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03/08/2005 - 18h58
"A vida da corrupção é sistêmica", diz Roberto Romano

Veja a entrevista em vídeo

Da Redação

O escândalo que abala o país envolve cada dia mais gente e mais dinheiro. Marcos Valério, um ilustre desconhecido até outro dia, agora é o rei do dinheiro - distribuía milhões e milhões de reais para Deus e o mundo. E fica cada vez mais difícil separá-lo do PT. Uma reportagem publicada hoje no jornal O Estado de S. Paulo diz que o mineiro pagou até a defesa do Partido dos Trabalhadores no caso do assassinato do prefeito de Santo André, o petista Celso Daniel. O presidente do Diretório do PT de São Paulo, Paulo Frateschi, disse que contratou o escritório de advocacia a pedido do PT de Santo André, mas disse não saber quem pagou a conta.

E o mesmo jornal reproduz uma nota fiscal mostrando que uma empresa de Marcos Valério pagou a festa de posse do presidente Lula. Em depoimento à CPI dos Correios hoje, a diretora administrativa-financeira da agência SMPB, Simone Vasconcelos, confirmou os empréstimos feitos ao PT por Marcos Valério. Só que ela nega saber detalhes dessas movimentações financeiras.

Em entrevista ao UOL News, o professor de Ética e Política da Unicamp, Roberto Romano, disse que a vida da corrupção, assim como a vida política, econômica, social e religiosa, é sistêmica. "A corrupção vai cada vez mais pegando ramificações e, de certo modo, tende a pegar toda a sociedade - aqui em termos um pouco exagerados. O que está acontecendo é algo que os teóricos do século 16, que tratavam da teoria do Estado, da questão do segredo, chamavam de 'segredo conhecido por todos'. É paradoxo, mas é verdade. Toda a sociedade brasileira sabe o que está ocorrendo, o que ocorreu. Não se sabia o personagem, mas a rede era conhecida".

Para Romano, o discurso feito ontem por Lula mostra bem essa tentativa de desqualificar as denúncias. "O presidente retomou a cantilena de que a imprensa só gosta de denunciar coisas vazias". Lillian Witte Fibe lembrou que o presidente atribuiu à mãe analfabeta as críticas contra a imprensa. "A mãe dele, analfabeta, lê jornal?", perguntou a jornalista.

O cientista político respondeu com ironia: "Milagres acontecem. Quando você tem pessoas tão imaculadas e angélicas só pode entrar no milagre. Por exemplo: é um milagre o chefe da Casa Civil, o maior responsável pelo governo do ponto de vista político-administrativo, dizer que não sabia de nada. Ele não sabia do que ocorria no seu partido, nas articulações. Não sabia nada. É de uma inocência de chapeuzinho vermelho. E é a tônica que tem sido utilizada por todas as defesas - que na verdade são fugas -, de Delúbio Soares, Silvio Pereira, etc. É a técnica de declarar absolutamente surdo, mudo, sem tato, sem gosto, sem cheiro, sem nada. Essa personagem é uma construção imaginária; não existe. E o povo brasileiro percebe isso".

Ele lembrou que o jornal Pasquim, que circulava na época da ditadura, fazia a seguinte brincadeira para justificar suas opiniões: "Eu preciso sobreviver, entende?" O professor também falou do livro de Elias Canetti, chamado "Massa e poder", para explicar a relação das pessoas com a sobrevivência. "Esse monumento (livro), que eu gosto muito, dizia que a lógica da sobrevivência era a seguinte: que o poderoso é o grande sobrevivente, porque vai jogando os amigos à morte, enquanto ele vai sobrevivendo. E o que fez Dirceu ontem? Sobreviveu. Ele não tem nada com o PT? Alguém acredita nisso? Ele não tem nada com a direção do PT? Alguém acredita? Ele jogou toda a culpa nas costas de Delúbio, Genoino, Silvio".

Para o professor, quanto mais alto o cargo que uma pessoa ocupa, maiores serão também suas responsabilidades. E deu alguns exemplos. "Você que dirige um jornal... Tudo o que se passa nele é responsabilidade sua. Se algum subordinado fizer algo de errado, você precisa ser avisada e corrigir. Eu, como professor, se erro dando uma aula, os meus alunos têm todo o direito de se dirigir aos meus superiores - se eu não tiver a honestidade de confessar que errei. Erro todo mundo pode fazer. Agora, um presidente da República que não sabe o que ocorre no seu gabinete e no seu partido? Um chefe da Casa Civil que não sabe o que acontece na Casa Civil, etc? Onde está o governo?"

Romano não acredita que esteja havendo prejulgamento nesse caso, como disse ontem o deputado José Dirceu. "Concordo que não se deva prejulgar. Mas as milhões de pessoas que votaram no presidente não votaram para que ele xingasse a imprensa, dissesse que a mãe é analfabeta, etc. Votaram para que governasse e assumisse suas responsabilidades. Mas ele assume em cima dos outros. Tinha uma piada que circulava na esquerda que era a seguinte: o mais comum dos militantes e dirigentes de esquerda é fazer a auto-crítica dos outros. Lula faz isso. Ele nunca é culpado. Não pode".

Celso Daniel
O professor também comentou a denúncia do 'Estadão', de que Marcos Valério pagou os advogados que defenderam o PT no caso da morte de Celso Daniel. "Desde o começo desconfiei muito. A técnica que tem sido utilizada pelo PT, sobretudo por Dirceu e pelo presidente Lula, é a de tentar desqualificar a crítica e a denúncia. Na questão do Celso isso ficou evidente. Quando a coisa esquentou e ficou claro que o caso não era apenas policial e criminal, mas também de corrupção, o ministro Dirceu fez questão de armar uma homenagem ao deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, em São Paulo, para malhar a imprensa e também o Ministério Público".

Romano disse ainda ter ficado "confortado" ao ver o deputado José Dirceu defendendo o Ministério Público em depoimento prestado ontem ao Conselho de Ética. "Se houve um algoz do Ministério Público foi o ministro José Dirceu".

A história de Romano com Dirceu e com o PT
O professor Roberto Romano contou que conviveu bastante com o PT e também com José Dirceu, a quem chegou a proteger na função de "segurança" na Passeata dos Cem Mil, em 1968. Dirceu também chegou a ser testemunha de defesa num processo movido pelo deputado Roberto Cardoso Alvez (líder do Centrão, na época)contra Roberto Romano. O professor afirmou não acreditar que o deputado José Dirceu tenha deixado de ser stalinista, como disse ontem durante depoimento.

"Acompanho Dirceu desde 97. Ninguém que assumiu fórmulas mentais tão rígidas quanto as do Partido Comunista - e aí podemos fazer uma analogia para a Igreja Católica e outros setores - durante tanto tempo e tão fortemente em termos de cultura, muda de uma hora para outra. É muito difícil. É como uma pessoa que foi padre durante 40 anos. Pode até se tornar ateu, mas os gestos e a maneira de pensar, inclusive, continua de padre. Stalinista é a mesma coisa: age automaticamente. A menos que faça uma psicanálise profunda e que haja um choque na sua vida, não muda a forma de pensar".

Lillian também perguntou ao professor se ele, algum dia, foi 'petista de carteirinha'. "Nunca fui PT de carteirinha, mas sou esquerda de carteirinha sempre. Acompanho o PT há 20 anos e há 20 anos eu digo: 'vocês não têm o direito de se colocar como únicos donos da virtude e da ética e dizer que todos os outros são farinhas do mesmo saco. Vocês não têm o direito de acusar sem provas, de perseguir as pessoas do jeito que fizeram. E agora estão levando o troco".

Segundo ele, desde que começou a acompanhar o Partido dos Trabalhadores percebeu que havia uma certa pluralidade de pensamentos entre os militantes. "Você tinha os católicos, que são muito bem intencionados, mas que têm um autoritarismo muito grande. Conheço esse autoritarismo profundamente, inclusive tenho uma tese de doutorado sobre essa questão do populismo e autoritarismo católico. Do outro lado você tinha, na fundação do PT, esse grupo stalinista, que tinha saído do útero do Partido Comunista (PC), e de organizações divergentes - mas divergentes na tática, e não na doutrina ou na prática. E os trotskistas, que fazem muito barulho contra o PC e o stalinismo, mas que também têm a mesma prática do centralismo democrático - também expulsam pessoas, definem uma linha hierárquica vertical, etc. Isso nunca me atraiu".

Roberto Romano explicou que o PT começou a ser "elaborado" em 75, 76, durante seminários realizados em Paris. "A idéia era fazer um partido socialista democrático, mas não vingou. Tivemos primeiro a elaboração do PT e depois essa cisão dentro do PMDB, que virou o partido tucano (PSDB).

"O prostíbulo risonho"
O professor da Unicamp contou ao UOL News que escreveu um artigo na Folha de S.Paulo, no dia 6 de setembro de 93, chamado "O prostíbulo risonho", que, segundo ele, cairia muito bem nos dias de hoje. Era uma crítica ao Congresso Nacional, com comentários sobre denúncias da época, de envolvimento de parlamentares em esquema de prostituição de mulheres no Parlamento. Nele, o professor denunciou o que chamava de 'tática do gambá' usada pelos políticos.

Explicação de Romano: "o simpático animalzinho, quando se imagina atacado, joga sobre os narizes do suposto ou real inimigo um cheiro insuportável. É a sua defesa. Quando os políticos percebem perigo nas falas e atos de alguém, lançam sobre aquela pessoa um fedor que tolhe toda a sua iniciativa. E assim escapam".

Lillian Witte Fibe lembrou que o senador Demostenes Torres (PFL-GO), durante depoimento de Simone Vasconcelos à CPI, hoje, citou um esquema de prostituição envolvendo parlamentares atualmente. O senador afirmou que soube da Polícia Federal que os recursos repassados a políticos e assessores pelas empresas de Marcos Valério e que financiariam o suposto 'mensalão' também seriam usados para promover festas num hotel de Brasília, das quais participariam deputados e prostitutas. "Naquela época (época do artigo), uma repórter da Folha mostrou que assessores de deputados e senadores estavam servindo de 'links' para esse tipo de divertimento para prefeitos, cabos eleitorais, etc, que iam para Brasília".

Segundo Romano, o que mais o irritou na época foi um episódio envolvendo o então presidente da Câmara, deputado Inocêncio Oliveira (na época no PFL; hoje no PMDB). "O deputado aumentou o número de assessores na Câmara e negou quando questionado por uma repórter de TV. Ela perguntou a ele: 'o senhor assinou algum documento permitindo contratações?' Ele respondeu: 'Não, não sei nada desse documento'. E saiu dando risada. Assim que virou as costas, a repórter colocou na tela o documento que ele tinha assinado. Aí não dá para agüentar. Nos tratar como tolos, tudo bem, mas rir da nossa cara não! Você usa verbas públicas, mente e dá risada? Não pode. Não podemos aceitar. Foi aí que escrevi o artigo".

O professor afirmou que está havendo "mentira sistemática" nos depoimentos às CPIs dos Correios e dos Bingos, ao Conselho de Ética... "Têm situações muito complicadas. Por exemplo: ontem depôs Luiz Eduardo Soares (à CPI dos Bingos). É uma pessoa bem intencionada, o conheço, já trabalhei com ele. Achei que tudo o que disse é muito interessante e ajuda muito a entender a lógica do PT e a ação de Dirceu. Mas fiquei com aquela dúvida na cabeça: 'por que essas pessoas se calam no momento em que as coisas estavam sendo feitas? Por quê? Esperança de que vai melhorar? Como? Na verdade, o que estava sendo prometido era um cargo".

Segundo o professor de Ética, isso explica o que disse no início da entrevista: que a vida da corrupção é sistêmica. "Por isso eu disse que a corrupção tende a se espraiar em termos sistêmicos e chega a pessoas que são absolutamente honestas. Estas começam a ser encantadas, o desejo começa a funcionar. O desejo de poder funciona. As pessoas entram nessa. Silenciam coisas gravíssimas. Por mais respeito que eu tenha ao Luiz Eduardo, eu posso perguntar a ele: você não tinha audiência com ninguém para contar isso?"

Onde vai parar a crise?
Romano concorda com o cientista político David Fleischer, da UnB, entrevistado ontem no UOL News, que a crise deve acabar em "meia pizza". Mas vai além. "Eu diria que metade dessa pizza está envenenada. Uma metade pode dar certo, por enquanto, mas a outra está envenenada. É preciso tomar muito cuidado. A cada vez que ocorre um desses grandes acordos entre políticos, aumenta a distância entre o cidadão que paga impostos injustos, que não tem retorno em saúde, segurança, educação, ciência. E ele vai se mostrando cada vez mais desconfiado e inimigo dos políticos. É bom que os políticos tenham essa consciência: de que boa parte da população brasileira, a cada demonstração de egoísmo e pensamento corporativo no pior sentido, se distancia e se torna inimigo da democracia. Nessa medida, temos de pensar que esse tipo de auto-absolvição que estão se fazendo, é algo que pode ferir cada vez mais a possibilidade de seus empregos".

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