Com isolamento de EUA e Reino Unido, China se consolida como maior parceira da Europa

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • REUTERS/Damir Sagolj

Somando-se ao Brexit, o refluxo isolacionista americano sob a presidência Trump suscitou dois movimentos de afirmação soberana da União Europeia (UE).

Em primeiro lugar, a UE resolveu se dotar de suas próprias Forças Armadas, fora do controle da OTAN e dos Estados Unidos. Até então o Reino Unido, aliado incondicional de Washington, barrava as tentativas de autonomia da UE no terreno militar.

Em segundo lugar, na sequência das proclamações protecionistas de Trump e da retirada dos EUA do Acordo de Paris sobre o Clima, a UE começa a definir uma relação bilateral mais densa com a China. Na verdade, a formalização do novo pacto sino-europeu tem um longo caminho pela frente, como ficou claro na reunião de cúpula realizada no começo de junho em Bruxelas.

No que concerne a questão do clima, o entendimento entre os chineses e os europeus foi perfeito. Na conferência final da cúpula, ao lado do primeiro-ministro chinês Li Keqiang e de Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, declarou: "Nós estamos convencidos que ... a decisão dos Estados Unidos de se retirarem do Acordo de Paris é um grande erro."

O assentimento das autoridades de Pequim ao cumprimento integral dos 29 artigos do Acordo de Paris é relevante, na medida em que a China aparece, desde 2007, como o maior emissor mundial de gases do efeito estufa.

Contudo, houve desacordo nas questões referentes ao comércio internacional. Para obter uma redução nas tarifas de importação de seus produtos na UE, Pequim queria que o documento final da cúpula incluísse uma declaração especificando que a China tinha uma economia de mercado. Mas os representantes da UE se recusaram a tanto, frustrando as expectativas chinesas.

Da mesma forma, houve desacordo entre as duas partes sobre as medidas para reduzir a produção de aço. Atualmente a produção de aço chinesa representa quase o dobro da produção das aciarias da UE provocando uma crise mundial de superprodução.

Mas há agora outra etapa de encontros sino-europeus. Rumo à reunião do G20 em Hamburgo (dias 7 e 8), o presidente chinês Xi Jinping visita hoje (4) a Rússia e em seguida realiza uma visita oficial de três dias na Alemanha, onde se reunirá com Angela Merkel e empresários alemães, antes de inaugurar uma ala de ursos panda no Zoológico de Berlim e assistir a um amistoso entre as equipes de futebol da China e da Alemanha.

Tal é o cenário da aproximação lenta e progressiva entre a UE e a China. Para se ter uma ideia da mutação em curso, é interessante observar que, durante sua história multissecular, a China ficou confinada ao papel de potência regional do Extremo-Oriente, às vezes questionada e ultrajada pelas potências ocidentais. Sua presença comercial no resto do mundo se limitava às exportações de seda, porcelana, pandas e mão-de-obra semi-servil.

Hoje, o jogo é outro. A China se tornou o maior parceiro comercial da UE e atua plenamente como grande potência mundial. Independentemente da vontade dos dirigentes europeus, haverá como sempre muitos países de pires da mão nas reuniões com o presidente da China.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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