Os Estados Unidos e a política de energia: petroleiros por natureza

Paul Krugman

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Para ser um republicano moderno em boa posição, é preciso acreditar --ou fingir acreditar-- em duas curas milagrosas para quaisquer que sejam os males da economia: mais redução de impostos para os ricos e mais exploração de petróleo. E, com o aumento dos preços nos postos, também cresce o canto “Perfure, baby, perfure”. Mais e mais, os republicanos estão nos dizendo que a gasolina seria barata e os empregos abundantes se parássemos de proteger o meio ambiente e deixássemos as companhias de energia fazerem o que quiserem.
 
Assim, Mitt Romney alega que os preços da gasolina estão altos não por causa das ameaças contra o Irã, mas porque o presidente Barack Obama não permite exploração de petróleo irrestrita no Golfo do México e na Reserva Nacional da Vida Selvagem do Ártico. Enquanto isso, Stephen Moore, do “The Wall Street Journal”, diz aos leitores que os Estados Unidos como um todo poderiam ter um boom de empregos, assim como Dakota do Norte, se os ambientalistas saíssem do caminho.
 
A ironia aqui é que essas alegações são feitas ao mesmo tempo em que os eventos confirmam o que todo mundo que fez as contas já sabe, que a política de energia dos Estados Unidos tem pouco efeito sobre os preços do petróleo ou a taxa de emprego geral americana. Pois a verdade é que já estamos passando por um boom de hidrocarbonetos, com um aumento da produção de petróleo e gás nos Estados Unidos e redução da importação de combustíveis. Se houvesse alguma verdade no explore aqui, explore já, esse boom já teria promovido uma queda substancial nos preços da gasolina e muitos novos empregos. Mas, previsivelmente, nenhum dos dois ocorreu.
 
Por que o boom de hidrocarbonetos? A combinação de prospecção horizontal com fratura hidráulica (“fracking”) do xisto betuminoso e outras rochas de baixa permeabilidade abriu grandes reservas de petróleo e gás natural para produção. Como resultado, a produção americana de petróleo aumentou significativamente nos últimos três anos, revertendo um declínio de décadas, enquanto a produção de gás natural explodiu.
 
Diante dessa expansão, é difícil alegar que regulamentação excessiva tem minado a produção de energia. Na verdade, uma reportagem no “The Times” deixa claro que as políticas americanas têm sido seriamente negligentes --que os custos ambientais do fracking têm sido minimizados e ignorados. Mas, de certa forma, eis a prova. A realidade está longe de ser atrapalhada pelos ecofanáticos, a indústria de energia tem tido liberdade para expandir a produção doméstica de petróleo e a produção de gás, sem se preocupar com o meio ambiente.
 
Entretanto, enquanto os preços do gás natural caíram, o aumento da produção de petróleo e a queda acentuada na dependência de importação não impediram que os preços da gasolina subissem para US$ 4 o galão (mais ou menos R$ 1,90 o litro). Nem o boom de gás e petróleo deu um impulso perceptível a uma recuperação econômica que, apesar de melhores notícias ultimamente, tem sido muito decepcionante na geração de empregos.
 
Como eu disse, isso era totalmente previsível.
 
Primeiro, os preços do petróleo. Diferente do gás natural, que é caro para transporte pelo oceano, o petróleo é negociado em um mercado mundial --e os grandes desenvolvimentos que movem os preços nesse mercado têm pouco a ver com os eventos nos Estados Unidos. Os preços do petróleo estão em alta devido ao aumento da demanda por parte da China e outras economias emergentes, e mais recentemente pelo medo de guerra no Oriente Médio; essas forças superam facilmente qualquer pressão de baixa sobre preços provocada pelo aumento da produção americana. E a mesma coisa aconteceria se os republicanos fizessem como querem e as companhias de petróleo tivessem liberdade para explorar no Golfo do México e abrir buracos na tundra: o efeito sobre os preços nas bombas seria insignificante.
 
E quanto aos empregos? Eu tenho que admitir que comecei a rir quando vi o “Wall Street Journal” oferecendo Dakota do Norte como exemplo. Sim, o boom do petróleo lá reduziu o desemprego para 3,2%, mas isso só foi possível porque o Estado inteiro tem menos habitantes do que a metropolitana Albany --tão poucos moradores que a criação de alguns poucos milhares de empregos no setor extrativista do Estado é realmente um grande negócio. Um boom de fracking de tamanho comparável na Pensilvânia mal afetaria o quadro geral do emprego no Estado, porque, no final, não há tantos empregos assim envolvidos.
 
E isso nos mostra que dar carta branca às companhias de petróleo não é um programa sério de empregos. Vamos colocar desta forma: o emprego na extração de gás e petróleo aumentou mais de 50% desde meados da década passada, mas isso representa apenas 70 mil empregos, aproximadamente 0,05% do total dos empregos americanos. De modo que a ideia de que “perfure, baby, perfure” pode curar nosso déficit de empregos é basicamente uma piada.
 
Por que, então, os republicanos fingem o contrário? Parte da resposta é que o partido está recompensando seus benfeitores: a indústria de petróleo e gás não cria muitos empregos, mas gasta muito dinheiro em lobby e contribuições de campanha. O restante da resposta é simplesmente o fato de os conservadores não terem outras ideias a oferecer para criação de empregos.
 
E a falência intelectual, lamento dizer, é um problema que nenhuma quantidade de prospecção e fracking pode resolver.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do New York Times desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de economia em 2008.



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