UE se reorganiza em meio a saída dos EUA do Acordo de Paris

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Fabrizio Bensch/ Reuters

    A chanceler alemã comenta a decisão de Donald Trump de os EUA abandonarem o Acordo de Paris

    A chanceler alemã comenta a decisão de Donald Trump de os EUA abandonarem o Acordo de Paris

O anúncio da saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris sobre o clima, feito na quinta-feira (1º) pelo presidente Trump, tem consequências de grande alcance que merecem ser sublinhadas. Obviamente, Trump já havia tomado sua decisão há algum tempo. Mas esperou voltar à Casa Branca para comunicar um ato bombástico que poderia inviabilizar de vez o difícil diálogo que teve com seus aliados na cúpula do G7, na semana passada (26-27). De todo modo, trata-se de uma ruptura histórica entre os Estados Unidos, seus aliados ocidentais e o resto do mundo.

Após tirar seu país do Tratado de Parceria Transpacífico (TPP), atacar e ameaçar a se retirar também do Tratado Transatlântico de Comércio e Investimento (TTIP) e do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), Trump sai do Acordo de Paris, tratado não coercitivo em que 195 países concordaram em fixar suas próprias metas para a redução de emissões de gases do efeito estufa.

No seu editorial de ontem (2), intitulado "O advento de uma América derrotista", o jornal "Le Monde" compara Trump a Charles Lindenberg, o célebre aviador americano que pregava em 1940 o isolacionismo e se opunha à entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra. Na realidade, a recusa do Congresso americano de aderir, em 1920, à Liga das Nações (antecessora da ONU) criada em grande parte pelo esforço do presidente Wilson, oferece um precedente histórico mais preciso à grande divergência entre os Estados Unidas e a Europa, efetivada ontem por Trump.

Pressentindo a decisão de Trump, ou mais bem informada que seus colegas europeus, Angela Merkel declarou logo após o final do G7, "os tempos em que podíamos nos apoiar totalmente uns nos outros, estão, numa certa medida, terminados... nós, Europeus, devemos verdadeiramente tomar nosso destino em nossas próprias mãos".

Saudada pelos editorialistas pró-europeus, a declaração da chefe do governo alemão, que é também a maior estadista da atualidade, marcou data no movimento de recentragem da União Europeia (UE). Confrontada ao Brexit e ao isolacionismo trumpiano, a UE cerra suas fileiras. Ontem mesmo, os chefes de Estado e de governo da França, Alemanha e Itália publicaram um comunicado lamentando o ato do presidente americano e reafirmando que o Acordo de Paris é "irreversível" e "inegociável". Trata-se de uma resposta direta a Trump que, na sua declaração de ruptura, disse renegociaria "para ver se há um Acordo melhor".

Indo mais longe, num discurso em inglês, fato inédito no palácio presidencial francês, Emmanuel Macron disse que respeitava a decisão do presidente americano, mas que a considerava "um erro, tanto para os Estados Unidos quanto para nosso planeta". Reiterando um apelo feito durante a campanha presidencial francesa, Macron convidou os cientistas, engenheiros e empresários americanos trabalhando sobre o aquecimento planetário a se mudaram para a França, onde encontrarão "uma segunda pátria".

O fato é que a UE não está sozinha no combate contra o aquecimento planetário. Nos Estados Unidos, a decisão de Trump está sendo muito criticada pelos mais diversos setores, por grandes industriais, membros do Congresso e associação de cidadãos. Mais concretamente, trinta prefeitos de grandes e pequenas cidades, três governadores, mais de oitenta reitores de universidades e cem empresários americanos estão preparando um plano para seguir as prescrições do Acordo de Paris sobre a emissão de gases de efeito estufa. O plano será submetido à ONU, independentemente da decisão de Trump ou dos atos do governo federal americano.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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