceu a localização da agência do Rural em Brasília ao ir a uma clínica dentária que fica no mesmo andar do prédio.

Jefferson disse que o PTB estaria tentando chegar a um acordo com o PT para legalizar o repasse dos 4 milhões de reais que ele alega ter recebido dos petistas. O presidente do PT, Tarso Genro, negou qualquer entendimento nesse sentido.

"É uma invenção absolutamente desproporcional", disse Tarso a jornalistas, após reunião da Executiva do PT em São Paulo. O ex-presidente petista José Genoino sempre negou ter repassado esses recursos a Jefferson.

MOMENTO DE FÚRIA

A temperatura subiu quando o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) mostrou uma matéria publicada num jornal do Mato Grosso do Sul com declarações de uma mulher que teria visto Jefferson em companhia de Maurício Marinho aparentando serem "bastante amigos." Marinho é o ex-chefe de departamento dos Correios que aparece em um vídeo recebendo propina e envolvendo Jefferson num suposto esquema de corrupção na estatal.

O deputado refutou a afirmação e, irado, rasgou a cópia da reportagem que lhe foi entregue pelo senador. A atitude rendeu-lhe forte repreensão do vice-presidente da CPI, deputado Paulo Pimenta (PT-RS) e acabou recusando-se a responder novas perguntas de Suplicy. Por conta disso, a sessão chegou a ser suspensa.

Na volta, mais calmo, Jefferson voltou a falar com Suplicy e até mesmo pediu a sua assessoria para que conseguisse nova cópia da matéria, para ser entregue à CPI.

A CPI do Mensalão deve ouvir Valério na próxima terça-feira e seu sócio Cristiano Paz na quarta.

(Reportagem adicional de Marcelo Mota, Denise Luna e Carmen Munari)

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