A violência provocada pelo narcotráfico no México já matou mais de mil pessoas desde o início do ano, um recorde em relação aos anos anteriores que indica que a violência no país pode estar se agravando ainda mais.
Segundo dados do jornal El Universal , um dos principais do país, esse número de foi completado em 20 de fevereiro, pouco mais de dois meses antes da data em que a cifra de mil mortos foi alcançada no ano passado - 22 de abril. Em 2007, a data foi 14 de maio.
Os dados do jornal são compilados com base em informações de polícias e delegacias regionais. Já os dados do governo não são muito atualizados. O número mais recente de vítimas do narcotráfico, da Procuradoria Geral da República, se refere ao total de mortos até novembro de 2008, de 5.370. O próprio órgão estima que o total de mortos no ano passado tenha sido de cerca seis mil. Em 2007, foram 2.712.
"A violência desatou e, hoje, afeta não só quem está envolvido no tráfico, como quem teve o azar de estar no local errado, no momento errado", disse à BBC Brasil Luis de La Barrera, do Instituto Cidadão de Estudos sobre a Insegurança (Icesi).
Além disso, segundo alguns pesquisadores, a chamada "ética na delinquência" - pactos entre traficantes que poupavam a vida de seus familiares - já não existe mais.
Georgina Sánchez, diretora executiva do Grupo de Análise da Segurança com Democracia (Casede), diz que, apenas em 2008, 113 crianças e bebês foram mortas em ações do crime organizado.
"Sem contar aqueles que se tornam vítimas porque ficam órfãos ou por serem obrigados a conviver com o medo", disse ela à BBC Brasil.
O número crescente de sequestros - a Comissão Nacional dos Direitos Humanos estima uma média de sete por dia - também é um indicador alarmante, assim como a quantidade e o tipo de armamento encontrado nas mãos dos criminosos. Segundo o Casede, há mais de 15 milhões de armas ilegais no país, sendo 90% delas provenientes dos Estados Unidos.
Ações recentes também levaram especialistas a acreditar que o conflito também passou a envolver grupos paramilitares, a exemplo do que ocorre na Colômbia. Outra questão que colaborou para o incremento da violência é o fato de o México ter deixado de ser apenas rota da droga para os Estados Unidos para se tornar um país de consumidores disputados pelos diversos grupos de traficantes. Documento divulgado pelas Nações Unidas na semana passada indica que o consumo de cocaína no país duplicou nos últimos seis anos. O alto nível de corrupção nos mais diversos órgãos públicos é outro fator que contribui para este cenário.
No ano passado, o ex-chefe da agência mexicana contra o crime organizado, Noé Ramírez Mandujano, foi detido pela própria entidade que comandava, acusado de receber 450 mil dólares mensais de narcotraficantes. "Apenas 2% das denúncias chegam a um juiz e, destas, apenas 1% leva à condenação dos culpados", diz Georgina. Nos últimos dez anos, o governo implementou pelo menos sete programas para resolver o problema de segurança pública e a atual administração já afirmou que as Forças Armadas continuarão à frente das operações nas ruas do país até 2012.
Em junho de 2008, o Congresso americano aprovou o Plano Mérida, um projeto estabelecido em acordo com México e países da América Central para combater o tráfico de drogas e o crime organizado.
Os Estados Unidos se comprometeram a proporcionar equipamento, treinamento e assistência técnica para ajudar nas operações da Justiça e aprovaram o envio inicial de US$ 400 milhões para o México. Para as ONGs, é inegável que o governo esteja agindo, mas suas medidas não têm sido suficientes.
"Apenas 5% do total dos policiais estão capacitados para enfrentar o narcotráfico. Por isso é que as Forças Armadas foram acionadas ", diz Georgina.
A política do presidente Felipe Calderón também é vista como incompleta por alguns críticos que identificam nela a ausência de ações preventivas.
"O governo está encarando tudo como uma guerra, um enfrentamento frontal, com uma política reativa e repressiva", diz Elena Azaola, do Centro de Pesquisas e Estudos Superiores de Antropologia Social.
Segundo Elena, faltam, entre outras coisas, oportunidades para os jovens, que, em muitos casos, acabam marginalizados. Outra proposta para combater a violência que vem ganhando espaço no país é a descriminalização de algumas drogas. Especialistas alertam, no entanto, que a ideia só teria um efeito positivo como uma medida multilateral entre diversos países e se fossem adotadas, paralelamente, políticas de prevenção do consumo e reabilitação dos dependentes.
Para René Jiménez, pesquisador da Unidade de Análise sobre A Violência, da Universidade Nacional Autônoma do México, é necessário o comprometimento de todos os cidadãos para mudar o cenário. "Enquanto alguns se sentirem beneficiados pela situação e outros desprotegidos pela falta de garantias do Estado, não haverá solução", afirma.
"O povo já aprendeu que pode mudar as coisas com o voto, agora está aprendendo, aos poucos, a exercer sua cidadania. O crime organizado é formado por cinco milhões de pessoas, mas nós ainda somos maioria e podemos vencê-los."
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