Reino Unido, agora chegou a conta do Brexit

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

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Nos últimos dias, a conta do referendo que aprovou a saída da União Europeia começou a chegar nas mãos dos habitantes do Reino Unido. Com a desvalorização da libra atingindo o mais baixo nível dos últimos 31 anos, com uma perda de 18% com relação ao dólar e 15% frente ao euro, os preços dos produtos importados e das férias dos britânicos no resto da Europa sofreram um aumento correspondente.

Como comentou Nick Lee, professor da Warwick Business School, a desvalorização da libra, tema abstrato no debate sobre o Brexit, começa agora a bater no bolso dos consumidores. É certo que alguns analistas pensam que o efeito será transitório, argumentando que a moeda britânica estava sobrevalorizada e que o aumento das exportações será benéfico para o Reino Unido. 

Mas o diretor do Banco Central britânico advertiu que a inflação subirá nos próximos dois anos, atingindo sobretudo pessoas de mais baixa renda. Na sequência, o Financial Times publicou as conclusões de um estudo mostrando que a conta do divórcio, contabilizando estornos e custos de programas compartilhados pela a UE e o Reino Unido, pode subir a 20 bilhões de euros para os britânicos.

No pano de fundo, paira também o clima deletério criado pelos comentários xenófobos do ministro do Interior britânico, Amber Rudd, e pelas declarações da primeira-ministra Theresa May, prenunciando uma ruptura mais forte com a UE –um "hard Brexit".

Um artigo de Martin Wolf, o mais prestigiado editorialista econômico britânico, publicado na Folha de S. Paulo, considera essas declarações como um tiro no pé do governo britânico. "Palavras insensatas têm consequências. Os objetivos extremistas do governo britânico agora se tornaram claros. Os investidores responderam a isso como seria de esperar, rebaixando o valor dos ativos do país da maneira mais simples: vendendo libras."

Respondendo a Londres, os líderes da UE endureceram o tom. Donald Tusk, presidente em exercício do Conselho Europeu, o mais alto órgão político da UE, disse que os britânicos sofrerão todas as consequências de sua escolha. Mas o ponto principal foi enfatizado pelo presidente francês, François Hollande, e pela chanceler alemã, Angela Merkel: se as negociações com os britânicos não forem rigorosas, as instituições e os direitos fundamentais europeus serão questionados por outros países membros, pondo em perigo a UE.

A chefe do governo alemão fez explicitamente referência à integridade das "quatro liberdades" da UE: livre circulação dos capitais, dos serviços, das mercadorias e das pessoas. Toda a retórica do Brexit consiste em defender a manutenção da livre circulação dos capitais, condicionar as outras duas liberdades e vetar a última, o livre acesso e estadia dos cidadãos europeus no Reino Unido. Ficou claro que este programa é irrealista.

A CBI (a Fiesp do Reino Unido), outros setores da opinião pública britânica e os 3,5 milhões de europeus que vivem no Reino Unido protestaram contra o "hard Brexit" anunciado por Theresa May. Resta saber quanto tempo irá durar o braço de ferro, num contexto em que a desvalorização da libra e o maciço deficit de contas correntes levam comentaristas a comparar os problemas econômicos e financeiros britânicos aos dos países emergentes.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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