Trump e a China: haverá mais um round nessa disputa?

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Nicolas Asfour/AFP

    Presidente dos EUA Donald Trump com o presidente chinês Xi Jinping

    Presidente dos EUA Donald Trump com o presidente chinês Xi Jinping

O novo capítulo do psicodrama encenado na Casa Branca por Donald Trump tem importantes desdobramentos nas relações sino-americanas.

Como já foi observado aqui mesmo, a virada protecionista de Trump e, em particular, sua decisão de retirar os EUA da Parceria Transpacífico (TPP), ofereceu novas possibilidades à ofensiva comercial e geopolítica chinesa.

De início se previa que o TPP iria minguar sem a participação americana. Porém, na quinta-feira passada (8), no mesmo dia em que Trump assinava o aumento das tarifas sobre o aço e o alumínio, onze países assinaram uma versão remodelada do TPP.

Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Peru, Cingapura e Vietnam estão agora unidos numa ampla zona comercial. Contendo 500 milhões de pessoas e representando 13% da economia global, o novo TPP irá progressivamente reduzir tarifas e estimular o intercâmbio entre os onze países membros. 

Numa nova prova de desorientação, Trump declarou no mês de janeiro, no Fórum de Davos, que os Estados Unidos poderiam, talvez, se associar ao novo TPP. Mas os representantes da Nova Zelândia e do Japão praticamente excluíram esta possibilidade. 

Como lembrou o New York Times, o TPP havia sido elaborado pela presidência Obama para congregar os principais países da região sob a liderança americana, com a finalidade de contra-arrestar a ofensiva chinesa no Pacífico.

Com o novo isolacionismo americano, a China tem avançado seus peões, mas encontra a oposição do Japão bem na sua fronteira marítima. Terceira economia do mundo (depois dos EUA e da China), o Japão lidera uma aliança informal "implicitamente anti-chinesa", segundo o New York Times, que reúne a Índia, a Austrália e os EUA.

A demissão de Rex Tillerson da chefia do Departamento de Estado, e sua substituição por Mike Pompeo, um partidário da linha dura na diplomacia americana, acrescenta um dado novo na rivalidade potencial entre Washington e Beijing.

Numa entrevista para BBC no final de janeiro, quando ainda dirigia a CIA, Pompeo foi enfático: a China é uma ameaça maior que a Rússia para os Estados Unidos. Desenhando o quadro geral da espionagem econômica e científica chinesa nos Estados Unidos, Pompeo lançou um alerta sobre as tentativas da China de "se infiltrar" nas escolas, nos hospitais, nas redes médicas e nas empresas americanas.

Formado e doutrinado na CIA, Mike Pompeo é muito mais próximos das posições agressivas de Trump na política externa do que Rex Tillerson, grande empresário acostumado a negociar com os mais variados interlocutores.

Do outro lado do Pacífico há também uma mudança significativa. Transformando-se no mais poderoso dirigente chinês desde Mao-Tse-Tung, Xi Jinping aumentou seus poderes, reforçando seu controle sobre a administração, criando um culto da personalidade a abolindo os prazos constitucionais para a sua presidência.

A maioria da imprensa ocidental considera que Xi Jinping se transformou num verdadeiro autocrata. "Xi-Jinping: de presidente a novo ditador?" escreveu na semana passada um editorialista do jornal de esquerda londrino "The Guardian".

Ainda é cedo para prever o futuro das relações sino-americanas. Mas já dá para saber que o enfrentamento entre a China e os Estados Unidos tem um potencial muito mais devastador, mesmo limitado ao terreno econômico, do que a rivalidade entre Washington e Moscou. 

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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