Há um século, acordo franco-britânico partilhava Oriente Médio e semeava conflitos

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Petros Giannakouris/AP

    Campo de refugiados na Grécia; crise é um dos reflexos do acordo Sykes-Picot

    Campo de refugiados na Grécia; crise é um dos reflexos do acordo Sykes-Picot

No contexto do centenário da Primeira Guerra Mundial, a mídia europeia evocou os 100 anos do acordo Sykes-Picot. Secretamente assinado em 16 de maio de 1916, o acordo decidiu a partilha das províncias árabes dos otomanos entre a França e o Reino Unido. Chamado de "o homem doente da Europa" pelo Czar Nicolau I em 1853, o imenso Império Otomano declinava desde o século 18.

Em 1916, os Estados Unidos ainda estavam fora da Primeira Guerra. Por isso, Paris e Londres davam as cartas na Europa, na África e no Oriente Médio, preparando a divisão dos territórios do campo adverso, formado notadamente pela Alemanha, a Áustria-Hungria e o Império Otomano. Terminada a guerra, a Conferência de San Remo (1920), detalhou o acordo Sykes-Picot. Londres ficou com autoridade colonial sobre a Palestina, a Transjordânia e a Mesopotâmia. Paris ganhou a Síria e o Líbano.

No pano do fundo da partilha havia um dado novo na economia mundial: a mecanização da guerra atiçara a cobiça franco-inglesa sobre o petróleo do Oriente Médio. Desde o começo houve trapaças europeias. A mais conhecida foi a enganação dos árabes, aos quais os ingleses e os franceses haviam prometido a independência caso lutassem contra os otomanos. O grande filme de David Lean, "Lawrence da Arábia" (1962) aborda este tema.

Pior ainda foi ainda a divisão, com fronteiras internacionais em linhas retas traçadas pelos colonizadores, de territórios povoados por comunidades unidas há séculos (como os curdos, cuja autonomia foi também combatida pelos nacionalistas turcos) ou a amarração num só país de gente desde sempre dividida por antagonismos religiosos (caso do Iraque). Sem contar as desastrosas manipulações francesas na Síria e inglesas na Palestina.

Boa parte dos conflitos que há décadas ensanguentam o Oriente Médio, gerando agora a dramática emigração que desequilibra a Europa, nasceram dos acordos Sykes-Picot. Obviamente os enfrentamentos religiosos, e em particular o antagonismo entre sunitas e xiitas, o fanatismo e a violência inter-étnica existiam na região muito antes de os europeus se interessarem pelo Oriente Médio. Mas as últimas intervenções ocidentais no mundo árabe aprofundaram as tensões criadas no final da Primeira Guerra.

Ficou patente que a invasão americana no Iraque (2003) gerou uma situação calamitosa. Há algumas semanas o ex-governador da Flórida Jeb Bush, irmão de George W. Bush, admitiu que a decisão de entrar em guerra contra o Iraque foi equivocada. Com outras palavras, o próprio presidente Bush havia escrito a mesma coisa.  Mais recentemente, instado a definir qual fora o seu maior erro durante suas presidências, Obama não hesitou em apontar a invasão da Líbia (2011).  Hoje, o caos criado na Líbia se espalha pelos países do Magrebe e das zonas subsaarianas.

No horizonte do Oriente Médio se anuncia outro desastre de grandes proporções: a desestabilização da Arábia Saudita. Consolidada durante o protetorado britânico iniciado na Primeira Guerra, a Arábia Saudita manteve-se sob influência britânica após sua independência (1932). Em seguida, tornou-se o principal aliado árabe dos americanos. Com tal proteção, o regime saudita conservou sua monarquia absoluta regida por uma doutrina islâmica ultraconservadora sunita (o wahabismo, exportado sob a forma de salafismo).

Porém, a queda contínua do preço do petróleo pode levar o país à bancarrota. Acresce que os Estados Unidos restabeleceram relações com o Irã, potência xiita, e maior rival muçulmana dos sauditas. Frente a tais desafios, o rei King Salman Be Saudi, hostil a qualquer reforma política, parece posicionado para passar à história como o último representante da monarquia saudita.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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