Um passeio pela felicidade

Jorge Ramos

Jorge Ramos

Copenhague (Dinamarca)
  • AP

    Menina sustenta bandeirinhas suecas

    Menina sustenta bandeirinhas suecas

A felicidade é viral. Ou pelo menos se contagia temporariamente, como aprendi durante uma viagem recente à Dinamarca, Suécia e Noruega. Os povos nórdicos não têm fama de ser os mais alegres do planeta - em geral são considerados sombrios e severos, além de supostamente não terem ouvido para a música. Mas uma pesquisa recente do Gallup, publicada pela Forbes.com, contradiz a maior parte desse mito popular.

Sua pesquisa entre 155 países revela que a Dinamarca tem a maior porcentagem de pessoas satisfeitas com suas vidas (82%), seguida pela Finlândia (75%), Noruega (69%) e Suécia (68%). Entre os países do norte e sul da América, a Costa Rica ficou em primeiro lugar (63%), com o Canadá em segundo (62%) e o Panamá em terceiro (58%). Os EUA ficaram em quinto lugar (57%), com o México a pouca distância (52%).

A felicidade, tal como medida pelo Gallup, nada tem a ver com rir e dançar. Baseia-se no nível de satisfação das pessoas com o que as rodeia, e leva em conta fatores como família, amigos, emprego, assistência à saúde, escolas, criminalidade, governo estável, corrupção e uma percepção generalizada de bem-estar.

É verdade que os cidadãos dos países escandinavos pagam altos impostos e os jovens têm problemas para conseguir bons empregos. Mas meu percurso de mais de uma semana me deixou uma impressão favorável de sua forma de vida em geral.

Pouco depois de ter aterrissado, de férias após vários meses de reportagens sobre as tentativas de conter o vazamento de petróleo no golfo do México e os esforços dos EUA para encontrar fontes de energia renovável, vi-me passeando de bicicleta pelos caminhos perfeitamente sinalizados e seguros de Copenhague. Não estava só. Meio milhão de dinamarqueses - um terço da população - usam suas bicicletas para transportar-se diariamente na capital.

Vivo em Miami, com uma população semelhante à de Copenhague e onde quase não há vias exclusivas para ciclistas. Em Miami jogamos com nossa vida se quisermos ir para o trabalho de bicicleta.

Por isso minha surpresa ao perceber que em Copenhague tudo é acessível de bicicleta, desde os Jardins de Tivoli até a comuna livre de Christiana. Minha única decepção foi pedalar até Kastellet para ver a famosa escultura da Pequena Sereia, só para me informar de que a haviam emprestado à China. Imaginam emprestar a escultura do David italiano ou da Diana mexicana aos chineses? Isso se chama um suvenir.

A grande notícia é que o exemplo de Copenhague é repetível, e a quem desejar saber como recomendo o site www.copenhagenize.com. A encantadora e incomparável cidade de Estocolmo, na Suécia, também pode ser percorrida de bicicleta. O visitante pode passar de uma ilha a outra, circulando por suas pontes e vias bem demarcadas que tornam obsoletos os táxis, que devem ser os mais caros do mundo. Foi emocionante percorrer em duas rodas a cidade que é o cenário da trilogia "Millennium", de Stieg Larsson.

Mas, é claro, até no paraíso há rachaduras. Minha bicicleta alugada em Estocolmo foi roubada porque não a acorrentei corretamente em frente ao museu Vasa, onde há um imponente barco viking. Mas foi um sujeito decente. Depois do furto, o amável ladrão devolveu anonimamente minha bicicleta mais tarde e não a cobraram de mim.

A maioria dos países europeus tem um extenso sistema que permite que uma pessoa pegue uma bicicleta em uma parte da cidade e a devolva em outra. É relativamente barato e funciona muito bem, a menos, é claro, que roubem sua bicicleta.

Em Oslo, onde se aperfeiçoou a arte do silêncio, as bicicletas estão se transformando em um antídoto para o ruído e a poluição dos automóveis particulares. O percurso de bicicleta da casa do dramaturgo Henrik Ibsen ao Museu Nobel no porto, e dali ao Palácio Real, é questão de minutos: exige apenas um par de joelhos fortes.

Meu fascínio pelos países escandinavos vai além das duas rodas, uma corrente bem lubrificada e um guidom com campainha. Por todo lado nesta região se recompensam os esforços por utilizar energia verde; a reciclagem deixou de ser moda do movimento ambientalista para transformar-se em hábito, a comida orgânica substitui rapidamente a rápida - inclusive nas refeições servidas nas companhias aéreas - e a tecnologia parece ter um único propósito: humanizar as cidades, torná-las mais "vivíveis", "caminháveis" e acessíveis para as bicicletas.

Como se tudo isso fosse pouco, o verão escandinavo me presenteou tardes intermináveis, com luz natural até a meia-noite. Devido ao meu trabalho, quase nunca posso desfrutar as noites. Mas nestas férias tive as noitadas mais longas e agradáveis da minha vida.

É verdade, minha experiência na Dinamarca, Suécia e Noruega seria muito diferente no inverno escuro e gelado. No entanto, por agora fico com a absoluta convicção de que se alguém visita os países mais felizes do mundo algo se cola nele e então poderá trazer essa felicidade para casa, para compartilhá-la com os amigos e a família.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Jorge Ramos

O jornalista Jorge Ramos é um dos mais conceituados analistas da questão hispânica nos Estados Unidos.

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