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Livro pode derrubar Trump, mas vice seria ainda mais perigoso no poder

Jim Watson/AFP
Donald Trump e seu vice-presidente, Mike Pence Imagem: Jim Watson/AFP
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

06/01/2018 13h13

Michael Wolff é um jornalista nova-iorquino, conhecido por seu estilo ferino e sua reputação de encrenqueiro. Próximo de Trump na campanha presidencial, ele frequentou a Casa Branca e, sobretudo, realizou cerca de 200 entrevistas com altos funcionários e conselheiros do atual presidente.  Seu livro "Fire and Fury: Inside the Trump White House" foi lançado nesta sexta-feira (5) e subiu ao topo dos best-sellers americanos. Seu impacto nos Estados Unidos é grande, como está sendo noticiado pela mídia internacional e brasileira. Antes do lançamento, houve divulgação do livro em alguns órgãos de imprensa americanos e ingleses.

No "New York Times" de quinta-feira (4), Michelle Goldberg resenhou "Fire and Fury" chamando a atenção para um ponto importante, que ela considera, com toda razão, uma das histórias "mais alarmantes" do livro. Trata-se do incidente envolvendo a demissão de James Comey do cardo de diretor do FBI. Michelle Goldberg pondera que não são as razões de Trump para demitir Comey que assustam (Ivanka, a filha de Trump, e seu genro Jared Kushner temiam que o FBI checasse as finanças da família).

Segundo a jornalista, "a parte apavorante" da história é que Trump, escondeu durante dias de todo mundo, incluindo seus assessores mais próximos, sua decisão de demitir Comey. Ela cita então uma passagem do livro de Wolff: "A demissão ...de James Comey é, talvez, o ato mais significante tomado por um presidente [dos EUA] agindo totalmente só". E Michelle Goldberg completa: "Agora, imagine Trump tomando a mesma atitude com relação ao ataque à Coréia do Norte".

Este gênero de considerações suscitadas pelo livro de Wolff questionam de novo a capacidade de Trump para exercer o cargo presidencial e reatualizam o debate sobre seu impeachment. Obviamente, o impeachment teria que ser aprovado pelo Congresso, onde os republicanos têm maioria, tornando improvável sua aprovação e a ascensão do vice-presidente Mike Pence à Casa Branca. No entanto, Jane Meyer, uma das principais editorialistas da New Yorker Review (NYR), publicou recentemente na revista um longa e densa reportagem com um título bastante significativo: "O perigo presidente Pence".

Jane Meyer observa que boa parte da oposição à Trump, composta por democratas, mas também por republicanos e conservadores que apoiaram o atual presidente, tem se manifestado a favor do impeachment dizendo preferir Mike Pence na Casa Branca. Ela pensa que se trata de um grave equívoco: Mike Pence é um ultraconservador mais perigoso que Trump. Meyer fala do ponto de vista oposicionista, próximo da esquerda americana, que orienta a maioria dos editorialistas da NYR. Mas sua análise bem documentada merece atenção.

Para ela, Pence, ex-deputado federal (2001-2013) e ex-governador de Indiana (2013-2017), é muito mais habilitado do que Trump para implementar a agenda política da extrema-direita americana. Bom conhecedor do Congresso e das máquinas partidárias e parlamentares, muito bem relacionado com os milionários e bilionários que levou até Trump, Pence conseguirá efetivar o programa ultraconservador ameaçado pelas trapalhadas do atual presidente.

Jane Meyer cita a declaração de Newt Gringrich, ex-presidente da Câmara dos Deputados e ex-líder dos ultraconservadores republicanos: "Pence será o provável candidato dos republicanos em 2024". A conclusão do artigo de Michelle Goldberg no NYT é igualmente pessimista para os democratas e a esquerda americana. Citando o otimismo dos republicanos sobre a gestão Trump, ela lembra a piada do sujeito caindo de um prédio de 50 andares que grita para alguém assustado numa janela do 25° andar: "até aqui, está tudo indo bem!"