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28/03/2006 - 18h18
75% dos brasileiros admitem que seriam capazes de cometer irregularidades em cargos públicos

Veja a entrevista em vídeo

Da Redação

A maioria dos brasileiros tolera políticos corruptos. Não só tolera, como é conivente com a roubalheira e a falta de ética no dia a dia. É o que revela pesquisa inédita do Ibope Opinião, feita com 2 mil pessoas em todo o país em janeiro. Título: "Corrupção na Política: Eleitor - Vítima ou Cúmplice?". Conclusão: 75% dos brasileiros admitem que seriam capazes de cometer irregularidades em cargos públicos.

Havia 13 atitudes típicas de corruptos: contratar pessoas e empresas de familiares sem concurso ou licitação; pagar despesas pessoais com dinheiro público; aproveitar viagens oficiais para lazer próprio e de familiares; trocar o voto por um cargo para si, um parente ou um amigo e até fazer caixa 2 para garantir vitória na eleição.

Entre as irregularidades que os entrevistados (fora da política, claro) admitem cometer uma vez ou outra estão: suborno para se livrar de multa de trânsito; sonegação de impostos; falsificação de documentos; compra de produtos piratas; ligações clandestinas pra usar a luz ou a TV a cabo do vizinho...

Em entrevista ao UOL News, Silvia Cervellini, diretora de Planejamento e Atendimento do Ibope Opinião, responsável pela pesquisa, disse que o que mais chamou atenção foram os altos patamares de atos ilícitos cometidos no dia a dia pelos brasileiros. "Vimos que 7 em cada 10 cometem alguns desses atos, e quando projetam para pessoas conhecidas, isso passa a ser quase consensual: 98% acham que seus conhecidos cometem alguns desses atos - praticamente todo mundo."

Questionada sobre a sinceridade dos entrevistados, Silvia Cervellini explicou: "Existe um fenômeno de pesquisa de opinião que é do entrevistado ser mais verdadeiro ao falar sobre os outros do que sobre si mesmo. A gente considera, do ponto de vista de indicador de prática de ilegalidade, essa medida de pessoas conhecidas como mais verdadeira, mais próxima do retrato do eleitorado. Então pode se dizer que praticamente todo mundo comete algumas dessas pequenas ou grandes ilegalidades no seu cotidiano."

Ela disse que o Ibope ainda não tem uma comparação com outros países do mundo, mas disse que as reações de alguns colegas da Espanha e da América Latina demonstram que há sim uma disseminação dessa cultura de transgressão na sociedade.

"É um problema de educação?", perguntou a jornalista Lillian Witte Fibe. "Aí cabe uma reflexão, uma coisa mais abrangente sobre esse processo, porque acho que vem da nossa história, da cultura, das instituições, da nossa legislação. Acho que a explicação é multidisciplinar."

Banho de água fria
Chegar a essa conclusão é, sem dúvida, um banho de água fria nos bem-intencionados e honestos. Como é possível cobrar ética dos governantes? Silvia Cervellini explicou que o Ibope está diante de um paradoxo desde o ano passado: dados vinham mostrando que o eleitor é muito crítico em relação às suas lideranças políticas em termos de corrupção, que faz um julgamento muito enfático contra isso, mas ao mesmo tempo via a prática dessas ilegalidades pelos eleitores.

"Existe uma associação, uma correlação entre cometer mais atos de ilegalidade e tolerar mais atos de corrupção. Efetivamente a gente pode imaginar que ao assumir que poderia cometer esses atos caso estivesse lá [no poder], vai ser tolerante diante desse problema no momento de decisão de voto, por exemplo."

"É o tradicional 'rouba mas faz'?", perguntou a jornalista. Cervellini explicou: "Chamamos de uma certa flexibilização das regras éticas. Nem tudo é tão errado. Contrariar as regras de repente pode ser válido, dependendo do contexto. Acho que tem um certo pragmatismo na cultura, porque inclusive você observa em relação a esses atos de corrupção, que tudo o que diz respeito a beneficiar familiares e amigos, tende a ser mais tolerado. Práticas que beneficiam pessoas próximas, amigos e familiares parece que os fins justificam os meios, como estratégia de sobrevivência. Esse tipo de prática provavelmente tende a ser mais aceita pelo eleitorado."

Quanto mais jovem e informado, mais tolerante
A diretora de Planejamento e Atendimento do Ibope Opinião explicou que há diferença de resultados quando os entrevistados forem separados por sexo, idade e escolaridade. As mulheres são "um pouco menos" tolerantes que os homens, e os jovens aceitam mais a corrupção do que as pessoas mais velhas.

"Talvez tenha um fator de informação política, de entender um pouco a história. Temos que imaginar que os jovens não têm esse arsenal. Entre os jovens, 87% aceitam algumas das 13 práticas. Quando chega entre 50 ou mais, esse índice baixa para 60%."

E outra: essa tolerância também cresce conforme a escolaridade do entrevistado. "No nível superior chega a 85%. Até a 4ª série é 62%." Então não se trata apenas de educação e informação? "Não é diretamente educação. Pode ser um fenômeno de compreensão dos meandros da política, das instituições e das regras políticas. O pessoal de nível superior pode, de repente, justificar por conta de entender o arcabouço institucional."

Reação ambígua
Como é possível o eleitor condenar a prática e fazer o mesmo? "Essa ambigüidade aparece nos dados, mas dificilmente aparece no discurso do próprio eleitor. Na sua auto-imagem essas coisas ficam muito separadas. A gente não observa no eleitorado essa reflexão. É por isso mesmo que esse estudo pretende levar a sociedade a refletir sobre isso: se eu estou criticando lá em cima, o que eu estou fazendo aqui embaixo? Existe uma separação muito grande entre esses dois ambientes na opinião pública. A gente está mostrando que as coisas não são tão distantes assim."

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