UOL Notícias Cotidiano
 

14/06/2009 - 07h00

Em buscas por vítimas do voo AF 447, tecnologia é arma na luta contra o tempo

Carlos Madeiro
Especial para o UOL Notícias
No Recife
Noticiado o desaparecimento do Airbus A330-200 da Air France, que fazia o voo 447 Rio-Paris na noite do dia 31 de maio com 228 pessoas a bordo, um desafio já parecia inevitável: localizar vítimas e destroços da aeronave no meio do oceano Atlântico. Desde então, Aeronáutica e Marinha do Brasil empregam suas mais altas tecnologias na tarefa, que já resultou no resgate de quase 50 corpos do mar.

TRANSPORTE E SENSOR DE TEMPERATURA

  • Fernando Donasci/Folha Imagem

    Entre as missões do Hércules C-130 na FAB estão o transporte de tropas, de carga, reabastecimento em voo, operações de busca e salvamentos

  • Evaristo Sá/AFP

    Menina-dos-olhos da Aeronáutica, modelo R-99, de fabricação nacional, fornece imagens de objetos na superfície do mar rastreados pela temperatura



O mau tempo, as fortes correntezas e a falta de informações sobre o destino do avião dificultam as buscas pelo ponto exato do acidente. Por isso, autoridades brasileiras utilizam equipamentos de ponta, em uma operação que hoje conta com 585 militares da Marinha e 255 da Aeronáutica.

Ao todo, 12 aeronaves e sete navios brasileiros participam das buscas, concentradas onde o avião teria caído. Somente esta região tem cerca de 70 quilômetros de raio.

"A área de buscas é imensa. Alguns avistamentos foram feitos durante a primeira semana, mas não poderíamos falar antes da confirmação. Quando encontramos os primeiros corpos, tivemos a certeza de que o trabalho foi bem conduzido", afirma Jorge Amaral, vice-chefe do Centro de comunicação da Aeronáutica.

Pelo ar
A Aeronáutica deslocou 12 aeronaves até o arquipélago de Fernando de Noronha, onde foi montada a base militar das operações, com controle feito do Cindacta 3, no Recife.

Entre elas, está o modelo R-99, de fabricação nacional, capaz de fornecer imagens e informações eletrônicas sobre objetos na superfície do mar, rastreados pela temperatura. O modelo fabricado pela Embraer é apontado por especialistas como uma das aeronaves de sensoriamento remoto mais avançadas do mundo.

AERONÁUTICA E MARINHA - EQUIPE

  • Sebastião Moreira/EFE

    O Blackhawk H-60 da FAB auxilia no transporte dos corpos encontrados, que são içados e levados até Fernando de Noronha (PE) para identificação inicial; de lá, seguem no Hércules rumo ao Recife



Segundo o piloto de helicóptero especialista em salvamento aéreo, tenente-coronel André Oliveira, sem o equipamento, as chances de encontrar corpos seriam muito menores. "Poderia se achar com os avistamentos também, mas as correntes podem deslocar os destroços para outro ponto de forma rápida", diz.

No dia 6 de junho, ainda de madrugada, foi o R-99 que encontrou pontos no oceano, avistados ao amanhecer por aviões da FAB (Força Aérea Brasileira). Eram os primeiros corpos das vítimas.

"Esses objetos poderiam ser destroços da aeronave, corpos das vítimas ou mesmo 'lixo marinho'. Ele localiza pontos, mas não assegura sobre o que se trata", afirma o tenente-coronel da Aeronáutica, Henry Munhoz.

Pelo mar
A Marinha, por sua vez, é responsável pelo resgate de corpos e destroços. "Ao ter a localização precisa, a Aeronáutica repassa as informações ao navio mais próximo, que segue ao local para fazer o resgate", diz o capitão de fragata da Marinha Giucemar Tabosa. Embarcações motorizadas menores, acopladas aos navios, são enviadas até o local onde está o corpo e o retiram do mar. "Todo o resgate é feito por pessoal treinado para esse tipo de operação."

TRANSPORTE DE CORPOS E DESTROÇOS

  • Divulgação/Marinha

    A fragata Constituição (baixo) conduz as buscas feitas pela Marinha, que conta também com o navio-patrulha Grajaú e a corveta Caboclo (acima)

  • Marinha/Divulgação

    Na Constituição, pedaço do Airbus da Air France

  • Sebastião Moreira/EFE

    A fragata Bosísio, equipada com câmara frigorífica, transportou 25 corpos encontrados no Atlântico



A frota brasileira no mar é composta hoje por quatro embarcações, algumas delas equipadas com câmaras frigoríficas. A fragata Bosísio levou 25 corpos até Fernando de Noronha, para que sejam identificados. O navio desembarque de doca Rio de Janeiro, que deve chegar na próxima sexta-feira (19) à região de buscas, pode armazenar até 100 corpos. Esse tipo de embarcação é projetada para oferecer suporte a operações que envolvem terra e mar.

Depois que os corpos são retirados do mar, o transporte é feito por dois helicópteros (H-60 Blackhawk e H-34 Super Puma) da FAB, em trabalho integrado entre Marinha e Aeronáutica. Os corpos são içados do navio até as aeronaves. "É um processo demorado e que requer uma grande atenção, pois estamos diante de corpos frágeis", detalha Henry Munhoz.

De Fernando de Noronha (onde passam por um processo de pré-identificação) até o Recife (onde são feitas as necropsias), o transporte é feito pelo avião Hércules C-130. Conhecido no Brasil como "o gordo", a aeronave de tecnologia norte-americana criada em 1951 é considerada o mais versátil avião de carga -faz o transporte de tropas inteiras e foi utilizada pelas Forças Armadas norte-americanas nas guerras do Vietnã e do Iraque.

Em nome do que a Aeronáutica classifica como "planejamento estratégico", intensidade, direção da corrente marinha e a força dos ventos também são calculadas diariamente.

"No início, os corpos foram em direção norte, se distanciando do Brasil. Depois, começaram a voltar em direção ao nosso litoral. Nosso planejamento de operações foi o que nos fez ter resultados. Prova disso são as coletas de destroços e resgate dos corpos que estão acontecendo", disse o brigadeiro Ramon Borges Cardoso, chefe do Departamento de Controle do Espaço Aéreo Brasileiro (Decea).

Luta contra o tempo
Apesar da tecnologia, no entanto, é provável que a maioria dos corpos nunca seja encontrada em meio a águas de 3.500 metros de profundidade, em uma região montanhosa no fundo do oceano. "Na água, é muito mais difícil. A chance de você avistar um objeto e perdê-lo em seguida é grande", diz André Oliveira.

FRANÇA TAMBÉM AJUDA NAS BUSCAS

  • Reuters

    Na procura pela caixa-preta, o submarino nuclear Émeraude foi enviado pelo país às águas brasileiras



Os 16 primeiros corpos resgatados em processo de identificação estão irreconhecíveis e em adiantado estado de decomposição, segundo a Aeronáutica. Situação que tende a piorar com o passar do tempo. Além disso, os corpos já não boiam mais.

Para tentar vencer as adversidades naturais, a França também auxilia nas operações, com dois aviões e com a fragata Ventose e o navio-anfíbio Mistral.

Além deles, o submarino Émeraude, o navio-pesquisa Pourquoi Pas e os rebocadores Fairmount Glacier e Fairmount Expedition estão em águas brasileiras em busca de destroços e das caixas-pretas do Airbus, cujo paradeiro permanece um mistério.

Para o tenente-coronel, o trabalho até o momento teve bons resultados e mostra ao mundo que o Brasil é competente na área de salvamento. "Saiu melhor até do que se imaginava. Se um acidente acontecesse em terra, se informa o local exato tanto para o avião, como para as equipes de resgate", conclui.

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,71
    3,168
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,12
    68.634,65
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host