O populismo perplexo

Paul Krugman

Paul Krugman

  • Eric Thayer/The New York Times

Hillary Clinton ganhou na votação popular por mais de 2 milhões, e ela provavelmente seria a presidente-eleita se o diretor do FBI não tivesse colocado um dedo pesado na balança poucos dias antes da eleição.

Mas esta não deveria sequer ter sido apertada; o que colocou Donald Trump em uma distância surpreendente foi o apoio avassalador dos eleitores brancos sem educação superior. Então, o que os democratas podem fazer para recuperar pelo menos parte desses eleitores?

Recentemente, Bernie Sanders ofereceu uma resposta: os democratas deveriam "ir além da política de identidade". O que é necessário, segundo ele, são candidatos que compreendam que a renda da classe trabalhadora caiu, que "enfrentem Wall Street, as companhias de seguros, as farmacêuticas, a indústria de combustíveis fósseis".

Mas há algum motivo para se acreditar que isso daria certo? Deixe-me dar algumas razões para duvidar.

Primeiro, um ponto geral: qualquer afirmação de que posições políticas diferentes vão ganhar eleições pressupõe que o público ouvirá falar nessas posições. Como isso deve acontecer, quando a maior parte da mídia simplesmente se recusa a cobrir temas políticos? Lembre-se, ao longo da campanha de 2016 os noticiários das três redes dedicaram ao todo 35 minutos às questões políticas _todas as questões. Entretanto, deram 125 minutos aos e-mails de Hillary Clinton.

Além disso, o fato é que os democratas vêm seguindo políticas que são muito melhores para a classe trabalhadora branca do que qualquer coisa que o outro partido tem a oferecer. Mas isso não trouxe uma recompensa política.

Considere o leste de Kentucky, uma área muito branca que se beneficiou enormemente das iniciativas da era Obama. Veja, em particular, o caso do condado de Clay, que alguns anos atrás o "Times" declarou ser o lugar mais difícil de se viver nos EUA. Ainda é muito difícil. Mas hoje pelo menos a maioria de seus moradores tem seguro-saúde: estimativas independentes dizem que o índice de não segurados caiu de 27% em 2013 para 10% em 2016. Esse é o efeito da Lei de Acesso à Saúde, que Hillary prometeu preservar e ampliar, mas Trump prometeu extinguir.
Trump recebeu 87% dos votos no condado de Clay.

Agora, você poderia dizer que seguro-saúde é uma coisa, mas o que as pessoas querem são bons empregos. O leste de Kentucky já foi a terra do carvão, e Trump, diferentemente de Hillary, prometeu trazer de volta os empregos no carvão. (Esqueça a ideia de que os democratas precisam de um candidato que enfrente a indústria de combustíveis fósseis.) Mas é uma promessa absurda.

Para onde foram os empregos das minas de carvão dos Apalaches? Não se perderam para a concorrência desleal da China ou do México. O que aconteceu foi, em primeiro lugar, uma erosão durante décadas em que a produção de carvão nos EUA passou das minas subterrâneas para minas a céu aberto e remoção de cumes, que exigem muito menos trabalhadores. O emprego no carvão atingiu o pico em 1979, caiu rapidamente durante os anos Reagan e estava em baixa de mais de 50% em 2007. Uma nova queda veio nos últimos anos, graças à extração por fraturamento hidráulico [fracking]. Nada disso é reversível.

O caso da antiga terra do carvão é excepcional? Na verdade não. Ao contrário do declínio do carvão, parte do declínio em longo prazo do emprego na indústria fabril pode ser atribuída aos crescentes deficits comerciais, mas mesmo aí é uma fração relativamente pequena da história. Ninguém pode de maneira crível prometer recuperar os antigos empregos; o que se pode prometer --como fez Hillary-- são coisas como atendimento de saúde garantido e maiores salários mínimos. Mas os brancos da classe trabalhadora votaram avassaladoramente em políticos que prometem destruir esses ganhos.

Então o que aconteceu aqui? Parte da resposta talvez seja que Trump não teve problemas em mentir sobre o que poderia realizar. Nesse caso, talvez haja uma reação quando os empregos no carvão e na manufatura não voltarem, enquanto o seguro de saúde desaparece.

Mas talvez não. Talvez um governo Trump consiga manter seus apoiadores a bordo, não melhorando suas vidas, mas alimentando sua sensação de ressentimento.

Pois sejamos sérios aqui: você não pode explicar os votos de lugares como o condado de Clay como uma reação a desacordos sobre política comercial. A única maneira de entender o que aconteceu é ver o voto como uma expressão de... bem, política de identidade --uma combinação de ressentimento branco pelo que os eleitores consideram favoritismo em relação aos não brancos (apesar de não ser) e raiva por parte dos menos instruídos em relação às elites liberais que eles imaginam que os desprezam.

Para ser franco, eu não compreendo totalmente esse ressentimento. Em particular, não sei por que o imaginário desprezo liberal inspira tanta raiva, mais que o próprio desprezo dos conservadores que veem a pobreza em lugares como o leste do Kentucky como um sinal da inadequação moral e pessoal de seus moradores.

Uma coisa está clara, porém: os democratas têm de descobrir por que a classe trabalhadora branca acaba de votar majoritariamente contra seus próprios interesses econômicos, e não fingir que um pouco mais de populismo resolveria o problema.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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