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13/05/2007 - 22h12
Papa reforça princípios e não deixa brechas a católicos no país

Carmen Munari e Fernanda Ezabella

APARECIDA (Reuters) - A viagem de cinco dias do papa Bento 16 ao Brasil serviu para reforçar os princípios da Igreja Católica junto ao clero e à sociedade. O pontífice não deixou brechas para questionamentos, seja por parte da Igreja seja por parte de seus seguidores, segundo especialistas.

O recado deixado por Bento 16, após a realização de 12 pronunciamentos em 21 eventos diferentes, é conservador. Centra na família, no aborto e nos limites morais para a pesquisa científica o foco da ação da Igreja, com um olho também na injustiça social.

De outro lado, ele afastou a vinculação entre a prática católica e as ideologias, principalmente as de esquerda, e rechaçou a participação direta de clérigos em partidos. No entanto, a Igreja na América Latina tende, historicamente, a se engajar em temas políticos e sociais, fazendo a opção principal pelos pobres, o que sempre gerou disputas.

Seu principal discurso foi realizado neste domingo na abertura da 5a Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. Mas já na quinta-feira, em um evento também dirigido as bispos latinos, ele enumerou essas preocupações.

Para o filósofo Luiz Felipe Pondé, professor do departamento de Teologia da PUC-SP, Bento 16 vem repetindo o discurso que a Igreja Católica imprime nos últimos 20 anos. O impacto de sua visita ao Brasil, diz, será "proporcional à competência dos ministros católicos em pôr em prática suas palavras".

A socióloga Maria José Rosado-Nunes, também da PUC-SP, acredita que a vida da Igreja na América Latina voltará ao normal quando o pontífice deixar o país.

"A população católica continuará a discordar dessas normas católicas impossíveis de serem praticadas, como o não uso da camisinha, o não (à prática do) sexo antes do casamento", disse ela à Reuters.

O único saldo positivo, para a professora, foi o encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no qual o governo brasileiro reafirmou o caráter laico do Estado brasileiro. "O fato positivo foi o governo ter reafirmado publicamente, com toda a força e na frente do papa, que o Estado tem que atender as necessidades da população e não da doutrina católica", disse.

"Como já aconteceu outras vezes, o que se guarda do que ele propõe é muito pouco, a não ser em círculos muito restritos de grupos católicos mais conservadores", previu.

Para os bispos, público alvo das diretrizes externadas pelo papa, não houve "puxão de orelha".

"A Igreja já está consciente das palavras do papa, o papa pontuou os assuntos mais importantes. Nada do que falou pode ser interpretado como um puxão de orelha e sim como um beijo na América Latina", disse após a abertura da conferência o bispo de Catanduva (SP), Antonio Celso Queiroz. O evento se estende até dia 31 de maio em Aparecida e suas conclusões passarão pelo crivo do papa.

Sobre a crítica feita pelo papa ao capitalismo e ao marxismo, de que não conseguiram combater a pobreza, Álvaro Ramazini, bispo de San Marcos, na Guatemala, disse que Bento 16 apenas "insistiu que a Igreja tem que manter sua independência".

PÚBLICO

Durante a passagem pelo Brasil, o papa atraiu cerca de 1,5 milhão de pessoas em eventos públicos em São Paulo e em Aparecida, sendo o principal a canonização de frei Galvão. O número ficou abaixo do esperado pela organização.

No contato com o público, o pontífice se esforçou para afastar a imagem de sisudez que o perseguia desde quando era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, bastião dos valores da Igreja Católica, que impôs limites à atuação de sacerdotes ligados à Teologia da Libertação.

O papa, de 80 anos, chegou a quebrar o protocolo ao se aproximar de fiéis e sorriu inúmeras vezes quando o público gritava seu nome.

Para Pondé, é razoável acreditar que o papa já sabia que era visto como um "panzer" (tanque de combate) e é provável que a sempre calorosa recepção dos brasileiros tenha tido um impacto no pontífice.

Pouco antes de partir, na noite de domingo, Bento 16 disse que levava na memória as manifestações de entusiasmo e de "profunda piedade" do Brasil, onde afirmou ter vivido momentos "intensos e inesquecíveis".

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