Star Wars: o despertar do pós-racismo

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

De Paris
  • Dylan Martinez/Reuters

    John Boyega, que vive o personagem Finn no novo "Star Wars"

    John Boyega, que vive o personagem Finn no novo "Star Wars"

O novo episódio de Star Wars transformou-se num evento planetário, em meio a debates e exposições. O filme teve sua estreia mundial em Paris, trazendo à cidade fãs que vieram da Califórnia só para assistir ao episódio sete logo na primeira sessão francesa, antes de sua estreia nos cinemas americanos. O Museu do Louvre aproveitou a deixa para organizar uma exposição intitulada "Mitos fundadores: de Hércules a Darth Vader". 

Na mídia e na blogosfera análises mais ou menos sofisticadas retomaram o esquema dos mitos de origem que, desde a Antiguidade, envolvem relações familiares (incluindo a sugestão de incesto entre Luke e Leia no episodio 4), embate entre república e império, liberdade e opressão na série de Star Wars.

Alguns analistas sublinharam um ponto interessante em "O Despertar da Força": o protagonismo de Finn (John Boyega), primeiro negro como herói central da série, e o enrosco das relações amorosas intergalácticas e interraciais entre ele e a branca Rey (Daisy Ridley).

Como é sabido, a sociedade pós-escravista americana reprimia as uniões conjugais entre brancos e negros. Até 1967, quando a Corte Suprema declarou a inconstitucionalidade de tais leis, 16 estados sulistas proibiam os casamentos, e por vezes as uniões livres, entre brancos e negros. No Alabama, a lei antimiscigenação só foi eliminada em 2000.

Mas incidentes continuam ocorrendo nos Estados sulistas. Mesmo notórios antirracistas reprovavam os casamentos interraciais. Um documentário recente da HBO sobre Frank Sinatra conta que na posse de Kennedy na Presidência (1961), a Casa Branca pediu a exclusão da lista de convidados de um casal interracial amigo de Sinatra, o ator-cantor negro Sammy Davis Jr e May Britt, sua louríssima esposa sueca.

De seu lado, no filme "Febre na Selva" (1991), Spike Lee mostra que o preconceito antimiscigenação também está presente na comunidade negra americana.

Neste contexto, os filmes de Hollywood sempre travaram ao encenar a trama das uniões amorosas entre brancos e negros. Robie Collin, o crítico de cinema do jornal londrino "The Telegraph" analisou essa questão com propriedade num artigo de abril do ano passado.

Como George Lucas, o novo diretor J.J. Abrams e Disney são favoráveis à enturmação geral entre androides, seres peludos, formigões antropomórficos, marginais e gente fina.

Muitas relações sociais fogem aos códigos terrestres (o ex-escravo Chewbacca trabalha de graça para Han Solo ou tem carteira assinada?). Porém, as relações interraciais são nitidamente embaraçosas. No final de "O Despertar da Força", a nascente atração entre Finn e Rey é literalmente congelada, com a moça ao lado do herói em estado de coma.

Nessa empreitada de bilhões de dólares, a megaempresa Disney achou arriscado liberar um beijo para valer entre os dois. Fica para a próxima, quando a crescente proporção de casamentos interraciais tornar-se mais visível nos Estados Unidos.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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